Normalmente, a sequência dos dias úteis gera uma benvinda expectativa pelo fim-de-semana, o momento
de se cuidar de interesses pessoais, no aconchego do lar, junto à família e no
convívio de amigos.
Mas a expectativa do ‘dia de
descanso’ é puro sofrimento para quem viaja os 100 km que levam ao convívio
marital da 'visita íntima', em um cômodo ajambrado para um arremedo de amor,
após uma penosa e longa fila entre familiares de presidiários, presumivelmente
incultos e de difícil trato (quanta mulher grávida...). Este sofrimento já se arrasta há mais de ano.
Surpreendido em sua própria
casa, na madrugada em que dormia ao lado da esposa e da neném, aprisionado a
despeito da total ausência de provas, ainda que os batedores tenham destruído
seu carro e desorganizado barbaramente a cozinha, a sala e o quarto. Sua esposa
inquirida em trajes menores, seu bebê aos prantos, enquanto ele próprio era agressivamente
interrogado, chamavam-no por um nome que não era o seu, nunca fora (é sabido
que na mesma cidade reside alguém com tal alcunha, proprietário de veículo da
mesma marca e cor do que fora ‘averiguado’, mas de pele clara. Na dúvida,
preserva-se o homem branco??).
Nem ao menos uma grama de
entorpecente contribuíra na almejada prova de cumplicidade em um assassinato
que já mantém quase uma dezenas de outras pessoas reclusas.
Desde então, seus dias se
tornaram uma sucessão de horas improdutivas, em meio ao vão convívio dos que
compartilham igual fortuna, prisioneiros.
Seu emprego? Incerto, apesar
de não haver sido demitido, sem receber salário. Auxílio-reclusão? Inaplicável
a quem percebia valor acima de um certo valor-limite, na ocasião do
aprisionamento.
Direitos humanos? Inúteis em exercer
direitos civis e constitucionais básicos. Incapazes de acender o brilho da luz
no fim do túnel, tão somente apregoam o banho-de-sol periódico.
A única boa notícia neste ano
foi a recente transferência a um pavilhão onde, acredita-se, todos os
prisioneiro estão a aguardar julgamento. No mais, a catatônica rotina de um condomínio
que, à semelhança do Inferno de Dante, bem poderia ostentar o letreiro ‘Deixai
toda esperança, vós que entrais’.
Neste interim, sua esposa o
visita semanalmente, sua mãe, mensalmente; a filha, raramente. Visitá-lo
implica em constrangedoras revistas, cotas limitadas de tudo o que se pensa em levar,
mas com o cuidado de levar itens a mais, em favor de um convívio minimamente harmonioso
com os colegas de cela.
A presente narrativa, emoldura
a lacônica condição de um país que sonhou grande, mas não se movimentou com
decisão e paixão na consolidação de uma nação promotora de justiça, cidadania e
desenvolvimento sustentável.
O personagem central desta
narrativa nos leva a pensar em quantos não devem ser os inocentes presos Brasil
afora, incontáveis bons cidadãos imersos na maior universidade brasileira (a de ciências e práticas criminais), inacessíveis a uma justiça serena e
célere. Aqui, peço a sua licença para uma menção politicamente incorreta, a fim de repassar na íntegra a percepção da mãe de nosso personagem, de que no Brasil, ’ser
preto e pobre é uma desgraça!'.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
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