Eu e minha esposa procurávamos a Rue du Bac. Em língua inglesa, pedi auxílio a um cidadão parisiense que caminhava pela calçada. Extremamente atencioso, apesar de desconhecer o endereço, ele somente nos deixou seguir após sacar seu celular e, pela Internet, localizar o endereço e certificar-se de que havíamos entendido o trajeto até a igreja de Nossa Senhora das Graças.
No dia seguinte, enquanto minha esposa aproveitava os excelentes preços de cosméticos na Pharmacity, eu me mantinha agachado, a entreter um menino sorridente de dois ou três anos, o qual, mantendo sua mão agarrada à de sua mãe que vasculhava as prateleiras de produtos. Esse menininho se agradava com minhas caretas, mas, com um semblante preocupado me perguntou porque eu não falava. Respondi Je ne pas parle français. Ainda mais curioso, e expressando compaixão, o doce menino retorquiu: Pourquoi? então respondi-lhe: Je parle portughese.
Na Notre Dame, concluída minha confissão, o padre aceitou que eu me estendesse em conversa, mas uma senhora já se aproximava para receber o sacramento. De forma simpática, o sacerdote sinalizou que eu devia seguir: 'you may go to your visit'.
Corria o mês de novembro de 2013. Um ano após, em 2014, vi um grupo de jovens turistas brasileiras perguntando a quem passava na calçada, em alto e bom português 'Onde fica o McDonalds mais próximo?'. A despeito da barreira da língua, conseguiram um parisiense disposto a ajudá-los.
Hoje, dia 14 de novembro de 2015, lamento pensar que essas e outras tantas pessoas que nos dedicaram atenção e orientaram nosso caminho, possam estar aflitas ou sofrendo, vítimas do inadmissível ódio de quem - mesmo estando lá - foi incapaz de render-se à civilidade e amizade do povo francês.
sábado, 14 de novembro de 2015
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Lanceiros Negros III
Normalmente, a sequência dos dias úteis gera uma benvinda expectativa pelo fim-de-semana, o momento
de se cuidar de interesses pessoais, no aconchego do lar, junto à família e no
convívio de amigos.
Mas a expectativa do ‘dia de descanso’ é puro sofrimento para quem viaja os 100 km que levam ao convívio marital da 'visita íntima', em um cômodo ajambrado para um arremedo de amor, após uma penosa e longa fila entre familiares de presidiários, presumivelmente incultos e de difícil trato (quanta mulher grávida...). Este sofrimento já se arrasta há mais de ano.
Surpreendido em sua própria casa, na madrugada em que dormia ao lado da esposa e da neném, aprisionado a despeito da total ausência de provas, ainda que os batedores tenham destruído seu carro e desorganizado barbaramente a cozinha, a sala e o quarto. Sua esposa inquirida em trajes menores, seu bebê aos prantos, enquanto ele próprio era agressivamente interrogado, chamavam-no por um nome que não era o seu, nunca fora (é sabido que na mesma cidade reside alguém com tal alcunha, proprietário de veículo da mesma marca e cor do que fora ‘averiguado’, mas de pele clara. Na dúvida, preserva-se o homem branco??).
Nem ao menos uma grama de entorpecente contribuíra na almejada prova de cumplicidade em um assassinato que já mantém quase uma dezenas de outras pessoas reclusas.
Desde então, seus dias se tornaram uma sucessão de horas improdutivas, em meio ao vão convívio dos que compartilham igual fortuna, prisioneiros.
Seu emprego? Incerto, apesar de não haver sido demitido, sem receber salário. Auxílio-reclusão? Inaplicável a quem percebia valor acima de um certo valor-limite, na ocasião do aprisionamento.
Direitos humanos? Inúteis em exercer direitos civis e constitucionais básicos. Incapazes de acender o brilho da luz no fim do túnel, tão somente apregoam o banho-de-sol periódico.
A única boa notícia neste ano foi a recente transferência a um pavilhão onde, acredita-se, todos os prisioneiro estão a aguardar julgamento. No mais, a catatônica rotina de um condomínio que, à semelhança do Inferno de Dante, bem poderia ostentar o letreiro ‘Deixai toda esperança, vós que entrais’.
Neste interim, sua esposa o visita semanalmente, sua mãe, mensalmente; a filha, raramente. Visitá-lo implica em constrangedoras revistas, cotas limitadas de tudo o que se pensa em levar, mas com o cuidado de levar itens a mais, em favor de um convívio minimamente harmonioso com os colegas de cela.
A presente narrativa, emoldura a lacônica condição de um país que sonhou grande, mas não se movimentou com decisão e paixão na consolidação de uma nação promotora de justiça, cidadania e desenvolvimento sustentável.
O personagem central desta narrativa nos leva a pensar em quantos não devem ser os inocentes presos Brasil afora, incontáveis bons cidadãos imersos na maior universidade brasileira (a de ciências e práticas criminais), inacessíveis a uma justiça serena e célere. Aqui, peço a sua licença para uma menção politicamente incorreta, a fim de repassar na íntegra a percepção da mãe de nosso personagem, de que no Brasil, ’ser preto e pobre é uma desgraça!'.
Mas a expectativa do ‘dia de descanso’ é puro sofrimento para quem viaja os 100 km que levam ao convívio marital da 'visita íntima', em um cômodo ajambrado para um arremedo de amor, após uma penosa e longa fila entre familiares de presidiários, presumivelmente incultos e de difícil trato (quanta mulher grávida...). Este sofrimento já se arrasta há mais de ano.
Surpreendido em sua própria casa, na madrugada em que dormia ao lado da esposa e da neném, aprisionado a despeito da total ausência de provas, ainda que os batedores tenham destruído seu carro e desorganizado barbaramente a cozinha, a sala e o quarto. Sua esposa inquirida em trajes menores, seu bebê aos prantos, enquanto ele próprio era agressivamente interrogado, chamavam-no por um nome que não era o seu, nunca fora (é sabido que na mesma cidade reside alguém com tal alcunha, proprietário de veículo da mesma marca e cor do que fora ‘averiguado’, mas de pele clara. Na dúvida, preserva-se o homem branco??).
Nem ao menos uma grama de entorpecente contribuíra na almejada prova de cumplicidade em um assassinato que já mantém quase uma dezenas de outras pessoas reclusas.
Desde então, seus dias se tornaram uma sucessão de horas improdutivas, em meio ao vão convívio dos que compartilham igual fortuna, prisioneiros.
Seu emprego? Incerto, apesar de não haver sido demitido, sem receber salário. Auxílio-reclusão? Inaplicável a quem percebia valor acima de um certo valor-limite, na ocasião do aprisionamento.
Direitos humanos? Inúteis em exercer direitos civis e constitucionais básicos. Incapazes de acender o brilho da luz no fim do túnel, tão somente apregoam o banho-de-sol periódico.
A única boa notícia neste ano foi a recente transferência a um pavilhão onde, acredita-se, todos os prisioneiro estão a aguardar julgamento. No mais, a catatônica rotina de um condomínio que, à semelhança do Inferno de Dante, bem poderia ostentar o letreiro ‘Deixai toda esperança, vós que entrais’.
Neste interim, sua esposa o visita semanalmente, sua mãe, mensalmente; a filha, raramente. Visitá-lo implica em constrangedoras revistas, cotas limitadas de tudo o que se pensa em levar, mas com o cuidado de levar itens a mais, em favor de um convívio minimamente harmonioso com os colegas de cela.
A presente narrativa, emoldura a lacônica condição de um país que sonhou grande, mas não se movimentou com decisão e paixão na consolidação de uma nação promotora de justiça, cidadania e desenvolvimento sustentável.
O personagem central desta narrativa nos leva a pensar em quantos não devem ser os inocentes presos Brasil afora, incontáveis bons cidadãos imersos na maior universidade brasileira (a de ciências e práticas criminais), inacessíveis a uma justiça serena e célere. Aqui, peço a sua licença para uma menção politicamente incorreta, a fim de repassar na íntegra a percepção da mãe de nosso personagem, de que no Brasil, ’ser preto e pobre é uma desgraça!'.
terça-feira, 25 de agosto de 2015
Sebastião Fermiano (Capítulo 3)
Capítulo
3 - Da oração à ação
Sebastião
aplicava-se na oração do terço, mas um incômodo o perturbava constantemente:
comparado ao formidável resgate de sua vida, sentia que tinha feito pouco e
acreditava que precisava realizar muito mais! Uma ideia começou então a ganhar
forma em sua mente: lembrou-se de que, quando percorria as casas do Jardim
América, seus companheiros de terço sempre lamentavam a falta que fazia uma
capela no bairro, que era tão grande! Passou a se perguntar, se não seria o
caso de juntar um grupo de pessoas de boa vontade para levantar essa sonhada
capela...
Por essa
altura, como já frequentasse a igreja de Santa Cecília e mantivesse um bom
relacionamento com o Padre Chico, aquele mesmo que lhe entregara um terço para
que rezasse pela paróquia, resolveu procurá-lo em busca de orientações. Expôs
sua intenção de fazer algo mais do que rezar, tentando movimentar o povo do seu
bairro para que juntos construíssem uma capela no Jardim América. O padre
aprovou a ideia, que vinha bem a calhar, pois se tratava de um grande desejo
seu, para o qual já dispunha até de terreno e da planta aprovada!
Sebastião
lutou tanto em prol da construção da capela, que este breve relato não
conseguiria detalhar todo o trabalho que desenvolveu. De começo, assumiu a
liderança do movimento. Arregimentou amigos e conhecidos e se lançaram à luta
para arrecadar fundos e levantar a capela. Pediam donativos de porta em porta e
faziam mutirões para as diversas fases da obra, desde a preparação do terreno
até o acabamento. Sebastião arregaçava as mangas, fazia um pouco de cada coisa,
preocupado com que tudo ficasse bom. Desempenhava todas as funções, aprendendo,
fazendo e ensinando, mas - sobretudo - animando a todos para que a obra
seguisse em frente!
E fazia
mais: diariamente, após o exaustivo expediente na FNV, nos fins de semana e
feriados, criou uma equipe sui generis que trabalhava sem
esmorecer: junto à esposa, aos filhos e alguns amigos, Sebastião punha mãos à
obra, no fabrico dos blocos de cimento necessários ao erguimento das
paredes...
As
funções litúrgicas tiveram início com o prédio já coberto e ainda sem rebocar.
Foram precisos vários anos, até que a capela chegasse à situação atual, quando
funciona como o local onde uma comunidade dedicada e operosa se congrega, reza
e eleva louvores a Deus!
Capela de São Benedito, erguida por Sebastião Fermiano, familiares e amigos
A Capela de São Benedito, vista mais de perto. Está situada no bairro Jardim América, em Cruzeiro-SP
Por
decisão do Vigário, Sebastião e família se mudaram para um ‘puxado’ construído
nos fundos da capela. O conforto de residir junto ao edifício sacro se
justificava pelas obrigações de Sebastião e família, que não cessavam de se
multiplicar: Sebastião era o vigia, o sacristão, o catequista e também o líder
da comunidade, posição exercida por um bom número de anos.
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
Sebastião Fermiano (Capítulo 2)
Um começo complicado...
No primeiro passo de sua nova vida, Sebastião dirigiu-se à Matriz da
Imaculada Conceição em Cruzeiro, para comunicar ao vigário que havia concluído
um Cursilho e oferecer seus préstimos (que ele não sabia bem quais seriam...).
A resposta foi curta e grossa: “Cursilhistas são todos um fogo de palha! Saem
de Aparecida cheios de entusiasmo, mas passadas duas ou três semanas, não vejo
mais nenhum aqui na igreja!”. Recusou a ajuda, mas sugeriu que procurasse o
Padre Cândido, na outra paróquia que havia em Cruzeiro.
Meio desapontado, Sebastião dirigiu-se à paróquia de Santa
Cecília, onde encontrou um senhor sentado e rezando o terço. Dirigiu-se a ele e
perguntou onde podia encontrar o Padre Cândido. – “Sou eu mesmo, Padre
Francisco Cândido da Silva, às suas ordens”. Sebastião apresentou-se, falou do
Cursilho e se ofereceu para fazer alguma coisa na paróquia. O Padre ficou uns
instantes quieto e Sebastião pensou com seus botões: “Pronto, agora vai me
mandar para alguma paróquia de Cachoeira...”. O Padre Cândido mostrou-lhe o
terço que estava em suas mãos e perguntou: - “Sabe o que é isto, Sebastião?”
–“Sei, sim senhor, é um terço!” –“Toma, leva com você e reza pela nossa
paróquia e já estará ajudando muito!”
Sebastião foi embora com o terço na mão, pensando no que faria, ele que
era tão destreinado das coisas de oração... Mas tranquilizou-se ao lembrar que
sua esposa Maria vivia de terço na mão e poderia bem lhe ensinar o jeito de
rezar aquelas contas marrons. Mas a resposta dela... “Ah, eu sei rezar só prá
mim, Tião, não sei ensinar ninguém, não!”. Desconsertado, ele apertou o terço
na mão e pediu a Deus que o ajudasse a não falhar, logo na primeira tarefa que
lhe davam.
No dia seguinte, o companheiro de trabalho que o convidara para o
Cursilho veio lhe perguntar se ele poderia ajudar num trabalho novo que estava
realizando, com mais alguns amigos no bairro Jardim América. Eles visitavam as
famílias católicas do bairro para rezar o terço diante de uma imagem de Nossa
Senhora, que levavam de casa em casa. Alegre, Sebastião aceitou o convite e
passou um período de uns três meses acompanhando a reza do terço, como lhe fora
encomendado. Passado esse tempo, não havendo novas casas a visitar, cessaram as
visitas. E Sebastião sentiu-se perdido, pois não aprendera de cor a
contemplação dos mistérios do terço...
Desconsolado, certa manhã de domingo levantou-se cedo e
caminhou até a igreja de Santa Cecília, onde se sentou diante do Santíssimo com
o terço na mão e pôs-se a pedir ajuda a Jesus. Foi quando um cursilhista seu
conhecido pôs a mão em seu ombro e lhe perguntou o que o afligia. Explicado o
problema, Sebastião foi desafiado a ler a página 25 do livrinho “Guia do
Peregrino”, que recebera no Cursilho e trazia consigo no bolso da sua camisa.
Leu com enorme dificuldade, mas como conseguira ler algo, recebeu uma bronca:
“Ah, Sebastião, nessa página e nas seguintes estão os Mistérios do Terço. Você
lê com dificuldade, mas consegue, vá em frente!”. Assim, aos poucos, Sebastião
começou a caminhar com as próprias pernas na recitação do terço e das orações
mais importantes. O cursilhista que lhe ensinou o “caminho das pedras” era
outro Sebastião, José Sebastião Penido, meu pai.
***
“Eu não tive estudo, graças a Deus”,
declarou Sebastião, levando às gargalhadas os cerca de 70 cursilhistas atentos
ao seu ‘rollo’ (palestra) e imaginando que o palestrante se declarava aliviado
por ter ficado livre de frequentar a escola.
Mas, Sebastião prosseguiu com ternura, se justificando: “Eu digo
assim por que entendo que tudo é graça de Deus. E por isso eu agradeço a Ele
tudo o que acontece em minha vida, de bom ou de ruim.”
(72° Cursilho para homens, Lorena-SP, 1992).
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Pequenas ações, grandes valores
Curitiba, 2015
- -
São Paulo, 2009
O coordenador da equipe abastecia a !cantina' anexa à nossa sala de trabalho, abraçado a um grande saco com cerca de três dezenas de pães, que estariam à disposição dos funcionários, para serem consumidos com manteiga Aviação e copos de café, café com leite, achocolado ou capuccino. Ao término do expediente, as luzes daquela sala do DER (Metrô Armênia) eram apagadas, deixando-se para trás uma boa quantia de pães, que seriam descartados na manhã seguinte, quando a nova remessa de pães chegasse.
Naquela época, eu ocupava um quarto no Hotel Concorde, na Rua Sílvia, Bela Vista. Como passasse a semana longe da família, tinha por costume uma caminhada noturna até a Paulista, indo e voltando pela alameda Rio Claro, que ladeia o antigo Hospital Matarazzo, então em aparente estado de abandono. Ao longo de seus altos muros, diversas pessoas improvisavam um meio de passar a noite.
Não demorou muito para que eu percebesse o potencial daquelas sobras de pães na nossa sala do DER, onde normalmente era eu quem apagava as luzes.
Um deles, sentado sobre algumas mantas estendidas no chão, estendeu a mão direita e, com um sorriso que denunciava firme satisfação, recebeu o pão e me retribuiu com um voto inestimável: "E pão você terá!".
- -
A prosperidade materializada no desejo sincero de um coração. Difícil imaginar como conseguir algo maior.
sexta-feira, 17 de julho de 2015
Mário Marcos
"Quantos anos você acha que eu tenho?!", me perguntou, de um jeito divertido, mas um tanto indignado e decidido a esclarecer que eu estava equivocado: "eu tenho 21 anos!". Não me surpreendeu, mas percebi perguntar sobre a construção de Brasília já eram demais. Ainda assim, Mário Marcos Gonçalves dominava muitos mais assuntos do que se poderia esperar de alguém com sua idade.
Natural de Guaxupé-MG e recém-formado, o jovem havia conquistado um posto de trabalho na FNV, a Fábrica Nacional de Vagões, em minha cidade natal, Cruzeiro-SP. A antiga amizade de nossos pais favoreceu que Mário Marcos tomasse parte nos almoços de domingo lá em casa, oportunidade para que nos brindasse com seu conhecimento e suas muitas histórias.
Entre goles de coca-cola, garfadas de macarrão e fatias de torta, acolhíamos os relatos de suas viagens, descrições de igrejas e mistérios de Ouro Preto e Mariana, além de causos da Inconfidência Mineira e aventuras em Parques Nacionais. As tardes intermináveis de domingo eram regadas a carteados de Buraco e Krapot, partidas de xadrez e Atari (meu video-game) ou CP-300 (seu computador).
Sua narrativa que mais me marcou foi a exploração de uma mina de ouro abandonada em Ouro Preto, apoiado por um amigo espeleólogo:
"A entrada da mina estava em propriedade privada, próxima à casa da proprietária. Com sua permissão, pudemos entrar. As galerias internas eram - a princípio - organizadas e bem estruturadas. mas o túnel de formato retangular já logo à frente foi perdendo a forma, chegando a de difícil passagem."
"Seguimos nos arrastando no chão, na horizontal, por um conduto que ia se afunilando, a passagem ficava cada vez mais estreita. Comecei a me preocupar com a possibilidade de meu amigo, que seguia à frente e era maior que eu, ficar entalado. Foi quando me perguntei: 'o que estou fazendo aqui?'. Eram toneladas de terra acima, abaixo, por todos os lados!"
"Naquele trecho, o túnel voltava a ser bem estruturado, com acessos laterais perpendiculares dispostos com regularidade. Entendemos ser uma outra entrada da mina, mas a abertura para fora pode ter sido fechada por um desmoronamento."
"Chegamos a um salão maior que os demais, com muita água acumulada no chão, aos pés de uma parede alta de quartzo."
Seus relatos da trilha percorrida na Serra da Canastra ('tinha orquídea!'), da subida ao Pìco do Itacolomi, de passeios de caiaque, selaram em mim uma paixão pela aventura em ambientes naturais.
Mais do que palavras, fomos conhecer de perto o Parque Nacional de Itatiaia, onde conhecemos a cachoeira do Véu-da-Noiva (enfim, entrei em uma cachoeira da Serra!!) e o Vale dos Lírios. Foram ocasiões em que eu percebi que a Serra da Mantiqueira podia ser mais que uma bela paisagem em minha janela: estava acessível! Mas nem por isso consegui convencê-lo a irmos lá ver a neve, no inverno de 1985.
Ao me transmitir sua forma simples e divertida de ser, Mário Marcos me ensinou que podemos fazer os sonhos se realizarem. Respondi tudo isso nos anos que se seguiram, percorrendo trilhas, subindo montanhas, acampando, mergulhando em rios, lagos e mares, explorando cavernas, viajando em busca de locais onde praticar rapel e rafting. Não fiz escalada com grampos, mas cheguei perto, frequentando as primeiras aulas de um curso para este fim (ah, o medo de altura...).
As pipas foram um capítulo à parte: Mário Marcos comprou varetas chinesas e me ensinou a construir um enorme 'colibri' e uma grande 'pipa-flor'. Esta última encapada com papel celofane vermelho e rabiola em celofane verde. A luz do sol atravessava o celofane, projetando no chão as cores vibrantes da pipa. Ainda hoje, às vezes, sou surpreendido pela súbita lembrança da 'sombra' colorida da pipa-flor. Que boa lembrança, que boa saudade!
Compartilhávamos o mesmo gosto por Beatles e fui apresentado a Pink Floyd e Vangelis. Mário Marcos também tentou me fazer gostar de Caetano Veloso, que à época fazia sucesso com Shine moon, mas desse eu precisei de mais tempo para me interessar. Hair era o seu filme preferido. Assistimos a Gritos do Silêncio (The killing fields), uma história real que me impressionou muito, mas que apenas recentemente - após muito rever - compreendi na íntegra.
Meu amigo também relatava a vida nas repúblicas estudantis de Ouro Preto-MG, onde tinha a incubência de elaborar 'planos mirabolantes e infalíveis' para a conquista de garotas. Falava de paqueras, mecânica de motos e carros, fotografia, hotel mal assombrado, programação, tinha a intenção de montar um jogo de computador sofisticado, sobre finanças ('jogos de ação já existem muitos, eu posso fazer algo diferente'). Falava dos cursos que frequentara, dos quais Mineralogia haverei de estudar!
Sempre dava uma boa resposta para uma boa dúvida: a função do farol de milha, porque a lua é maior próxima ao horizonte, aerodinâmica,...
Mário Marcos falava com calma e de forma pausada, encadeando as idéias e instigando a saber mais um pouco. Ficava um gostinho de quero mais. A fluência de suas conversas cativava a todos, estabelecendo empatia com meus pais, meus irmãos mais velhos e meu irmão caçula. Sou grato a ele por muito do que empreendi e venho realizando desde então.
Tive a honra de conhecer sua família, quando me convidou a passar o fim-de-semana em sua cidade natal. Já com 15 anos, segui atentamente o conselho materno: 'comporte-se e te convidarão a voltar mais vezes'. Lá em Guaxupé, sua mãe se desfez em atenções, estando conosco sempre que possível. Seu pai, arquiteto, conversava entusiasmado: "reclamaram que quebraram 10 das 100 árvores que plantamos na via. Mas é justamente isso! De 100, quebram 10, então de 1000, quebrarão 10. Conseguimos que as árvores cresçam!". Seu irmão, Binho, impagável: 'você perdeu o amor à vida ou o respeito à morte?'. Também conheci sua namorada, Míriam, futura esposa.
Quando fiz o Pico das Agulhas Negras, em 1996, assumi o compromisso pessoal de lhe enviar uma carta e fotos. Minha letargia em escrever cartas, no entanto, me fez ficar na vontade. Pouco mais de um ano após, em uma tarde de domingo, meu pai irrompeu na sala de TV: "Estou tentando confirmar uma notícia horrível!". Ao retornar para Poços de Caldas após almoçar com seus pais em Guaxupé, uma Kombi cruzou a pista em que Mario Marcos seguia ao lado de sua esposa. Ela sobreviveu e algum tempo após, enviou-nos um convite para a exposição que organizara com material fotográfico produzido pelo seu falecido marido, na Serra da Canastra.
- -
Naquele ano de 1984, após 4 horas de uma viagem animada, chegáramos à sua casa em Guaxupé. Mário Marcos beijara e abraçara seus pais e, animado e falante, ao abrir a geladeira, exclamou, agitando os braços: "Oba! Oba! Oba! Cerveja!!!". Eu ría às gargalhadas!
Natural de Guaxupé-MG e recém-formado, o jovem havia conquistado um posto de trabalho na FNV, a Fábrica Nacional de Vagões, em minha cidade natal, Cruzeiro-SP. A antiga amizade de nossos pais favoreceu que Mário Marcos tomasse parte nos almoços de domingo lá em casa, oportunidade para que nos brindasse com seu conhecimento e suas muitas histórias.
Entre goles de coca-cola, garfadas de macarrão e fatias de torta, acolhíamos os relatos de suas viagens, descrições de igrejas e mistérios de Ouro Preto e Mariana, além de causos da Inconfidência Mineira e aventuras em Parques Nacionais. As tardes intermináveis de domingo eram regadas a carteados de Buraco e Krapot, partidas de xadrez e Atari (meu video-game) ou CP-300 (seu computador).
Sua narrativa que mais me marcou foi a exploração de uma mina de ouro abandonada em Ouro Preto, apoiado por um amigo espeleólogo:
"A entrada da mina estava em propriedade privada, próxima à casa da proprietária. Com sua permissão, pudemos entrar. As galerias internas eram - a princípio - organizadas e bem estruturadas. mas o túnel de formato retangular já logo à frente foi perdendo a forma, chegando a de difícil passagem."
"Seguimos nos arrastando no chão, na horizontal, por um conduto que ia se afunilando, a passagem ficava cada vez mais estreita. Comecei a me preocupar com a possibilidade de meu amigo, que seguia à frente e era maior que eu, ficar entalado. Foi quando me perguntei: 'o que estou fazendo aqui?'. Eram toneladas de terra acima, abaixo, por todos os lados!"
"Naquele trecho, o túnel voltava a ser bem estruturado, com acessos laterais perpendiculares dispostos com regularidade. Entendemos ser uma outra entrada da mina, mas a abertura para fora pode ter sido fechada por um desmoronamento."
"Chegamos a um salão maior que os demais, com muita água acumulada no chão, aos pés de uma parede alta de quartzo."
Seus relatos da trilha percorrida na Serra da Canastra ('tinha orquídea!'), da subida ao Pìco do Itacolomi, de passeios de caiaque, selaram em mim uma paixão pela aventura em ambientes naturais.
Mais do que palavras, fomos conhecer de perto o Parque Nacional de Itatiaia, onde conhecemos a cachoeira do Véu-da-Noiva (enfim, entrei em uma cachoeira da Serra!!) e o Vale dos Lírios. Foram ocasiões em que eu percebi que a Serra da Mantiqueira podia ser mais que uma bela paisagem em minha janela: estava acessível! Mas nem por isso consegui convencê-lo a irmos lá ver a neve, no inverno de 1985.
As pipas foram um capítulo à parte: Mário Marcos comprou varetas chinesas e me ensinou a construir um enorme 'colibri' e uma grande 'pipa-flor'. Esta última encapada com papel celofane vermelho e rabiola em celofane verde. A luz do sol atravessava o celofane, projetando no chão as cores vibrantes da pipa. Ainda hoje, às vezes, sou surpreendido pela súbita lembrança da 'sombra' colorida da pipa-flor. Que boa lembrança, que boa saudade!
Compartilhávamos o mesmo gosto por Beatles e fui apresentado a Pink Floyd e Vangelis. Mário Marcos também tentou me fazer gostar de Caetano Veloso, que à época fazia sucesso com Shine moon, mas desse eu precisei de mais tempo para me interessar. Hair era o seu filme preferido. Assistimos a Gritos do Silêncio (The killing fields), uma história real que me impressionou muito, mas que apenas recentemente - após muito rever - compreendi na íntegra.
Meu amigo também relatava a vida nas repúblicas estudantis de Ouro Preto-MG, onde tinha a incubência de elaborar 'planos mirabolantes e infalíveis' para a conquista de garotas. Falava de paqueras, mecânica de motos e carros, fotografia, hotel mal assombrado, programação, tinha a intenção de montar um jogo de computador sofisticado, sobre finanças ('jogos de ação já existem muitos, eu posso fazer algo diferente'). Falava dos cursos que frequentara, dos quais Mineralogia haverei de estudar!
Sempre dava uma boa resposta para uma boa dúvida: a função do farol de milha, porque a lua é maior próxima ao horizonte, aerodinâmica,...
Mário Marcos falava com calma e de forma pausada, encadeando as idéias e instigando a saber mais um pouco. Ficava um gostinho de quero mais. A fluência de suas conversas cativava a todos, estabelecendo empatia com meus pais, meus irmãos mais velhos e meu irmão caçula. Sou grato a ele por muito do que empreendi e venho realizando desde então.
Tive a honra de conhecer sua família, quando me convidou a passar o fim-de-semana em sua cidade natal. Já com 15 anos, segui atentamente o conselho materno: 'comporte-se e te convidarão a voltar mais vezes'. Lá em Guaxupé, sua mãe se desfez em atenções, estando conosco sempre que possível. Seu pai, arquiteto, conversava entusiasmado: "reclamaram que quebraram 10 das 100 árvores que plantamos na via. Mas é justamente isso! De 100, quebram 10, então de 1000, quebrarão 10. Conseguimos que as árvores cresçam!". Seu irmão, Binho, impagável: 'você perdeu o amor à vida ou o respeito à morte?'. Também conheci sua namorada, Míriam, futura esposa.
Quando fiz o Pico das Agulhas Negras, em 1996, assumi o compromisso pessoal de lhe enviar uma carta e fotos. Minha letargia em escrever cartas, no entanto, me fez ficar na vontade. Pouco mais de um ano após, em uma tarde de domingo, meu pai irrompeu na sala de TV: "Estou tentando confirmar uma notícia horrível!". Ao retornar para Poços de Caldas após almoçar com seus pais em Guaxupé, uma Kombi cruzou a pista em que Mario Marcos seguia ao lado de sua esposa. Ela sobreviveu e algum tempo após, enviou-nos um convite para a exposição que organizara com material fotográfico produzido pelo seu falecido marido, na Serra da Canastra.
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Naquele ano de 1984, após 4 horas de uma viagem animada, chegáramos à sua casa em Guaxupé. Mário Marcos beijara e abraçara seus pais e, animado e falante, ao abrir a geladeira, exclamou, agitando os braços: "Oba! Oba! Oba! Cerveja!!!". Eu ría às gargalhadas!
quarta-feira, 15 de julho de 2015
Um hotel chamado Sion
Minas Gerais é onde renovo minha alma e reabasteço o reservatório de minha disposição. Esse Estado gigante guarda muita história, muitos segredos. Me tenho por mineiro, ainda que raras vezes tenha ido além de Belo Horizonte.
Um lugar especial é Campanha, onde minhas famílias acorreram a todo Carnaval, por mais 10 anos consecutivos! Digo 'minhas famílias', porque aquele ambiente acolhia, além de meus pais, Tios os tios Amauri e Márcia, tios Boneti e Léa, João Grandão e sua turma, gente que segue cravada em meu coração. Tinha ainda o 'Tio Milton' e sua incontável descendência. Tio Milton não se hospedava conosco, porque já residia em Campanha. Sua casa era visita obrigatória, várias vezes por temporada.
O Sion nos abrigava, quantas histórias! Em tempos idos, foi internato feminino, conduzido pelas freiras da clausura alocada naquelas extensas instalações. Havia um amplo claustro atendido por uma capela - aconchegante capela! Diversas salas de aulas distribuídas em dois pavimentos, alguns banheiros coletivos e, lá em cima, no terceiro e último andar, os dormitórios.
Assim como os demais internatos de sua época, o Sion também veio a perder esta função. E aqui me permitam lamentar, pois "foi o melhor sistema de ensino que o Brasil já teve!", conforme afirmado repetidas vezes e com o dedo em riste, pelo saudoso Tio Nelson (Nelson Barros). Os que testemunham o sistema internato me fazem sentir saudades de um tempo que não cheguei a conhecer.
Eu acreditava que o Sion era um hotel, ainda que os quartos possuíssem quadro-negro e muitos lustres perfilados. Tratava-se de uma solução genial das Irmãs para 'fazer' caixa nos meses de férias, valendo-se do excelente Carnaval local: além dos blocos oficiais que se apresentavam à noite, a madrugada seguia os festejos no clube situado à entrada da cidade. Dos blocos carnavalescos, me recordo o nome apenas da Vai-Vai. Discutia-se que 'se juntasse a bateria da Vai-Vai com o Abre-Alas da...' faria frente às Escolas de Samba cariocas.
Acredito ter conhecido o Sion ainda bebê, pois em uma de minhas memórias mais distantes consta uma imagem de São José envolvendo e beijando o Menino Jesus, na esquina de um corredor envidraçado. Esse corredor, hoje o sei, é uma passagem suspensa entre dois blocos distintos, dando acesso à capela. Que estrutura colossal!
A construção é antiga, justificando o pé-direito exagerado, de cerca de cinco metros. As paredes são de um amarelo suave, quase bege, tanto as externas como as internas. Os batentes das enormes portas e janelas possuem cor marrom na área externa e são brancos nas faces internas.
Os corredores que ladeiam a capela são avarandados, enquanto os demais, de grande extensão, comunicam as diversas salas de aula. A caixa de escada, em madeira de lei envernizada, é a marca-registrada do local: uma obra desafiadora, largando dois lances desde o 3º pavimento, que se unem para conduzir o tramo final, em direção perpendicular, até tocar o 2º piso. Sob este, uma escada linear para o térreo. Este piso térreo, vale lembrar, confunde-se com subsolo, pois os principais acessos ao Sion encontram-se no 2º pavimento.
A construção possui o formato de um 'L', abrigando um pátio interno com um mosaico de canteiros, que à época era mantido com esmero, com tantas flores que me faziam pensar em fazer carreira na biologia, 'quando eu crescer'. Minhas preferidas eram as de pétalas amarelas e 'miolo' vermelho-alaranjado e as bocas-de-leão. Dominando o pátio está a torre do relógio, notável pelo registro sonoro do passar das horas. Seus ponteiros acionam batidas de sinos a cada quarto de hora, destacando a meia-hora e alardeando a hora cheia no melhor estilo Big-Ben, finalizado no solene compasso de um 'blém' para cada hora do turno.
Faltou mencionar o vasto jardim da entrada, com um preguiçoso acesso para os carros, bem como as várias imagens de cor branca espalhadas por este jardim, com majestosas árvores ali distribuídas.
As histórias do Sion são tantas como se pode supor de uma cidade contemporânea das Cidades do Ciclo do Ouro (Ouro Preto, São João Del Rei,...). Campanha ainda exibe lindas casas em estilo colonial esparramadas na longa colina que se ergue a partir do Sion, até a majestosa Catedral, cuja portentosa nave foi erguida por escravos, com pé-direito de 18 metros e paredes de 2,5 metros de espessura.
Um lugar especial é Campanha, onde minhas famílias acorreram a todo Carnaval, por mais 10 anos consecutivos! Digo 'minhas famílias', porque aquele ambiente acolhia, além de meus pais, Tios os tios Amauri e Márcia, tios Boneti e Léa, João Grandão e sua turma, gente que segue cravada em meu coração. Tinha ainda o 'Tio Milton' e sua incontável descendência. Tio Milton não se hospedava conosco, porque já residia em Campanha. Sua casa era visita obrigatória, várias vezes por temporada.
O Sion nos abrigava, quantas histórias! Em tempos idos, foi internato feminino, conduzido pelas freiras da clausura alocada naquelas extensas instalações. Havia um amplo claustro atendido por uma capela - aconchegante capela! Diversas salas de aulas distribuídas em dois pavimentos, alguns banheiros coletivos e, lá em cima, no terceiro e último andar, os dormitórios.
| Capela, vista do coro. |
| Imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus, no nicho do altar da capela. |
Eu acreditava que o Sion era um hotel, ainda que os quartos possuíssem quadro-negro e muitos lustres perfilados. Tratava-se de uma solução genial das Irmãs para 'fazer' caixa nos meses de férias, valendo-se do excelente Carnaval local: além dos blocos oficiais que se apresentavam à noite, a madrugada seguia os festejos no clube situado à entrada da cidade. Dos blocos carnavalescos, me recordo o nome apenas da Vai-Vai. Discutia-se que 'se juntasse a bateria da Vai-Vai com o Abre-Alas da...' faria frente às Escolas de Samba cariocas.
Acredito ter conhecido o Sion ainda bebê, pois em uma de minhas memórias mais distantes consta uma imagem de São José envolvendo e beijando o Menino Jesus, na esquina de um corredor envidraçado. Esse corredor, hoje o sei, é uma passagem suspensa entre dois blocos distintos, dando acesso à capela. Que estrutura colossal!
| Imagem de São José com o Menino Jesus, no acesso à capela. |
Os corredores que ladeiam a capela são avarandados, enquanto os demais, de grande extensão, comunicam as diversas salas de aula. A caixa de escada, em madeira de lei envernizada, é a marca-registrada do local: uma obra desafiadora, largando dois lances desde o 3º pavimento, que se unem para conduzir o tramo final, em direção perpendicular, até tocar o 2º piso. Sob este, uma escada linear para o térreo. Este piso térreo, vale lembrar, confunde-se com subsolo, pois os principais acessos ao Sion encontram-se no 2º pavimento.
A caixa da escada entre o 2º e o 3º pavimentos, iluminada por claraboia.
| Escada que leva ao piso Térreo: acesso ao refeitório, pátio interno e a sala de ping-pong! |
Faltou mencionar o vasto jardim da entrada, com um preguiçoso acesso para os carros, bem como as várias imagens de cor branca espalhadas por este jardim, com majestosas árvores ali distribuídas.
| O jardim na entrada do Sion. |
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Sebastião Fermiano (Capítulo 1)
Um convite
Sebastião Fermiano, homem alto, magro e afrodescendente, era um
profissional gabaritado e reconhecido na empresa em que trabalhava na função de
encarregado de equipe, a então Fábrica Nacional de Vagões (FNV), de Cruzeiro-SP.
Muito responsável, não faltava um só dia ao serviço, mas se não fosse convocado
para algum serão, cumpridas as obrigações da semana, entregava-se no sábado e
no domingo, à boemia e à cachaça. Não tolerava a religião católica, em que fora
batizado, pois ela lhe lembrava os preceitos de vida moral, a que não era muito
chegado... Sua esposa, a Maria, era ao contrário muito católica e mantinha a
firme esperança de uma conversão de vida do marido. E nessa intenção rezava
muito e sempre, apegando-se principalmente à oração do terço.
Um dia Sebastião recebeu de um amigo o convite para participar de um
Cursilho. Cabreiro, perguntou se não era coisa de religião e se não haveria
padres participando dele. Ele esconjurava aqueles homens de saia preta (naquela
época, muitos sacerdotes ainda se trajavam com batina negra, embora uma boa
parte já estivesse usando os trajes civis, recentemente liberados). O amigo,
meio sem jeito pelo fato de estar faltando à verdade, garantiu-lhe que não era
coisa de padres e o Sebastião aceitou. Afinal, três dias longe de casa até lhe
viriam a calhar, para descansar do pesado trabalho, à frente da equipe que
liderava...
Na noite de quinta-feira, Sebastião despediu-se de sua esposa e filhos
e seguiu de carona até um lugar espaçoso em Aparecida-SP, onde se realizaria o
evento a que fora convidado. Logo na manhã de sexta feira, conheceu lá dentro
um tal de João, “cara muito gente boa”, com quem estabeleceu amizade. Este lhe disse que vinha
de uma cidade do interior paulista, em cujas montanhas pastoreava muitas
ovelhas. Ao longo de todo o dia, foi um tal de João prá cá e João prá lá e
Sebastião acabou contando ao novo amigo suas aventuras e desventuras. Falou-lhe
de sua vida, de sua família, de seus fins de semana desregrados, de sua
indisposição com a Igreja católica e com seus padres, aqueles homens de saia
preta!
Na noite da sexta-feira, após o jantar, pediu-se que cada um dos
participantes do encontro se levantasse e se apresentasse aos demais. Para
desgosto do Sebastião, logo um deles se apresentou como padre, fazendo-o
resmungar no ouvido do inseparável João: “Olha lá: disseram-me que aqui não
tinha padre e já tem um aí!”. Quando chegou a vez do amigo João, este se pôs em
pé e se identificou como D. João de tal, Bispo de uma cidade do interior
paulista, na qual era responsável perante Deus, pelo cuidado de muitas milhares
de ovelhas... Ao dizer isso, olhou para o Sebastião, que estava ao seu lado e
sorriu... Acabado o jantar, Sebastião tratou rápido de fugir do tal D. João...
E continuou a evitá-lo durante toda a manhã de sábado.
A segunda palestra desse dia foi longa, que parecia não acabar mais!
Muita coisa do que foi falado mexeu fundo no coração e na cabeça do Sebastião.
Esse Deus, do qual ele sempre vinha fugindo, e essa Igreja, a que sempre dera
as costas, estavam ali à sua frente e lhe propunham abrir os braços, recebê-lo
e até perdoar os seus pecados! Quando por fim acabou todo aquele palavrório,
que lhe martelava o ouvido e lhe remexia com o interior, foram todos para a
capela para se ajoelhar, diante do Santíssimo Sacramento que estava exposto.
Sebastião sentiu agitar-se em seu cérebro tanta coisa ouvida, muita dela nem
entendida, e a surpreendente proposta de reconciliação, recebida havia pouco: “Mas
será mesmo possível que Deus queira mesmo me perdoar, depois de tanta safadeza
minha? De tudo o que eu fiz? Senhor, se for mesmo possível, me dá um sinal!”.
Abrindo os olhos, pareceu-lhe não ver mais Hóstia branca no ostensório dourado,
e sim o rosto de Jesus! Fechou-os e abriu-os de novo, mas a surpreendente imagem
persistia! Atônito, buscando talvez ajuda, olhou para os outros homens
ajoelhados, e pasmou-se mais ainda, ao ver em cada um o rosto de Jesus. Atônito
e comovido cobriu a face com as mãos e percebeu envergonhado que estava
chorando...
Foi um dos últimos a se levantar de diante do Santíssimo e dirigiu-se
meio zonzo, com os outros encontristas, para a atividade seguinte, o almoço.
Depois, nem se lembrava do que comera e se comera!
À saída do refeitório, foi seguro pelo braço pelo novo amigo D. João.
Ele carinhosamente, mas em tom de autoridade lhe disse: “Enquanto você não
sabia que eu era padre, não largava de mim e chegou a me contar boa parte de
sua vida! Agora lhe proponho que pare de me evitar, sente-se do meu lado e me
fale em confissão tudo o que já me contou sobre seu passado! Se assim quiser,
entregue tudo a Deus, diga- Lhe que se arrepende e que vai mudar de vida.”
Depois da grande emoção do encontro com o Santíssimo, isso era tudo o que ele
mais queria. A Misericórdia infinita de Deus o envolveu e tornou-lhe fácil a
tarefa tão difícil de se dizer pecador e de expor no tribunal da penitência, as
repetidas misérias de toda uma vida...
Terminados os três dias de Cursilho naquele ano de 1974, ao voltar na
noite de domingo para casa e reencontrar sua esposa, Sebastião afirmou: - “Não
sei como, Maria, mas, a partir de agora, muita coisa em nossa vida vai
mudar!” - “Vai mudar como, Tião?” - “Como, eu não sei, mas vai mudar!”. Sua esposa
ainda não sabia, mas daquele momento em diante, passava a colher os frutos de
persistente oração de vinte anos do terço, pedindo a conversão do marido.
quarta-feira, 8 de julho de 2015
9 de Julho de 1932: 83 anos
1932, o ano da Revolução Constitucionalista, data cívica que eleva minha alma. Quisera eu afirmar que não poderia ser diferente a um paulista natural de Cruzeiro, palco das batalhas do Tunnel (assim se escrevia à época) e do Batedor, algumas das batalhas mais renhidas, com muita disputa decidida no sabre preso à ponta do fuzil.
Derrotados os paulistas, os importantes eventos de 1932 ficaram muito mal registrados e não recebem a devida atenção, nem mesmo em minha terra natal. É bem verdade que já não resido lá há bastante tempo, mas ali cursei todo o ensino fundamental, recebendo apenas algumas pinceladas de informação sobre o episódio. O museu local, desfalcado até do mobiliário típico, possui apenas alguns livros sobre o tema. A estação ferroviária segue abandonada e pouco sobrou do imenso aparato ferroviário que sediava os escritórios e oficinas da Minas and Rio Railway. Mas o túnel, o palco de batalhas ferozes, segue imponente e ignora a ação do tempo, ainda que desativado e sem manutenção alguma.
Nos primeiros meses de 1932, São Paulo registrou as maiores passeatas e comícios já ocorridos em solo brasileiro, manifestando indignação pela constante ingerência do Governo Federal.
O raiar do dia 9 de julho saudou os paulistas com o grito da Revolução, do qual se confiava que ecoasse resposta positiva dos Estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, mas de onde receberia tropas inimigas. Do Mato Grosso, o esperado reforço prometido de 4.000 homens se resumiu à aterrissagem de seu comandante General Bertoldo Kriger, sozinho. Nessas perspectivas, teve início a Revolução e os desdobramentos trágicos para São Paulo.
Os esforços da Revolução Constitucionalista foi combatida com eficiência pelo Governo Federal inclusive na propaganda, alegando que São Paulo tentava se separar do Brasil, mentira deslavada.
O que fica para a História foi o desvelo da população em prol da causa. O monumento aos mártires de 1932, sob o Obelisco no Parque do Ibirapuera, abriga os restos mortais de vários destes heróis, abatidos na "trincheira que não se rendeu". Ao Escoteiro Marco Aurélio Chiorato, falecido em combate aos quinze anos de idade, se assinala: "Inocência, Civismo e Coragem aqui repousam". Um marco no solo indica três nomes, justificando: "Como juntos combateram na trincheira, juntos escolheram repousar, demonstrando assim, a firmeza de seus ideais". Um espaço demarcado em granito negro para Ibrahim Nobre, o orador que inflamou as multidões pelas ruas paulistanas e intimou pessoalmente ao interventor federal Pedro de Toledo: "Você deseja um nome em placa de rua ou uma estátua em praça pública?". A resposta obtida justifica o amplo jazigo dedicado ao interventor federal que ousou liderar a Revolução.
O Capitão Néco também ali repousa, mas sua história me chega das muitas conversas da própria Dona Tita, sua tia, com meu pai. Surpreendido pelos legalistas (combatentes em nome do Presidente Getúlio Vargas), comandada por um conhecido seu, o qual explicou a situação e ordenou a rendição: "Você está cercado e não há como vencer, renda-se!". A resposta traduz o elevado espírito vigente: "Um paulista nunca se rende!". A este brado, seguiu-se o avanço do bravo Manuel de Freitas Novais Neto, o Capitão Néco.
" Viveram pouco para morrer bem. Morreram jovens para viver sempre".
Derrotados os paulistas, os importantes eventos de 1932 ficaram muito mal registrados e não recebem a devida atenção, nem mesmo em minha terra natal. É bem verdade que já não resido lá há bastante tempo, mas ali cursei todo o ensino fundamental, recebendo apenas algumas pinceladas de informação sobre o episódio. O museu local, desfalcado até do mobiliário típico, possui apenas alguns livros sobre o tema. A estação ferroviária segue abandonada e pouco sobrou do imenso aparato ferroviário que sediava os escritórios e oficinas da Minas and Rio Railway. Mas o túnel, o palco de batalhas ferozes, segue imponente e ignora a ação do tempo, ainda que desativado e sem manutenção alguma.
Nos primeiros meses de 1932, São Paulo registrou as maiores passeatas e comícios já ocorridos em solo brasileiro, manifestando indignação pela constante ingerência do Governo Federal.
O raiar do dia 9 de julho saudou os paulistas com o grito da Revolução, do qual se confiava que ecoasse resposta positiva dos Estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, mas de onde receberia tropas inimigas. Do Mato Grosso, o esperado reforço prometido de 4.000 homens se resumiu à aterrissagem de seu comandante General Bertoldo Kriger, sozinho. Nessas perspectivas, teve início a Revolução e os desdobramentos trágicos para São Paulo.
Os esforços da Revolução Constitucionalista foi combatida com eficiência pelo Governo Federal inclusive na propaganda, alegando que São Paulo tentava se separar do Brasil, mentira deslavada.
O que fica para a História foi o desvelo da população em prol da causa. O monumento aos mártires de 1932, sob o Obelisco no Parque do Ibirapuera, abriga os restos mortais de vários destes heróis, abatidos na "trincheira que não se rendeu". Ao Escoteiro Marco Aurélio Chiorato, falecido em combate aos quinze anos de idade, se assinala: "Inocência, Civismo e Coragem aqui repousam". Um marco no solo indica três nomes, justificando: "Como juntos combateram na trincheira, juntos escolheram repousar, demonstrando assim, a firmeza de seus ideais". Um espaço demarcado em granito negro para Ibrahim Nobre, o orador que inflamou as multidões pelas ruas paulistanas e intimou pessoalmente ao interventor federal Pedro de Toledo: "Você deseja um nome em placa de rua ou uma estátua em praça pública?". A resposta obtida justifica o amplo jazigo dedicado ao interventor federal que ousou liderar a Revolução.
O Capitão Néco também ali repousa, mas sua história me chega das muitas conversas da própria Dona Tita, sua tia, com meu pai. Surpreendido pelos legalistas (combatentes em nome do Presidente Getúlio Vargas), comandada por um conhecido seu, o qual explicou a situação e ordenou a rendição: "Você está cercado e não há como vencer, renda-se!". A resposta traduz o elevado espírito vigente: "Um paulista nunca se rende!". A este brado, seguiu-se o avanço do bravo Manuel de Freitas Novais Neto, o Capitão Néco.
" Viveram pouco para morrer bem. Morreram jovens para viver sempre".
quarta-feira, 17 de junho de 2015
Dinheiro público
Denúncias de Caixa 2 nas Eleições, rebatidas com o sólido argumento de haverem sido aprovadas pelo Tribunal de Contas. Mas... isto apenas significa que a soma das notas fiscais corresponde ao valor declarado pelo Partido. Não avalia o mérito das notas ou a possibilidade de gastos além do informado. Um estranho critério, somente justificável pelo fato de as leis que regem o tema serem criadas no decorrer do mandato dos próprios candidatos. Faz tanto sentido quanto o cidadão comum estabelecer as leis que regram o seu próprio imposto de renda.
Ações da PF levantam suspeitas em um ou outro processo eleitoral , levantando a hipótese de montantes superiores ao que fora informado. Mas eis que os investigados, na condição de recém-eleitos, detém o poder e os meios para atenuar notícias contrárias.
Exaltamos nossa democracia no livre arbítrio do voto obrigatório das urnas, no mesmo instante em que acabamos por afundar mais um pouco na areia movediça dos vícios do poder. Uma classe política mais rica, um país mais pobre. Chico Buarque não fazia noção de profetizar ao afirmar que 'a Pátria-Mãe distraída não percebe ser subtraída em tenebrosas transações'.
A reeleição caiu - de novo - para o Executivo, mas o Legislativo... Bastaram 25 anos sentado no Congresso Nacional - a toque de muita reeleição - para um Deputado Federal conseguir, enfim, aprovar a sua primeira emenda. Por conta de seus 25 anos de sua luta renhida, nas próximas eleições retiraremos da urna eletrônica, o comprovante de nosso voto, em papel.
Nas próximas eleições, você estimado leitor, sairá da sala de votação portando o pedacinho de papel mais caro de sua vida.
Dorme a Pátria-Mãe, mumificada em sono profundo.
Ações da PF levantam suspeitas em um ou outro processo eleitoral , levantando a hipótese de montantes superiores ao que fora informado. Mas eis que os investigados, na condição de recém-eleitos, detém o poder e os meios para atenuar notícias contrárias.
Exaltamos nossa democracia no livre arbítrio do voto obrigatório das urnas, no mesmo instante em que acabamos por afundar mais um pouco na areia movediça dos vícios do poder. Uma classe política mais rica, um país mais pobre. Chico Buarque não fazia noção de profetizar ao afirmar que 'a Pátria-Mãe distraída não percebe ser subtraída em tenebrosas transações'.
A reeleição caiu - de novo - para o Executivo, mas o Legislativo... Bastaram 25 anos sentado no Congresso Nacional - a toque de muita reeleição - para um Deputado Federal conseguir, enfim, aprovar a sua primeira emenda. Por conta de seus 25 anos de sua luta renhida, nas próximas eleições retiraremos da urna eletrônica, o comprovante de nosso voto, em papel.
Nas próximas eleições, você estimado leitor, sairá da sala de votação portando o pedacinho de papel mais caro de sua vida.
Dorme a Pátria-Mãe, mumificada em sono profundo.
sábado, 30 de maio de 2015
Na fome, a solução
"Algum dia, em qualquer lugar,
impreterivelmente,
Haverás de encontrar-se contigo mesmo.
E só depende de ti, que este seja o teu
melhor momento,
ou as mais amargas de tuas horas."
O pensamento acima sumariza lições do
viver e chancela profecias religiosas. Sua ciência, tida como uma espada sobre
a cabeça de alguns, é estrela de alto mar para outros.
Assistimos recentemente aos protestos dos
professores da rede de ensino do Paraná, bem como o rechaço desmesurado,
calcado na dotação milionária de armas e munições que marcaram os corpos de civis que lutavam por seus direitos.
A multidão que se postou frente a um
exército em ordem de batalha, exigia o respeito à classe, a seus direitos e à
Educação. O valente e destemido clamor foi respondido pelo Governo com
massacre, diversas desculpas e nenhum pedido de desculpas.
O dramático desenrolar dos eventos,
todavia, ainda segue no Centro Cívico, onde dois professores e uma aluna universitária
seguem acampados em Greve de Fome, acorrentados a um poste defronte à
Assembléia Legislativa.
A fome, um dos maiores tormentos da
humanidade, é também uma nobre força política, à qual recorrem os que mais
precisam de justiça. Seu poder está gravado na história moderna por Mahatma
Gandhi, o líder carismático de centenas de milhões de indianos que dobrou os
joelhos imperiais.
Aqui no Centro Cívico, os três ativistas
são heróis anônimos. Seu sacrifício já entra pelo décimo dia sem acompanhamento
médico, nem mesmo a atenção dos deputados que passam os dias a poucos metros
dali. A firmeza de seus ideais contrasta com a penúria legada à Educação no
Brasil, escancarando a postura distante e inalcançável daqueles que há poucos
meses atrás rapinavam nossos votos, mas agora detém o Poder para cuidar de
interesses pessoais.
O brasileiro acolheu passivamente a muitos
desgovernos, mas a conta já começa a ser cobrada, após os anos de pujança
econômica em que brilhamos aos olhos do mundo como promissora potência.
Entráramos nessa Era como uma nação de bananas, que exportava bens primários e
os importava de volta beneficiados, a mesma condição à qual retornamos: um país
carente da indústria de semicondutores, microeletrônicos, lâmpadas
fluorescentes ou o que seja relevante. No mais, bananas, soja, gado,
minério de ferro.
Na aurora do Novo Milênio, o Brasil tem à frente
a visão de terra arrasada, com a produção industrial no declínio do
resfriamento econômico aliado à falta de energia elétrica da escassez hídrica.
Nossas cidades, saturadas e imobilizadas, se mostram enormes demais para se
manter com a água que sobrou, apontando
o êxodo como provável solução. Como acomodar hordas urbanas, acostumadas
a um elevado consumo e inábeis à lida na terra?
A água responde grosso ao descaso: décadas
de desmatamento contínuo provocam alterações climáticas na Amazônia, já em
risco de ultrapassar o Ponto de Não Retorno, no qual nossas melhores regiões
econômicas seriam condenadas ao mesmo clima desértico dos domínios tropicais do
Saara, Oceania e Atacama - conforme o recém-lançado Futuro Climático da Amazônia.
O desmatamento segue descontrolado.
O bioma Cerrado, por sua vez em acelerado
processo de extinção, está secando pequenos rios nas cabeceiras de grandes
bacias hidrográficas, pondo em xeque a sustentabilidade da Fronteira Agrícola,
a produção de insumos primários como a soja e o gado, que evitariam o colapso
da economia.
A escassez hídrica, sistematicamente
relevada e minimizada, corrói os alicerces da Economia, drenando os
reservatórios das hidrelétricas e o suprimento das grandes cidades. O socorro
das termelétricas migrou da emergência para a regra, pressionando os custos de
produção e comprometendo a retomada econômica.
De assalto, o Brasil virou negócio da
China, o gigante que prudentemente aguardou o parceiro Brick vergar, como se
esperaria de um país atolado em uma inversão de valores ímpar. O acordo
bi-lateral prevê mais gado e um porto no Peru, escoando nossas riquezas através
de 4400 km dos trilhos de uma futura ferrovia transamazônica. O triste
consolo de quem não conseguiu o seu trem-bala, contribuirá ainda mais para a
crise hídrica.
A China, célebre por anexar e devastar o
Tibete, submetendo sua população à condição de sub-raça, será o próximo império
a golpear a Floresta Amazônica, a grande fonte das chuvas que sustém o clima
desde Cuiabá até Buenos Aires.
E nosso povo empobrece a golpes de
austeridade, ineficazes ante a farra do dinheiro público, mas sempre subtraindo
recursos financeiros da Educação, desequilibrando nossa réstia de um futuro
melhor: as novas gerações.
Então, os três heróis do Centro Cívico
acentuaram a luta de todo brasileiro por dignidade, não se prostrando às
circunstâncias, às salas de aula abarrotadas de alunos ávidos pelas informações
de seus próprios celulares, ao ataque de pais que acusam no professor o reflexo de sua própria
incompetência como educador.
Nossos três heróis se auto-flagelam pela
fome para gritar alto a missão sobre-humana de forjar Homens e Mulheres no
ambiente corrompido de nossa nação. Já não dá mais para agir com cautela e o
caos já se ergueu no horizonte a passo veloz: a sociedade brasileira, assim
como o clima da Amazônia, se aproxima do Ponto de Não Retorno, após o qual está
o colapso e o deserto.
quarta-feira, 29 de abril de 2015
Uma notícia singela
Um alento neste dia marcado pelos embates no Centro Cívico de Curitiba: 17 policiais foram presos por se recusarem a aderir à repressão aos professores. Que Deus os abençoe, os guarde e os proteja, bem como às suas famílias.
Saiba mais: http://migre.me/pFGsl
Saiba mais: http://migre.me/pFGsl
Nas escolas do Paraná, os gigantes da rede estadual de ensino
O que dizer? Os professores da rede estadual do Paraná se reuniram no Centro Cívico de Curitiba. Lá estavam também as forças policiais do Estado, em número nunca visto nestas paragens, em tempos de democracia. E a lei que os professores tanto queriam evitar, a despeito de seus esforços, manifestações e embates, foi aprovada pela Assembléia Legislativa.
Os professores retornam agora para suas casas, temerosos por seu plano de aposentadoria. Alguns, temerosos também por sua saúde e a de seus companheiros.
Professores do Paraná, que nestes dias nos ensinaram tanto sobre união, espírito de equipe e prática da cidadania, mantenham a cabeça erguida, insistam! Continuem a nos transmitir essa saúde civil, replicando seus valores e sua coragem nas salas de aulas, resgatando, dia após dia, a juventude, o Brasil.
Os professores retornam agora para suas casas, temerosos por seu plano de aposentadoria. Alguns, temerosos também por sua saúde e a de seus companheiros.
Professores do Paraná, que nestes dias nos ensinaram tanto sobre união, espírito de equipe e prática da cidadania, mantenham a cabeça erguida, insistam! Continuem a nos transmitir essa saúde civil, replicando seus valores e sua coragem nas salas de aulas, resgatando, dia após dia, a juventude, o Brasil.
sábado, 21 de março de 2015
Sem remédio
Ano 1997, a Ponte dos Remédios, na capital paulistana, ameaçou ruir. Interdição do tráfego e obras emergenciais de pronto iniciadas, a imprensa também em campo registrou uma árvore crescendo entranhada na estrutura da ponte, revelando o descaso com esta e as demais pontes sobre o Rio Tietê. Publicada a notícia, os governos lavaram as mãos: o Municipal atribuiu a responsabilidade da manutenção ao governo Estadual, o qual, por sua vez, alegou ter sido responsável apenas por sua construção, cabendo à Prefeitura os cuidados decorrentes.
Ano 2014, a água em São Paulo ameaça acabar. O Governo Estadual afirma dominar a situação para lá de crítica e tenta jogar o problema para o Federal, o qual responde que os cuidados com a água são da Unidade Federativa.
Remediada, a Ponte dos Remédios segue como opção segura ao tráfego paulistano. Mas o abastecimento público fica com a raspa do tacho dos reservatórios e córregos mais próximos da megalópole. Milhões de cidadãos brasileiros permanecem em dramática contigência do recurso mais abundante em nosso país.
Seja nos transportes ou no bem mais básico e precioso, vivemos o descaso absoluto dos Poderes. Lotados por gente ávida pelos recursos financeiros amealhados dos caros impostos, somos indignos da mais comezinha promessa da campanha surgida da mente de algum marqueteiro.
Entramos em 2015 acostumados a monitorar a percentagem do Cantareira, o qual adentra novo período de estiagem com ainda menos água que no ano passado, sem outra perspectiva que não o racionamento. A solução está na produção de água, mediante procedimentos de segurança hídrica, com ações focadas na restauração do ciclo hidrológico natural, a única forma de recarga das águas dos mananciais e reservatórios superficiais e subterrâneos (aquíferos).
É preciso blindar os mananciais, impedindo a ocupação urbana deste espaço. As florestas são o meio pelo qual se retém a água no solo, evitando a perda das águas pela evaporação. Então, há que se recriar as matas ciliares, proteger as nascentes, reflorestar os terrenos íngremes, restabelecer a Reserva Florestal. É preciso revogar o Novo Código Florestal.
Além disso, há que cessar os desmatamentos, estancar o avanço das fronteiras agrícolas e restaurar - o máximo possível - os cinco biomas nacionais: Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia, Floresta com Araucárias, Pantanal.
Caso contrário, seguiremos despreparados para as críses hídricas vindouras, estiagens cada vez mais longas, intensas, severas. O que será de nossas cidades e nossas fronteiras agrícolas sem a água?
Ano 2014, a água em São Paulo ameaça acabar. O Governo Estadual afirma dominar a situação para lá de crítica e tenta jogar o problema para o Federal, o qual responde que os cuidados com a água são da Unidade Federativa.
Remediada, a Ponte dos Remédios segue como opção segura ao tráfego paulistano. Mas o abastecimento público fica com a raspa do tacho dos reservatórios e córregos mais próximos da megalópole. Milhões de cidadãos brasileiros permanecem em dramática contigência do recurso mais abundante em nosso país.
Seja nos transportes ou no bem mais básico e precioso, vivemos o descaso absoluto dos Poderes. Lotados por gente ávida pelos recursos financeiros amealhados dos caros impostos, somos indignos da mais comezinha promessa da campanha surgida da mente de algum marqueteiro.
Entramos em 2015 acostumados a monitorar a percentagem do Cantareira, o qual adentra novo período de estiagem com ainda menos água que no ano passado, sem outra perspectiva que não o racionamento. A solução está na produção de água, mediante procedimentos de segurança hídrica, com ações focadas na restauração do ciclo hidrológico natural, a única forma de recarga das águas dos mananciais e reservatórios superficiais e subterrâneos (aquíferos).
É preciso blindar os mananciais, impedindo a ocupação urbana deste espaço. As florestas são o meio pelo qual se retém a água no solo, evitando a perda das águas pela evaporação. Então, há que se recriar as matas ciliares, proteger as nascentes, reflorestar os terrenos íngremes, restabelecer a Reserva Florestal. É preciso revogar o Novo Código Florestal.
Além disso, há que cessar os desmatamentos, estancar o avanço das fronteiras agrícolas e restaurar - o máximo possível - os cinco biomas nacionais: Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia, Floresta com Araucárias, Pantanal.
Caso contrário, seguiremos despreparados para as críses hídricas vindouras, estiagens cada vez mais longas, intensas, severas. O que será de nossas cidades e nossas fronteiras agrícolas sem a água?
domingo, 15 de março de 2015
Rua das Flores II
Chegamos na Praça Santos Andrade, aqui em Curitiba, logo após as 14h, o horário marcado nas redes sociais. O espaço já estava cheia e mais pessoas chegavam por todas as ruas, chegando a 80 mil, pelas contas da Polícia Militar. Muitos vestiam verde e amarelo, uma camiseta da seleção ou a própria bandeira do Brasil. Esse clima de Copa tinha um motivo muito nobre: a manifestação popular por uma melhora na política, um Brasil melhor.
Haviam faixas de "Chega de corrupção", que está mais alinhada ao modo como o Brasil conseguirá superar a crise. Mas haviam também "impeachment", "Fora Dilma", "Fora Toffoli", "Fora PT", "Welcome to corruPTion paradise". A frase que mais gostei dizia "Quem não se manifesta, aceita calado". Também gostei do cartaz de uma teen, com "É tanta coisa que não cabe aqui".
Dos prédios, bandeiras do Brasil, bandeiras verdes, amarelas, vermelhas,... Ops! Sim, esticaram uma enorme bandeira vermelha em uma janela, logo recolhida após manifestações contrárias, em coro. A reação da massa não foi das mais democráticas...
E da Praça, caminhamos pela Rua das Flores. Novamente, poucas semanas após os professores encherem de cores este, que é o calçadão da Rua XV de Novembro, as massas cívicas ergueram sua voz por uma política melhor.
A solução? Não sei, ninguém sabe e mesmo as manifestações foram difusas. Impeachment? A Dilma foi eleita em pleito democrático e deve permanecer à frente do Brasil pelo período integral dos 4 anos. Será um penoso período não só para o povo, mas também para um PT cada vez mais precarizado por escândalos cada vez mais avassaladores, já que insiste em confundir a gestão do país com a gestão de seus próprios interesses. Passados mais 3 anos, aí sim, as urnas receberão nosso sonoro "Fora PT".
Lanceiros Negros II
Desde o início dos acontecimentos, já se passou Copa, Natal, Reveillon, Carnaval e as manifestações cívicas. Já são 8 meses desde que ele, sua esposa e filha neném foram despertados, desde que ele fora retirado do seio familiar e retido para averiguações.
Da prisão da unidade policial de sua cidade natal, fora transferido para o presídio regional, a 130 km de sua casa. Distância essa que sua mãe e esposa conhecem bem, assim como os procedimentos indecorosos que precisam vencer para prestar-lhe apoio.
Se em toda notícia ruim, há um aspecto positivo, este deve ser o estreitamento das relações familiares da parte de sua mãe com sua sogra, na luta perene por conseguir fundos para advogado, viagens e compra dos itens que precisam ser entregue ao cativo. E como toda notícia ruim ainda pode piorar, de seu empregador não pingou mais um único Real de salário, nem tampouco houve um único mês de auxílio-reclusão.
Privado de sua família e liberdade, sobrevive entre dezenas de detentos, em um espaço que não comportaria um terço dessa turma em condições razoáveis. Para se ter uma ideia, cada colchão abriga uma dupla, dormindo em carta de valete. Difícil imaginar como conseguir um mínimo de conforto e dignidade nos longos, incômodos e sonolentos dias.
As averiguações talvez estejam em curso, mas ainda não houve julgamento. Ele segue preso já por oito meses, sem ao menos haver sido julgado culpado, apenas um suspeito mal explicado. O caso já está nas mãos do juiz, ao qual pagamos auxílio-moradia na esperança de alguma notícia de alento para essa família, uma decisão quem sabe tão boa que possa requalificar um nome jovem perante a sociedade, estancando o prolongamento do enorme tempo já perdido.
A notícia só poderá ser boa, a exemplo de José Genoíno, que condenado no Supremo Tribunal Federal, pagou a multa com 'vaquinha', recebeu regime semi-aberto e teve a condenação extinta.
Da prisão da unidade policial de sua cidade natal, fora transferido para o presídio regional, a 130 km de sua casa. Distância essa que sua mãe e esposa conhecem bem, assim como os procedimentos indecorosos que precisam vencer para prestar-lhe apoio.
Se em toda notícia ruim, há um aspecto positivo, este deve ser o estreitamento das relações familiares da parte de sua mãe com sua sogra, na luta perene por conseguir fundos para advogado, viagens e compra dos itens que precisam ser entregue ao cativo. E como toda notícia ruim ainda pode piorar, de seu empregador não pingou mais um único Real de salário, nem tampouco houve um único mês de auxílio-reclusão.
Privado de sua família e liberdade, sobrevive entre dezenas de detentos, em um espaço que não comportaria um terço dessa turma em condições razoáveis. Para se ter uma ideia, cada colchão abriga uma dupla, dormindo em carta de valete. Difícil imaginar como conseguir um mínimo de conforto e dignidade nos longos, incômodos e sonolentos dias.
As averiguações talvez estejam em curso, mas ainda não houve julgamento. Ele segue preso já por oito meses, sem ao menos haver sido julgado culpado, apenas um suspeito mal explicado. O caso já está nas mãos do juiz, ao qual pagamos auxílio-moradia na esperança de alguma notícia de alento para essa família, uma decisão quem sabe tão boa que possa requalificar um nome jovem perante a sociedade, estancando o prolongamento do enorme tempo já perdido.
A notícia só poderá ser boa, a exemplo de José Genoíno, que condenado no Supremo Tribunal Federal, pagou a multa com 'vaquinha', recebeu regime semi-aberto e teve a condenação extinta.
quarta-feira, 11 de março de 2015
Bruta História
As imagens do EI são fortes, mas lamento confessar que me chocaram mais os ataques aos acervos históricos. Lamento pelo fato em si, mas principalmente por meus sentimentos ignorarem que uma única vida humana vale mais que qualquer obra histórica. E quantas vidas eles têm ceifado...
Quem são? Por que fazem isso? Não, não me digam que o fazem por Deus. Em meus pensamentos, tenho Alá como a divindade adorada pelos islamistas, assim como os cristãos adoram a Deus, a Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Penso que Alá é a forma como o próprio Deus, por seu amor e sabedoria infinitos, quis se dar a conhecer pelos muçulmanos. Assim como os judeus adoram Javé e nós, cristãos, adoramos a Deus. O mesmo Deus revelado de forma peculiar a povos distintos, ansioso pelo reconhecimento de todos.
Um motivo bom para pensar assim, é que muçulmanos e judeus são primos, descencentes do mesmo pai Abraão. Os cristãos, por sua vez, têm por herança o Deus dos judeus, pela vontade do Divino Criador.
Mas o que os nossos irmãos do EI estão fazendo?
A resposta talvez recaia na pergunta contrária: o que foi feito aos partidários do EI, para que agissem assim? Então caímos no óbvio, mas difícil de ver: os povos que hoje formam o EI estiveram fora do jogo dos grandes poderes humanos por muito tempo. Em tempos recentes, sofreram o horror de dois dos mais pesados bombardeios aéreos do mundo. Um pouco antes, permaneceram oprimidos sob governos totalitários, do qual Saddam Hussein é apenas um exemplo, mas recorrente em diversos países. Menosprezados por Israel e as grandes potências ocidentais, aos quais o petróleo soa mais interessante que todo o resto (as vidas inexpressivas dos povos locais). Mais atrás ainda, as dominações colonizadoras europeias, nas quais o escravismo era uma opção. E então Gengis Khan, Cruzadas, Júlio César, Alexandre o Grande,... Essa pesada História traz poucas opções no cenário contemporâneo, talvez a China e seu típico trato estrangeiro, do que temos o vívido exemplo do Tibete... As perspectivas para as populações árabes nunca foram muito boas.
Impressiona a capacidade dos Bush pai e filho, de ver na descarga fatal de bombas, uma solução. Descarregando toda sorte de males sobre um povo, esperavam que brotassem flores? Simplesmente ignoraram a História e as eloquentes consequências das intervenções do homem europeu, em última análise, do homem branco. Os conflitos decorrentes de tantos anos de um ódio dormitante que alimentou mais e mais ódio. Por fim, o Obama, com sua tosca solução de simplesmente retirar as tropas, deixando o país à deriva, sem garantir uma mínima estabilidade política.
Mas as belas obras de arte, evidências do nascer da consciência, registros no berço da civilização, estatuária unindo crenças e ciência humana, o homem representado em boi, leão, águia e cobra. Os colossais testemunhos da antiguidade... Estamos assistindo um amargo repeteco: o dominador, soberano em seus valores parciais, destruindo o que julga inútil. Assistimos, em temos pós-modernos, a dominação de Pizarro, a queda de Montezuma, o assolamento da cultura indígena americana, a destrato ao povo africano, a perda da Sala de Âmbar nos arrastes nazistas, o massacre cultural das raças não-arianas, bem como a ruína da cultura alemã, promovida por seus próprios líderes e arrematada por russos e aliados.
Apesar da pirotecnia e barbarismo das cenas que nos chegam nos dias de hoje, ninguém de peso acena soluções (por favor, pelo bom senso, desconsiderem a proposta de Dilma em se conversar com os extremistas). No fim das contas, tantos foram os ataques ao povo árabe, que aparenta não haver sobrado disposição alguma para repelir a insanidade que assola o Oriente Médio.
terça-feira, 3 de março de 2015
Petistas de volta
Enrolado nos 12 anos de poder, o PT busca justificar que a turma do FHC agia assim, que o PSDB faz igual. Mas foi por ser diferente, que o povo colocou o PT no poder, para fazer a diferença!
E os partidários do PT aceitam e cerram fileiras como quem defende seu time de futebol desabado na segunda divisão. Mas ao contrário das quatro linhas, as consequências de um jogo político ruim refletem em toda a sociedade, todos saem perdendo, ficando a sociedade cada vez mais deteriorada e sedenta de ordem e progresso, saúde e educação, justiça e paz.
Os petistas, que eram tão informados de tudo o que acontecia na política, acusavam prontamente o erro, escancaravam a maracutaia, o que aconteceu? Silenciaram porque o PT fraquejou e sucumbiu à lama? Pois na lama não estamos todos agora?
Se os petistas se calaram, quem vai falar em seu lugar, quem vai lutar pelo país, expor e execrar a corrupção? O povo tem pressa e já se movimenta: os caminhoneiros paralisando rodovias, os professores e diversas categorias de servidores no Paraná fazem queda de braço com o Executivo e o Legislativo.
Mas para consertar o Brasil é preciso mais! Corruptores na cadeia, fim da impunidade, dos verbodutos, dos superfaturamentos, das mega-obras desnecessárias. O tempo se fez curto para reconstruir o país que ainda desejamos deixar para nossos filhos.
Oposição e situação já se mostraram tão iguais quanto pequenas, já não há mais bandeiras partidárias a defender. O PSDB do Covas? O PT do Lula? O PMDB, antigo MDB do Ulysses? O PV do filho do Sarney? Não, queremos uma nova política e precisamos de gente engajada em lutar por um Brasil melhor. E nessa luta, os petistas estão fazendo falta, muita falta.
E os partidários do PT aceitam e cerram fileiras como quem defende seu time de futebol desabado na segunda divisão. Mas ao contrário das quatro linhas, as consequências de um jogo político ruim refletem em toda a sociedade, todos saem perdendo, ficando a sociedade cada vez mais deteriorada e sedenta de ordem e progresso, saúde e educação, justiça e paz.
Os petistas, que eram tão informados de tudo o que acontecia na política, acusavam prontamente o erro, escancaravam a maracutaia, o que aconteceu? Silenciaram porque o PT fraquejou e sucumbiu à lama? Pois na lama não estamos todos agora?
Se os petistas se calaram, quem vai falar em seu lugar, quem vai lutar pelo país, expor e execrar a corrupção? O povo tem pressa e já se movimenta: os caminhoneiros paralisando rodovias, os professores e diversas categorias de servidores no Paraná fazem queda de braço com o Executivo e o Legislativo.
Mas para consertar o Brasil é preciso mais! Corruptores na cadeia, fim da impunidade, dos verbodutos, dos superfaturamentos, das mega-obras desnecessárias. O tempo se fez curto para reconstruir o país que ainda desejamos deixar para nossos filhos.
Oposição e situação já se mostraram tão iguais quanto pequenas, já não há mais bandeiras partidárias a defender. O PSDB do Covas? O PT do Lula? O PMDB, antigo MDB do Ulysses? O PV do filho do Sarney? Não, queremos uma nova política e precisamos de gente engajada em lutar por um Brasil melhor. E nessa luta, os petistas estão fazendo falta, muita falta.
Grito dos esquecidos
Faço minhas as palavras do médico Joáo Nelsi Lukenczuk, publicadas hoje, 03 de março de 2015, na Folha de Londrina, Opinião do Leitor, acerca da Greve dos Caminhoneiros:
Tive
a oportunidade de acompanhar o protesto dos caminhoneiros em vários trechos
rodoviários do país. A força da classe foi inegavelmente evidenciada pelo caos
que começou a ser provocado nos mais variados setores da sociedade brasileira.
Como qualquer trabalhador que luta no árduo mister de promover o progresso da
nação brasileira, o caminhoneiro tem suas alegrias e vicissitudes, entretanto,
nos últimos tempos, as agruras e os sofrimentos parecem predominar. Aquele que
sai de casa sem saber quando volta ou se volta, deixando os entes queridos
vários dias ou meses, alimentando-se e dormindo mal, muitas vezes até sem local
para fazer a própria higiene pessoal, não é valorizado. Além do mais, o desequilíbrio
receita/despesa vai cada vez mais acentuando: o baixo valor do frete contrasta
com a alta dos combustíveis e a exorbitância dos pedágios vai sepultando os
lucros, as esperanças e as ilusões desse bravo guerreiro das estradas. Nesse
episódio o desespero e a revolta foram evidenciados e coube aos caminhoneiros a
missão de ser os porta vozes de uma nação inteira, cansada de conviver com
tanta roubalheira e tantos desmandos. Não bastasse isso, temos ainda que arcar
com uma alta carga tributária. Parabéns caminhoneiros, que Deus os proteja e dê
muita força nessa arrojada e corajosa empreitada de repaginar nosso país pelo
grito dos esquecidos.
Autor: João
Nelsi Lukenczyk (médico) - Londrina
Publicado em: Folha de Londrina, Seção Opinião do Leitor, 03/03/2015
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