quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Kleber K

Estávamos desanimados com o nosso próximo passeio. E era para Ubatuba. Eu andava down e contagiei a turma. Mas o Cléber não cedeu. Kleber K, ele se auto-nomeava. De baixa estatura, cor morena, boa aparência, inteligente e espirituoso.
'Mas vocês estão desanimados demais!!', se irritou com turma. 'Vamos cantar!', E mandou o sucesso da época: 'Toda vez que eu chego em casa, a barata da vizinha tá na minha cama...', acompanhamos, mais por educação. O cara não se abatia e sustentava os acordes. Cantava muito bem.
O Cléber conduzia o pagode e fazia cada um entrar na roda: 'Diz aí Coqueiro, o que cê vai fazer?'. O Coqueiro respondeu: 'Eu vou pegar um pau prá me deeefender'. Menos desanimados e em coro, respondemos: 'Ele vai dar uma paulada na barata dela! Ele vai dar uma paulada na barata dela!'
O Cléber apontou para o próximo: 'Diz aí Fernando o que cê vai fazer?', com resposta do Fernando: 'Eu vou pegar um inseticida prá me deeefender'. E o coro seguiu: 'Ele vai dar uma tonteada na barata dela! Ele vai dar uma tonteada na barata dela!'.
Chegou a vez do Marinho, camarada calmo, gentil, um olhar amigo até debaixo d'água. 'Diz aí Marinho o que cê vai fazer?'. O Marinho vacilou na resposta 'Êeer..'. O Cléber puxou o coro: 'Ele NÃO VAI FAZER NADA com a barata dela! Ele NÃO VAI FAZER NADA com a barata dela!'. Rimos muito! O Marinho, de tão amigo, achou graça do próprio mico.

Alguns dias depois, esses 5 caras lotaram o gol quadradinho azul EB-7865 ano 1989, para se alojar próximo à Praia de Ubatu-Mirim, na semana do carnaval de 1994. Foi memorável.
Ficamos uma semana em uma casa de caçador, a 25 km do centro da cidade, sentido Parati-RJ, 3 km Mata Atlântica adentro, no sentido contrário da praia, em estrada de chão com subidas cada vez mais íngremes. A via era tão precária que um trecho era só rocha. Chegava-se a uma clareira inclinada, com casas espaçadas. O piso era um cimentado simples e os colchões, espumas sem capa. Não tinha luz elétrica ou água encanada. A água chegava só até o vizinho de baixo, que nos ajudava improvisando um mangueirão para a nossa caixa d'água. Tínhamos o suficiente para um banho básico, cozinhar alimentos e lavar a louça.
Mas haviam camas e beliches, e tínhamos lanternas, creme repelente de insetos, comida e o Coqueiro era um cozinheiro de mão-cheia. A cerveja era bebível enquanto durava o estoque de gelo comprado nos postos de gasolina e socados na caixa de isopor.
Chegamos ao local na madrugada de sábado, após uma descida da serra engarrafada. Naquela  pirambeira, foi possível estacionar o carro no acesso plano de uma casinha. O Cléber e o Marinho saíram de lanternas em mãos, a procurar pela casa. O calor era infernal e ao abrir as janelas do carro, descobrimos mais um detalhe importante: o lugar era coalhado de insetos, tantos que a menor fresta de vidro aberto já nos punha às voltas com insetos de todas as variedades.
Um detalhe adicional é que o Marinho soube nos guiar até lá, mas não se lembrava de onde estava a casa, acho que nem nunca tinha ido lá! O tempo passava e ora eles subiam a rua, ora desciam, os fachos das lanternas a balançar de maneira errática, desencontrados. E dentro do carro, dissolvidos em calor, uma discussão acalorada sobre aguentar o calor ou os insetos.
Contra todas as esperanças, encontraram a casa, ela ainda estava lá! Descarregando o carro e lambuzando a pele de creme repelente, foi só lançar os lençóis sobre os colchões e dormir!

Um persistente bater de tampas de panela irrompeu naquela madrugada ensolarada, acompanhados pelos gritos do Cléber: 'Vamos lá, galera! O dia tá lindo, vamos aproveitar a manhã, tem que acordar cedo!' Eram só 6 horas da matina, mas para ele, já tínha praia. Foi assim toda manhã.
De dia, descobrimos que era a hora dos borrachudos. Então havia mesmo um bom motivo para correr para a praia.
Os dias eram longos, começando às 6h e terminado após as 2 da manhã, sempre visitando uma praia qualquer de manhã, a Praia Grande à tarde e o centro da cidade à noite. De cansados, dormíamos na areia, sob o guarda-sol.
Chegamos a uma exaustão tão grande que, certa noite, voltando da madrugada da Praia do Lázaro - o point naquele ano - às 4h da madruga, com todos dormindo no carro, eu já não resistia ao sono. O Cléber acordou com os solavancos do carro passando sobre as tartarugas da sinalização da pista. 'Você não acha melhor eu dirigir?'. Com ele na direção, seguimos para casa.

Naquele fim-de-mundo, em meio àquele mato, duas garotas passaram por mim, duas gatas, uma delas carregando um enorme cacho de bananas. Uma visão surreal. Animado, entrei na casa alardeando o que vi. Ninguém reagiu, estavam certos de que só podia ser miragem.

Kleber K. K de K-nalha, K de K-fajeste, K de K-chorro. Reunia a turma em todo fim de semana para nadar nos poços da Serra da Mantiqueira, pedalar, acampar, bater um bom papo. Intimava a todos logo de manhã, com um assovio parecido com o apito da Polícia Militar. Acordar com aquele assovio era puro ar entrando nos pulmões.
Nos organizava, guiava os passeios e trilhas, amarrava cordas para vencer os desníveis, bolava fotografias que impressionavam as garotas, nos entretinha, nos incentivava, nos fazia cantar, nos fazia  rir. Chorar de rir, perdendo o fôlego, eu, meu irmão Fernando, os amigos especialíssimos Marinho e Coqueiro.

K de K-sado, praticamente só nos vemos para recordar aqueles dias ensolarados.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Conhece o Neguinho?

Apresento o Neguinho, um menino que aos 15 anos de idade, passou a morar em nossa república de engenheiros, da noite para o dia. Explico: ele vinha sendo criado em um orfanato, desde a morte de sua mãe, a empregada doméstica do meu patrão. Ao completar essa idade, o Neguinho já não podia mais permanecer na instituição. Assim, do nada, naquele fim-de-tarde em que cheguei no escritório central, fui apresentado a ele, com todo o entusiasmo, pelo meu patrão. E também soube que ele passaria a morar conosco. Maurício é seu nome, negra é a sua tez.
Ao Maurício, estava destinada a edícula, com direito de uso da cozinha da casa, o que lhe garantia a chave de uma das portas da casa.
Nossa república já vinha formada há mais de um ano, mas desta vez estávamos em casa nova, na Rua Barão do Bananal, no bairro Pompéia, em São Paulo. Era uma casa assobradada, destacada da vizinhança pela cor laranja-vivo das janelas e portas, e respectivas molduras de cor preta. Essa parte também tenho que explicar: eu trabalhava em uma construtora, que lidava principalmente com reforma de escolas. A empresa possui um depósito de materiais repleto de tintas, algumas para pintar as portas de saída de emergência, na cor laranja-vivo...
Os engenheiros trabalhavam no Estado todo e se hospedavam na república quando vinham à sede, na capital. Permanentes mesmo, só eu e o Gaguinho, que praticamente nunca saíamos da capital.
De volta ao Mauricio, bem que tentamos acolhê-lo e até educá-lo, por exemplo, exigindo que fizesse a refeição manuseando, devidamente, um garfo e uma faca, ao invés de uma colher. Mas...
O problema começou na cozinha: ele era incapaz de lavar o que usou. Aliás, melhor assim, porque percebemos que ele usava a esponja para esfregar o chão. Vendo isso, perdi a cabeça e gritei muito com ele,' porco!'.
E o problema avançou para os quartos: consumia sem parcimônia o que havia na geladeira, e subia ao quarto do gaguinho, para desfrutas de suas Playboys. Mesmo proibido dessas aventuras pela casa, era fácil saber que ele andava por lá, o rapaz desconhecia limites.
E o problema se estendeu para o escritório (ah, sim! Nosso patrão também tentou lhe dar um meio de sustento). A gota d'água foi quando ele apareceu por lá, calçando os tênis do Gaguinho, sendo flagrado pelo próprio.
Trocamos o segredo das portas de acesso à casa e o deixamos de fora, ocupando somente a edícula. Percebi que ele passava fora boa parte da noite, mas não sei o que fazia, dizia que estava no Estádio do Palmeiras. Enquanto isso, no escritório, o Departamento de Pessoal tentava encontrar alguém com ele pudesse trabalhar ou ao menos um serviço que ele cumprisse. Mas não teve jeito, nem ao menos cópias xerox ele entregava a contento, nem queria.
Passadas algumas semanas, a república foi desfeita e o rapaz teve sua moradia transferida para o almoxarifado da empresa. Ali permaneceu até denunciarem o furto de materiais do estoque,  que segundo me disseram eram trocados por dinheiro e drogas. A este momento, eu já não trabalhava mais lá. Foi o golpe de misericórdia.
Menos mau, pois também veio à tona que, quando na atividade de boy, ele chegou a desfazer-se dos documentos em uma lixeira qualquer, e seguir o expediente matando o tempo na praça.
Tenho pena do Neguinho. Imagino que talvez nem esteja vivo, pois as condições legadas à sua vida foram bem precárias, não teve acesso a cultura, a algo que lhe incutisse boa vontade ou disposição. Mas não posso negar que tentaram ajudá-lo. Eu também tentei, mas tão pouco.


O Luto no Sul de Minas de antigamente

Até metade do Século XX, o luto no Sul de Minas envolvia práticas rígidas para os parentes do falecido, que eram religiosamente seguidas: o ...