sábado, 10 de maio de 2014

Kleber K (II)

Seguíamos em direção ao nosso primeiro acampamento, rio acima. Eu estava feliz por pisar um lugar ermo, opção de poucos, achando que fazia especial por ser certo que ninguém mais frequentaria aquele lugar. Em um poço largo à frente, em meio às águas agitadas por uma cachoeira, uma figura conhecida parou de nada e me fitava, sorridente. "Cléber?", perguntei. Ele acenou com a cabeça que sim. Conversamos um pouco e soube que ele era amigo dos proprietários daquelas terras e sempre nadava ali. Nos desejou um bom acampamento e foi embora.

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Nos conhecíamos da infância nas piscinas do Senzala (clube de campo) e no estudo primário no Oratório, mas não convivíamos. Certo recreio o vi 'caminhando' com as mãos, enquanto 'plantava bananeira'. Até aquele momento, sabia pouco mais que o seu nome, que era irmão da Fabíola e do Beto, que era um pouco mais velho que eu.

Adolescentes, pixei um muro próximo à casa dele, declarando amor à moça que um dia seria a sua namorada.

Por essa época, o Cléber era o tecladista do Orelha de Sapo, uma banda que já até tinha música de própria autoria, gravada em estúdio:
"É rock meu, quem bebeu não sabe ao certo se deu, 
Valeu, valeu! Dá em cima de quem te ofendeu!"
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Na faculdade, eu com 21 anos, estabelecemos amizade e formamos um grupo de passeios e explorações, com mais o Rodolfo, o Marinho, o Coqueiro e o Fernando. Uma de nossas primeiras aventuras foi no Parque do Itatiaia, visitando todas as cachoeiras que podíamos, desafiando suas águas agitadas e geladas com nossas máscaras de mergulho e nadadeiras, brincando feito crianças! Nesse primeiro 'ataque', foi marcante o salto do Cléber e o Rodolfo no paredão da Cachoeira Pitú. Eles galgaram quinze metros de um paredão de rocha vertical e se jogaram no poço. O salto foi tão alto, que pude acompanhar as múltiplas expressões faciais, enquanto caíam.

Outra vez em Itatiaia, no enorme poço do Maromba, o Cléber inventou de passar um rolo de corda grossa no ombro direito e se pôs na beira de uma rocha alta, uns vinte metros de altura à beira do poço, e fixou a corda em uma árvore com tronco se esgueirando sobre o precipício, desfazendo o rolo. Assistíamos a tudo lá de baixo, nós e os turistas que por lá estavam, surpresos e em suspense. O Cléber então, passou uma volta da corda pela coxa, fazendo uma espécie de travamento, passando a descer pela corda, com que facilidade! A uns três ou quatro metros da linha da água, no fim da corda, ele se jogou, mergulhando na água.

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Eu já recém-formado, trabalhando em São Paulo, o Cléber me convidou a um videokê na Liberdade, uma novidade naquele ano de 1994. Era um local curioso, com o metade do salão ocupado por um cercadinho que reunia mulheres bonitas, bem vestidas e maquiadas. Na nossa metade, homens em suas mesas recebiam essas moças em companhia. Não tivemos essa companhia, mas nada a se estranhar, pois logo que chegamos, abrimos nossas carteiras para nos certificar de possuir dinheiro para pagar a conta. Foi o que bastou para que ficássemos sozinhos.

O 'cardápio' tinha músicas em japonês e inglês, sendo que os cantores de plantão preferiam as músicas mais calmas e inspiradoras, levando paz ao espírito. Fiquei impressionado com um brasileiro emplacando músicas japonesas. O Cléber cantou 'Smoke gets in your eyes' com excelente desempenho, mandando bem até nos tons mais altos.

Cantei uma bem conhecida dos Beatles,  mas inseguro, ouvi daquele brasileiro nipo-cantor: "Você canta melhor. Você está com o espírito preso". Me abriu o caminho para refletir sobre isso e buscar mudanças.

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Conforme narrei em 'Kleber K', passamos um Carnaval em Ubatuba, em uma casa sem água encanada nem energia elétrica, morro adentro na Mata Atlântica. Certo fim de tarde, sob chuva, eu não conseguia levar o Golzinho 'quadradrinho' ano 87 naquela subida tomada de lama. O Cléber entendia de carros e afirmou ser necessário invertermos a tração, ou seja, subir de ré. Assumindo o volante, venceu os 50 metros, na confiança. Mas daí um novo problema: umas pedras no caminho haviam trincado o caninho do combustível sob o piso carro. O Cléber se deitou sob o carro, e com a ajuda de uma lanterna, se pôs a analisar a questão. Haja paciência, nem quis ver! Naquele fim-de-mundo, conseguiu do vizinho um caninho com o diâmetro exato e mais arame e estilete para a obra, estancando a sangria.

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Nossa turma acampou aos pés da Serra da Mantiqueira, entre o maciço da Serra e o Mar de Morros do Vale do Paraíba. Mas sob chuva fria pulverizando gotículas, passamos a tarde dentro das duas barracas. Dormíamos e acordávamos, sentindo a fome apertar, apenas trocávamos piadas de uma barraca a outra. Como de costume, éramos eu, meu irmão Fernando, o Marinho e o Coqueiro, mas naquele feriado contávamos com o reforço de 2 amigos de São Paulo, apelidados de Tang e Ki-Suco.

Perto das 22h, a chuva deu uma trégua e pudemos esticar as pernas. A lenha estava molhada e não havia fogo para preparar comida alguma. Foi quando vimos a luz de uma lanterna bruxuleando, aproximando-se desde a casa do dono daquelas terras. Mas quem conseguiu autorização para lá estarmos foi o Cléber, que não pôde participar. Preocupados, nos pusemos a elaborar desculpas. Para nossa extrema alegria, ouvimos o silvo da polícia, o típico assobio de saudação do nosso amigo Kleber K! E lá veio ele, boné na cabeça, mochila  nas costas, lanterna à mão, bem disposto, brincando um monte com a nossa desesperada situação. Falava, matraqueava, enquanto reclamava, rachava lenha, destacava uma turma para estender uma lona entre as barracas, mandava outros lavar a louça, lá na distante bica: "Vocês nem lavaram a louça!", "Vocês deixaram a lenha molhar!", "Que falta de atitude!", "Como é que vocês iam fazer?" "A lenha molha por fora mas fica seca por dentro". Mas tudo isso com muito bom humor, contando muitas histórias e piadas. Conseguimos fogo, carne assada, macarrão, jantar!

Pouco antes de dormir, a paisagem do Vale era ampla e límpida, as luzes de Cruzeiro tremeluzindo ao longe. Sobre a cidade, uma nuvem mais baixa, com uma curiosa forma de frango assado.

Acordei às 4h30m, a paisagem ainda linda, mas já sem o frango. Nos minutos seguintes rezei, entretido com as luzes de Cruzeiro. Um som diferente se fez ouvir, vindo no alto das montanhas que nos cercavam. De repente, uma forte rajada de vento derrubou uma das hastes da cobertura de lona. Rapidamente a repus, quando outra haste foi arrancada. O Cléber saiu da outra barraca e deu conta desta haste. Outra haste foi ao chão, o Cléber gritou "abaixa tudo!". As rajadas se sucediam em levas, dava para ouví-las se aproximando,  alternando-se dentre a encosta norte e a encosta leste. Recebíamos uma pancada após a outra, chegando a rasgar o tecido da cobertura de uma barraca e a jogar nosso amigo Coqueiro para o lado. Não teve jeito: desfizemos o acampamento.

Qualquer um que passe por isso irá concordar que é maravilhoso um café-da-manhã em casa, com os pais!  O Tang dizia "Viemos de São Paulo até aqui prá sofrer". O Marinho achava que não devíamos ter desistido, mas o Ki-suco retrucou: "Prá quê? Íamos estar lá presos na barraca trocando piada até agora!"

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A despedida de solteiro do Kléber foi em acampamento, como sempre, lá ao pé da Serra. Os convidados chegaram lá em 3 carros e 2 motos, mas desta vez, conduzindo os veículos até o local do camping, vencendo 770 metros de um denso mato de sapê, as motos à frente e gente a pé, escolhendo o melhor caminho. Cheguei mais tarde, mas pude me guiar por marcas no mato, acusando as duas trilhas dos pneus. Adentrei o mato sozinho, o mato por vezes acima do capô, adrenalina! Um pedrão me pegou a lateral direita do Golzinho branco, amassando o metal sob a porta, quase impedindo-a de abrir.

O clima estava ótimo, tanto da temperatura, como dos amigos. Churrasco, trote no noivo - que teve raspados os pelos de uma perna - e muitas piadas. Tarde da noite, eu tomado de felicidade: deitado com as costas sobre uma rocha, vasculhando um céu coalhado de estrelas, absolutamente fraco, não me aguentando de tanto rir.




quinta-feira, 8 de maio de 2014

Esmola negada

Fazia frio naquele início de madrugada, quando terminei a compra de um remédio e deixava a farmácia ansioso por chegar logo em casa. Já no carro, um menino se postou ao vidro e me pediu dinheiro. Irritado, vi que dispunha de duas moedas em minha carteira, R$ 1,00 e R$ 0,05. Foi o que dei a ele, a de menor valor, apenas.
Dei a partida no carro por apenas alguns metros, parando antes da faixa de pedestres, aguardando o sinal vermelho. Acalentado pelo som do rádio, me pus a observar o menino, em sua nova abordagem, uma Pick-up que acabava de parar na faixa ao lado.
Afinal quem era ele? Esse eu posso descrever com facilidade: uns 13 anos, magro, cerca de 1,30m de altura, pele suja, cabelos cacheados crescidos para cima da cabeça, olhos grandes, mal vestido que só. Devia passar frio. Seu corpo em uma só posição: ereto, os olhos fixos a quem interpelava, a mão esquerda erguida em sinal de aguardando que algo lhe fosse dado, a mão direita posta sobre o estômago. A boca pronunciava os mesmos dizeres que foram ditos a mim: "eu tenho fome". O motorista partiu sem atendê-lo, enquanto a o menino o acompanhava, girando lentamente o corpo, os olhos fixados veículo, a boca entreaberta, incrédulo. Ainda me julgando no meu direito de não ser incomodado, parti também.
Seguindo para casa, aquela cena me remoía, o menino podia estar vivendo sua primeira noite fora de casa, podia estar se sentindo no limite do suportável, aquela atitude de não crer na recusa da esmola, enquanto se percebia à mercê da fome e do frio, ninguém o ajudaria, a noite seria longa, as perspectivas em sua vida, nulas. Estava tomado de vergonha, lembrando no quanto não lhe ajudei, arrependido de não ter ao menos lhe dado a moeda maior.
Voltei lá no início da noite seguinte e me pus em pé na esquina, a procurá-lo em meio à agitação dos transeuntes naquele horário das 20h. Quem vi foi um outro menino maltrapilho, atravessando a rua decidido, em minha direção. Parou em frente a mim e com um largo sorriso, uma expressão de satisfação em seu rosto, me estendeu a mão em uma atitude de quem aguarda receber o que lhe é devido. Pedi que caminhasse comigo até uma padaria, onde lhe paguei um sanduíche e uma vitamina. Voltei para casa um pouco melhor resolvido com minha consciência.

Na noite anterior neguei esmola a alguém de fato necessitado. Na noite seguinte, um outro pequeno necessitado, significando uma oportuna nova chance. O que neguei na noite anterior, não me fora negado no dia seguinte.

O acontecido foi tão místico, que busquei resolvê-lo na minha ciência cristã, de que o esmoleiro é o próprio Cristo. Era Ele na noite anterior, foi Ele novamente na noite seguinte. Acho que seria errado dizer que foi como se eu quitasse uma dívida, mas eu nada disse e o menino se postou diante de mim calado, em atitude certa de que não sairia de mãos vazias. E o rosto tomado por aquela expressão de satisfação...

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A flor por testemunha

Estive com ela em duas ocasiões apenas, mas esses breves encontros renderam dezenas de cartas e telefonemas. Eram os anos de 1993 e 94 e minha auto-estima andava muito baixa. Na primeira ocasião, a Denise tentou me tirar para dançar, mas recusei, alegando não saber dançar - e não sei mesmo. Mas na segunda, como estava de passagem em sua cidade, aceitei o convite para dormir em sua casa.

Conversamos um monte no início da noite e saímos para os festejos na cidade, tendo a oportunidade de beijá-la enquanto rolava um desfile de lingerie. Nas horas seguintes caminhamos pela praça, onde colhi a flor branca de uma árvore e a entreguei, colhendo um sorriso em resposta e vendo que ela não soltava mais a flor.
Na manhã seguinte, acompanhei seu pai no trato das galinhas no fundo do quintal, nos cuidados com as árvores e mudas do pomar. Lá na frente, uma buzina me chamando. Peguei minha mala e entrei na cozinha para a despedida. Ela estava em pé, de frente para mim, o quadril apoiado no balcão, as mãos agarradas às beiradas. Seus olhos estavam fechados e seu rosto transmitia um sentimento forte, que arrisco dizer tratar-se de dor. Beijei-a, me despedi e parti. Ela nada disse.
Havia sido um fim-de-semana e tanto, que me ajudou muito no resgate da minha auto-estima, mas era uma época em que eu não estava com coragem para me relacionar com alguém.

As cartas foram um episódio à parte. Quando tudo terminou, cheguei a fazer a estatística das postagens, mas como sempre acaba acontecendo, não resistiu a um dia dedicado a organizar meu quarto e me desfazer de coisas. 
A primeira carta iniciava com "Você entrou por aquela porta, me beijou e partiu. Você entrou na minha vida.". Dentro de uma das cartas, uma flor ressecada, ah, aquela flor! Respondi na carta seguinte: "Já sem cor, já sem odor, a flor é testemunha". Logo que recebeu a carta, ela me ligou: "Você viu o que você escreveu?!"
Uma das cartas que recebi estava forrada de beijos, dos dois lados da folha. Por cima dos beijos, a escrita. Desta vez, resolvi brincar, respondendo: "Essa minha carta também vai forrada de beijos, só que eu não uso batom!".
Ela de fato se esforçou muito para ativar um convívio, para que eu retornasse. Chegou a partilhar segredo, pelo que busquei aconselhá-la, mas evitando me envolver. Com dois anos de relacionamento 'virtual', recebi sua última carta, com seu entendimento de que não era mesmo possível continuar e votos de felicidades. Respondi, tentando reavivar o envio de suas cartas, que me davam muito gosto, mas sem resposta.
A troca de mensagens e as conversas por telefone foram um verdadeiro bálsamo, luz em um período obscurecido por muitas dificuldades e incertezas. Desejo que ela tenha alcançado a felicidade que tanto demonstrou almejar, que tenha conseguido uma boa companhia e esteja vivendo bem sua vida.

O Luto no Sul de Minas de antigamente

Até metade do Século XX, o luto no Sul de Minas envolvia práticas rígidas para os parentes do falecido, que eram religiosamente seguidas: o ...