quinta-feira, 8 de maio de 2014

Esmola negada

Fazia frio naquele início de madrugada, quando terminei a compra de um remédio e deixava a farmácia ansioso por chegar logo em casa. Já no carro, um menino se postou ao vidro e me pediu dinheiro. Irritado, vi que dispunha de duas moedas em minha carteira, R$ 1,00 e R$ 0,05. Foi o que dei a ele, a de menor valor, apenas.
Dei a partida no carro por apenas alguns metros, parando antes da faixa de pedestres, aguardando o sinal vermelho. Acalentado pelo som do rádio, me pus a observar o menino, em sua nova abordagem, uma Pick-up que acabava de parar na faixa ao lado.
Afinal quem era ele? Esse eu posso descrever com facilidade: uns 13 anos, magro, cerca de 1,30m de altura, pele suja, cabelos cacheados crescidos para cima da cabeça, olhos grandes, mal vestido que só. Devia passar frio. Seu corpo em uma só posição: ereto, os olhos fixos a quem interpelava, a mão esquerda erguida em sinal de aguardando que algo lhe fosse dado, a mão direita posta sobre o estômago. A boca pronunciava os mesmos dizeres que foram ditos a mim: "eu tenho fome". O motorista partiu sem atendê-lo, enquanto a o menino o acompanhava, girando lentamente o corpo, os olhos fixados veículo, a boca entreaberta, incrédulo. Ainda me julgando no meu direito de não ser incomodado, parti também.
Seguindo para casa, aquela cena me remoía, o menino podia estar vivendo sua primeira noite fora de casa, podia estar se sentindo no limite do suportável, aquela atitude de não crer na recusa da esmola, enquanto se percebia à mercê da fome e do frio, ninguém o ajudaria, a noite seria longa, as perspectivas em sua vida, nulas. Estava tomado de vergonha, lembrando no quanto não lhe ajudei, arrependido de não ter ao menos lhe dado a moeda maior.
Voltei lá no início da noite seguinte e me pus em pé na esquina, a procurá-lo em meio à agitação dos transeuntes naquele horário das 20h. Quem vi foi um outro menino maltrapilho, atravessando a rua decidido, em minha direção. Parou em frente a mim e com um largo sorriso, uma expressão de satisfação em seu rosto, me estendeu a mão em uma atitude de quem aguarda receber o que lhe é devido. Pedi que caminhasse comigo até uma padaria, onde lhe paguei um sanduíche e uma vitamina. Voltei para casa um pouco melhor resolvido com minha consciência.

Na noite anterior neguei esmola a alguém de fato necessitado. Na noite seguinte, um outro pequeno necessitado, significando uma oportuna nova chance. O que neguei na noite anterior, não me fora negado no dia seguinte.

O acontecido foi tão místico, que busquei resolvê-lo na minha ciência cristã, de que o esmoleiro é o próprio Cristo. Era Ele na noite anterior, foi Ele novamente na noite seguinte. Acho que seria errado dizer que foi como se eu quitasse uma dívida, mas eu nada disse e o menino se postou diante de mim calado, em atitude certa de que não sairia de mãos vazias. E o rosto tomado por aquela expressão de satisfação...

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