sexta-feira, 13 de junho de 2014

Lanceiros Negros

Os Lanceiros Negros, infantaria de escravos atuando na Revolução Farroupilha, após anos de gloriosos feitos pela causa, foram enfim convencidos a depor as armas e pernoitar onde estavam, até segunda ordem. O desfecho foi trágico.

No Brasil contemporâneo, ele ainda dormia com sua esposa e bebê, quando acordaram assustados com o estrondo no portão. Ao espiar pela janela da cozinha, a esposa se deparou com o cano de uma arma de fogo apontada em sua direção, aos brados de 'abram!'.

O carro e a casa, do berço aos mantimentos na cozinha, revirados em busca de armas, drogas, provas. Nada encontraram. Felizmente, ao menos, também nada forjaram.

Algemado e interrogado em frente à família e mais tarde na delegacia, sempre chamado por um nome desconhecido. Guardado em um cubículo com mais presos, mas nada a temer: 'ele não está preso, é apenas uma averiguação'.

Alguém, sabe-se lá quem, apontou seu envolvimento, sabe-se lá como.

Perdas materiais e danos psicológicos a ele e sua família. As consequências para si, a esposa e o bebê repercutirão por quanto tempo e em que intensidade? Em se provando não sua culpa, mas um equívoco, como desfazer o excesso e restituir a paz a esta célula familiar?

Faltaram as provas, mas não um tratamento para bandidos. Faltaram as provas, mas não as evidências típicas de um país regrado por uma justiça cega: negro e pobre. Seus direitos humanos, violados como chefe de família, agora estão assegurados.

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Atualizando: transferido para um presídio a cerca de 100 km de sua casa, sua mãe e sua esposa conseguirão enfim visitá-lo em breve, pela primeira vez. Já cumpre sentença há um mês, apesar de ainda aguardar julgamento. Ninguém ainda propôs uma vaquinha para afiançá-lo, mas a família já  levanta fundos para a conta do advogado.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Siga com Deus

Minha mãe tinha um jeito especial, só dela, de se despedir de nós, acenando suaves e bem visíveis tchaus, a mão direita espalmada, o braço direito em sustenido vai-e-vem. Podia estar no beiral de uma janela, à soleira da porta ou, como na maioria das vezes, no meio da rua, de pé. Enquanto íamos embora, podíamos olhar para trás e lá estava ela, continuamente acenando, até que saíssemos de cena. Até que isso acontecesse, retornávamos os acenos por várias vezes.

Só quando eu já tinha mais de trinta anos, me perguntei o porque dela fazer assim. E preocupado com sua segurança, pedi que ela tratasse de entrar logo, assim eu me sentiria melhor. Mas pelo retrovisor, vi que lá permanecia a conhecida figura grisalha, despedindo-se até que eu sumisse de sua vista.

Certo dia, muito adoecida, muito enfraquecida, ela partiu com minha irmã e meu cunhado, para se tratar em São Paulo. Sentada  no banco de trás, mal conseguindo se manter sentada, nos acenava pelo vidro aberto, agitando as flores de jasmim que recebera das mãos do meu pai, um pouco antes. O carro partindo, mas quem acenava desta vez, eram o seu marido, seus filhos, cunhados e sobrinhos.

Ainda a vi mais duas vezes, na UTI, mas ela não pôde me reconhecer. Na verdade, estou certo de que chegou sim a me reconhecer, por um breve instante retornando-me um sorriso suave.

Meu pai, meus irmãos, cunhados, meus sobrinhos, eu, passamos uma longa semana em casa.
Terminados aqueles dias, retirei o carro da garagem enquanto conversava com meu cunhado, o Euro. Parti, deixando para trás, lá no meio da rua, uma figura de cabelos grisalhos e braço estendido: meu cunhado continuava o gesto de minha mãe.

Finalmente, entendi que este gesto era acompanhado com orações: quem partia estava sendo abençoado, sendo solicitado à atenção do Senhor para que o acompanhasse em sua viagem, em suas escolhas, em seus passos.

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São José dos Campos, 21/07/2005.

Betinho.

            Achei muito interessante que sua reflexão acerca da mamãe focasse tanto as suas mãos. Quando a visitei na UTI, na última noite, tomei sua mão esquerda e me detive a pensar em como aquelas mãos de tanto trabalho pudessem estar assim frágeis e sem atitude.
            No dia seguinte, no velório, fitava suas mãos envoltas no terço, tentando imaginar por quais mistérios teriam elas agora experimentado o repouso.
            E hoje lhe escrevo para participar mais uma coisa. Me dei conta de que um trecho da música “A Barca”, de que a mamãe tanto gostava e cantarolava em sua atividades, resumem a sua própria filosofia e bem sabemos o quanto:
“ Tu, minhas mãos solicitas
Meu cansaço, que a outros descanse”...

Um forte abraço,
                                                                                              Luciano





terça-feira, 10 de junho de 2014

Abertura da Copa no Brasil

Estamos perto do pontapé inicial da Copa, que deverá ser dado por um tetraplégico, movimentando-se com um exoesqueleto eletrônico, uma máquina excepcional projetada pelo cientista brasileiro Miguel Nicolelis.

No mais, imagino que contaremos um pouco de nossa história ou de nossas grandezas. Narrativas da conhecida sequência descobrimento - escravidão - ditadura? Das riquezas naturais, cidades-patrimônio da humanidade (Unesco), Carnaval e futebol?

Melhor seria mostrar as grandezas nas quais somos imbatíveis: malas forradas de dinheiro em espécie revelariam ao mundo nossa pujança econômica, dinheiro na cueca exaltaria nossa criatividade.

Que tal Balbina, a gigantesca hidrelétrica incapaz de iluminar um único estádio de futebol? Ou nossa capacidade ímpar de gestão do sistema elétrico, com dois apagões no curto espaço de 15 anos? Faríamos sucesso com a UHE Barra Grande, a hidrelétrica que em pleno século XXI inundou uma floresta de araucárias!

Que tal nossas obras que dispensam terremotos e ciclones para vir abaixo? Os edifícios Palace II e Liberdade, ambos no Rio de Janeiro, a Ponte dos Remédios e a Linha Amarela do Metrô em São Paulo, a ponte da Régis Bittencourt em Campina Grande do Sul-PR,...

Nossas telecomunicações, com telefonia fixa cobrada duplamente em pulsos e assinatura, enquanto as ligações de celular são derrubadas de propósito, forçando o usuário a fazer mais ligações. Comunicaremos essa ao mundo todo, só no Brasil é assim!

Nosso progresso sobre rodas: cargas levadas a distâncias intercontinentais sobre caminhões tocados a 'rebite', em pistas pedagiadas e esburacadas. O trânsito-tartaruga de nossas grandes cidades. Nossos carros, os mais caros do mundo. A gasolina de um país auto-suficiente em petróleo, enxertada  de porcarias. Nosso álcool combustível, de futuro sempre incerto, disputando nossa 'terra roxa' com a produção de alimentos.

Nosso progresso sobre trilhos: o abandono da rede ferroviária nacional, a construção da interminável Norte-Sul e da enferrujada Transnordestina (assim disse o New York Times),... Falando em trans, que tal a Transposição das águas do São Francisco, essa ninguém tem, nem nós!

Nosso progresso sobre águas: a rede fluvial praticamente nula e os lentos portos marítimos, incapazes de escoar as grandes safras, regadas com as maiores cargas de agrotóxicos de todo o planeta!

As águas, nossa maior riqueza, sob a gestão competente da Nestlé, marca mundial que está destruindo o Parque das Águas de São Lourenço, com riscos de compremeter as prodigiosas águas minerais do Sul de Minas, entre elas a Gasosa de Cambuquira, a melhor de todas as águas!

Nosso Aquífero Guarani, ameaçado pelo Fracking, que começa a se instalar no Paraná, o mesmo Estado que estuda instalar condomínios e indústrias nos mananciais de abastecimento público.

Fecharíamos o tema das águas com o sistema Cantareira, para espanto dos países do Oriente-Médio, com sua pouca água abastecendo milhões de habitantes.

Nossa natureza: que tal levarmos árvores aos estádios? Cedro, jequitibá, jatobá, araucária, castanheira, palmito-jussara? Uma ararinha-azul? Difícil vai ser encontrar um espécime...

Da Amazônia levaríamos a arte de Frans Krajcberg, com seus restos da floresta queimada. Do Cerrado, a soja! Da Mata-Atlântica, a cana-de-açúcar.

A justiça do confortável salário-reclusão às famílias de presos, sustentados pelas famílias das vítimas. Vaquinhas afiançando condenados na mais alta instância do nosso judiciário.

Hordas de crianças, analfabetas funcionais, na quarta-série do ensino fundamental. Os salários dos nossos professores: como relevamos a base profissional de nosso sistema econômico! E que tal encenarmos uma de nossas salas de aula alheias à autoridade do professor?

Poderíamos reprisar o concurso da Garota do Tchan, aquele que fez muitas de nossas mulheres ralarem na boquinha da garrafa, lembra? O que o mundo civilizado diria disso? Então uma hora, uma hora somente, de programação de domingo na TV aberta!

Não seria um show e tanto, as estrelas do Big Brother numa daquelas festas bombadas, com diálogos de alto nível? Não, não, esse programa já perdeu audiência mundo afora, só no país do futebol ainda não desligam a TV.

Nossa política... a gestão de todo um Estado, toda uma Nação, focada exclusivamente no curto mandato de quatro anos do governante da vez! Conseguiríamos listar quantos programas de governo consistentes?

São muitas as opções, bem mais do que se pode escrever. O Brasil continua a ser um país e tanto, mas temos muito a fazer, se quisermos que estas citações deixem de representar o anfitrião desta Copa.

O Luto no Sul de Minas de antigamente

Até metade do Século XX, o luto no Sul de Minas envolvia práticas rígidas para os parentes do falecido, que eram religiosamente seguidas: o ...