quinta-feira, 12 de junho de 2014

Siga com Deus

Minha mãe tinha um jeito especial, só dela, de se despedir de nós, acenando suaves e bem visíveis tchaus, a mão direita espalmada, o braço direito em sustenido vai-e-vem. Podia estar no beiral de uma janela, à soleira da porta ou, como na maioria das vezes, no meio da rua, de pé. Enquanto íamos embora, podíamos olhar para trás e lá estava ela, continuamente acenando, até que saíssemos de cena. Até que isso acontecesse, retornávamos os acenos por várias vezes.

Só quando eu já tinha mais de trinta anos, me perguntei o porque dela fazer assim. E preocupado com sua segurança, pedi que ela tratasse de entrar logo, assim eu me sentiria melhor. Mas pelo retrovisor, vi que lá permanecia a conhecida figura grisalha, despedindo-se até que eu sumisse de sua vista.

Certo dia, muito adoecida, muito enfraquecida, ela partiu com minha irmã e meu cunhado, para se tratar em São Paulo. Sentada  no banco de trás, mal conseguindo se manter sentada, nos acenava pelo vidro aberto, agitando as flores de jasmim que recebera das mãos do meu pai, um pouco antes. O carro partindo, mas quem acenava desta vez, eram o seu marido, seus filhos, cunhados e sobrinhos.

Ainda a vi mais duas vezes, na UTI, mas ela não pôde me reconhecer. Na verdade, estou certo de que chegou sim a me reconhecer, por um breve instante retornando-me um sorriso suave.

Meu pai, meus irmãos, cunhados, meus sobrinhos, eu, passamos uma longa semana em casa.
Terminados aqueles dias, retirei o carro da garagem enquanto conversava com meu cunhado, o Euro. Parti, deixando para trás, lá no meio da rua, uma figura de cabelos grisalhos e braço estendido: meu cunhado continuava o gesto de minha mãe.

Finalmente, entendi que este gesto era acompanhado com orações: quem partia estava sendo abençoado, sendo solicitado à atenção do Senhor para que o acompanhasse em sua viagem, em suas escolhas, em seus passos.

- -

São José dos Campos, 21/07/2005.

Betinho.

            Achei muito interessante que sua reflexão acerca da mamãe focasse tanto as suas mãos. Quando a visitei na UTI, na última noite, tomei sua mão esquerda e me detive a pensar em como aquelas mãos de tanto trabalho pudessem estar assim frágeis e sem atitude.
            No dia seguinte, no velório, fitava suas mãos envoltas no terço, tentando imaginar por quais mistérios teriam elas agora experimentado o repouso.
            E hoje lhe escrevo para participar mais uma coisa. Me dei conta de que um trecho da música “A Barca”, de que a mamãe tanto gostava e cantarolava em sua atividades, resumem a sua própria filosofia e bem sabemos o quanto:
“ Tu, minhas mãos solicitas
Meu cansaço, que a outros descanse”...

Um forte abraço,
                                                                                              Luciano





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