sexta-feira, 14 de março de 2014

Vovó Tita 2

A disputa eleitoral foi acirrada, com vitória de Avelino Bastos para a prefeitura de Cruzeiro. O resultado animou a turma dos vencedores, que planejou a desforra ao cair da noite. Esperavam 'visitar' cada adversário. Aproximando-se do casarão da Vovó Tita, hoje conhecido como Solar dos Novaes, se depararam com o portão fechado e a proprietária posicionada numa das janelas da sala, no andar superior, com seu rifle. Gritou ela, então: "Eu e Iracema estamos praticamente sós." - breve pausa - "Vocês são muitos" - mais uma curta pausa. - "e certamente vão conseguir entrar!".  Concluiu: "Todos sabem que eu tenho ótima pontaria! Por isso, os primeiros que se atreverem a transpor o portão, serão homens mortos!". Não querendo arriscar, os invasores mudaram de planos.

Já falei tanto dela, mas ainda não descrevi a Vovó Tita. Na verdade, só posso descrevê-la por fotografias, dado o longo tempo que já se passou. Temos então, uma senhora de meia altura, trajando uma blusa elegante de cor clara e com alguns babados, presa à cintura sob uma saia larga e com dobras e de cor escura, dessas que chegam aos tornozelos. Um calçado confortável de cor preta. Penteado caprichoso, emoldurando um rosto autoritário mas bondoso, vincado pela ação do tempo, com alguma papada sob o queixo.

Se aqueles foram tempos de faroeste no interior de São Paulo, foram também o tempo da honra e da determinação. Voltemos agora no tempo, para os finais do século 19, quando Dona Tita ainda era uma menininha, para que possamos conhecer seu avô, o Major Novaes.

Ele era o proprietário da próspera Fazenda Bela Vista, era um Barão do Café. Suas boas relações com a família imperial garantiram uma estação ferroviária nas linhas que atravessavam suas terras, bem no entroncamento da ferrovia Central do Brasil (Rio-São Paulo) com a Rio-Minas. Neste local nasceria a cidade de Cruzeiro-SP.

De fato, essa estrutura viária trouxe prosperidade às fazendas e municipalidades da região, com grande afluxo de riquezas e pessoas, deslocando o pólo econômico da Freguesia do Embaú, ali próximo, para a nova Freguesia de Cruzeiro, em plenas terras da Fazenda Boa vista.

Se toda essa estrutura ferroviária trouxe facilidades para o escoamento da produção de café, estabeleceu um povoamento em constante crescimento. Chegava o momento de criar espaços adequados para o desenvolvimento urbanístico da cidade nascente e a Fazenda Boa vista teria de ceder este espaço.

O Major Novaes, adiantando-se ao problema, resolveu doar suas terras, com a condição de que as ruas levassem nomes da monarquia: Av. Dom Pedro II, Av. Teresa Cristina, Av. Princesa Isabel, Av. Conde d'Eu, daí por diante.

A administração municipal, de republicanos ferrenhos, desconsiderando a doação, desapropriou por decreto a área necessária à implantação do sistema viário, depositando em banco uma gorda indenização um pouco superior a 30 Contos de Réis. Ofendido nos brios, o Major Novaes nunca lançou mão desse dinheiro e ainda ordenou que seus herdeiros procedessem da mesma forma. O depósito intocado veio a prescrever após a década de 30, para grande alívio da Vovó Tita.

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Na casa grande da Fazenda Boa Vista, dormia serenamente a pequena Celestina. Aproximou-se dela o seu avô, o Major Novaes. Desfez-se de seu anel e, encaixando-o no dedão do pezinho da bebê, disse "Este é para ti, Pequetita". A Pequetita, nossa bem conhecida Vovó Tita, sempre teve o anel à mão. Um grande pedra o enfeitava (não se sabe se esta foi acrescentada mais tarde). Em seu testamento, expressou o desejo de que o anel ficasse com um amigo que residia na cidade de São Paulo.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Vovó Tita

Meu pai se mudou para Cruzeiro na década de 50. Mineiro muito versátil, inteligente e de muita empatia, logo fez muitos amigos. Uma amizade especial foi travada com Dona Tita, a filha herdeira do Barão do Café naquelas paragens. Desta amizade resultou um gostoso convívio do qual pude, com meus irmãos, compartilhar em nossa infância.

Eu era muito pequeno, mas era fácil reconhecer que estávamos nos aproximando da casa da Vovó Tita: ela residia na Casa Grande que por alguns séculos dominou a área plana da atual cidade de Cruzeiro. Eu era um pequeno menino sentado no fundo banco do carro, só conseguindo enxergar o que havia de mais alto, lá fora. Assim, via a longa fachada assobradada de cor branca com batentes e janelas azuis, adornada junto ao telhado, com desenhos de cordas também azuis. Um lampião azul na esquina do prédio me confirmava onde estávamos e logo já estacionávamos na garagem. 

Havia uma escada de acesso pela garagem. Me lembro da Vovó Tita nos recebendo lá no alto da escada. Sempre por ali, a Iracema, sua criada, mulher alta, sempre de cabelos presos sobre a cabeça. Eram pessoas boas para as crianças.

Lá em cima, a sala grande era decorada com quadros e pratos na parede, cristaleiras, louças, lustres. Em uma despensa ao lado da sala, um largo pote à nossa disposição com biscoitos que adorávamos comer. Eram deliciosos! Hoje raramente encontro algum que iguale o sabor.

Em um canto de parede, a rede. Era o que me interessava, pois na verdade eu não achava muito o que fazer além de matar a curiosidade que me despertavam os artigos espalhados pela sala. Basicamente, eu achava a visita muito chata e que só eu não me divertia ali. Coisa de criança, lamento muito não aproveitado melhor aqueles momentos que hoje sinto terem sido tão gostosos.

A anfitriã se reunia em meus pais na sala de visitas que era uma ambiente dentro da sala grande, com cadeiras sobre um tapete de couro de boi. Nós crianças, ficávamos brincando pela sala enquanto os adultos conversavam. Um detalhe especial era o som dos passos sobre o chão de tábuas corridas.

Me lembro de ficar deitado na rede branca, no canto da grande sala. Esta sala possuía ainda uma capela anexa, guardando imagens sacras e uma decoração de beleza peculiar, ricamente enfeitada.

As últimas visitas aconteceram em 1977. Como minha casa precisou de uma reforma emergencial (o piso de cerâmica da cozinha estourou em uma noite de muito calor), Vovó abriu mais uma vez as portas de sua casa para lá residirmos por um mês. Mas já não era mais o casarão. Este havia sido desapropriado devido ao seu interesse histórico e cultural. Vovó Tita agora morava em uma casa  do outro lado da rua, construído com o dinheiro da desapropriação.

Vovó Tita agora gostava de ficar namorando a vista do casarão centenário: 'que saudades da minha casa!'. Faleceu em setembro de 1977, com quase 84 anos.


terça-feira, 11 de março de 2014

Um poço Corredor

Às 16h da tarde de um domingo frio com chuva leve e persistente, tudo o que se deseja é estar em sua própria cama. Mas fica difícil com seu irmão mais novo, insistindo em nadar na Serra: "Vamos lá, a gente vai todo fim-de-semana!" e também "A gente tem que ir!". Assim, levantei e troquei de roupa, a sunga por baixo. Pegamos as máscaras de mergulho, os snorkels e as nadadeiras, entramos no carro e rumamos para a Serra da Mantiqueira.

O local fica no Rio do Braço, a 20 km da nossa cidade de Cruzeiro, passando pela Vila de Pinheiros, em meio às montanhas que formam a base da Serra. Com o carro estacionado na beira do asfalto, caminhando a pé por 1 km de pasto, chega-se ao Corredor, o poço comprido, e com ao menos 3 metros de profundidade. Fica entre duas paredes rochosas de uns 4 metros de altura. Após este poço, uns 100 metros rio abaixo, existe o Poção, na base de uma extensa rocha inclinada, com uma cachoeira na chegada e um abrigo sob a rocha, ao lado desta.

Por uns dois anos, batemos cartão lá em todo sábado e domingo, com nossos amigos Mário, Coqueiro e Cléber (Kleber K). Johnnie Utah e Rodolfo também estiveram lá conosco. 

Em meu Gol quadradinho azul, subíamos a Serra ao som de Guns 'n' Roses: Yesterdays, November Rain, Stranged, Welcome to the Jungle, Comma marcaram época. Ao som destas notas, corríamos na pista que se erguia na cumeada das montanhas na base da Serra.

Com o carro estacionado na beira do asfalto, adentrávamos uma pequena área de plantio com uma bica de água abundante e fresca. Após beber da água e pular a cerca acima desta, tinha início a caminhada de 1 km em plano inclinado, tendo à direita a imponente escarpa da Serra da Mantiqueira, no domínio da Pedra da Mina; e à direita, láááá em baixo, distante, a cidade de Cruzeiro.

O local é pouco frequentado. Sem trilha demarcada, pisa-se terreno virgem, abrindo o seu próprio caminho em meio ao pasto. Atravessando mais uma cerca, segue-se até a Grande Árvore, próxima à Pedra Quebrada. Venta muito e já dá para ouvir a corredeira do rio. Então vem a descida do morro, que sempre descemos aos pulos, garantindo emoção e suspense a cada salto. Nunca nos machucamos fazendo isso. Caminhadas descontraídas, em plena liberdade.

Antes de chegar no rio, um último desafio: 10 metros de um barranco íngreme em terra nua, auxiliado por uma árvore posicionada na sua meia altura. Suas raízes também ajudam muito.

Chegamos! Estamos sobre a 'parede' direita do Corredor (à direita do fluxo do rio). Vê a água lá em baixo? É sempre verde e cristalina assim! A parede esquerda, do outro lado, parece bem próxima, mas pode saltar sem medo, nunca batemos nela (apesar de o Fernando quase dar com o pé ali). 

É isso: um corredor de uns 20 metros, com uns 4 metros de largura, água pura! As águas entram com a fúria de uma corredeira, formando um turbilhão de bolhas. Passam agitadas pelo Corredor e saem após ter seu fluxo dividido por um pedrão, que nos ajuda a marcar o término das brincadeiras.

Como todo rio de serra que se preze, as águas do Rio do Braço são ge-la-das. Mesmo nos dias mais quentes de verão. Mas nos dias mais quentes, quem vai chegando, já vai pulando! Nos dias mais frios, some a coragem: todos aguardam um corajoso que diga como estão as coisas lá por baixo. A resposta é sempre a mesma: quem ressurge do mergulho olha prá cima e grita 'tá quentinha!!'.

E lá ficávamos a tarde toda, ora no Corredor, ora no Poção lá embaixo. Em meio aos dois poços, as brincadeiras em um escorregador natural, tacar pedras na colméia sob uma parede rochosa... Também aproveitávamos para nos distrair com a vista das águas enfurecidas em um trecho onde toda a vazão do rio é exprimida numa largura de apenas meio metro. Em certa ocasião de estiagem, com menos água, mas com muita turbulência, finalmente pudemos escorregar ali!

Certa ocasião, ao subirmos de volta ao Corredor, corríamos para entrar no poço em meio ao próprio rio, exceto o Mário, que já ia à frente, galgando a parede direita. De lá, gritou: 'Cobra! Cobra!'. Paramos. Ao chegarmos no poço, a cobra verde já se abrigava sob a parede, onde morreu a pedradas (apesar de meus protestos em contrário). O Mário disse ser lindo como a cobra nada em superfície d'água. Uma oportunidade única que só ele aproveitou.

O Corredor proporcionou tantas brincadeiras quanto nossa criatividade foi capaz de proporcionar: competições para ver quem conseguia vencer a corredeira na entrada da água, lutas corporais sobre essa mesma entrada (vencia quem sobrasse em pé), mergulhos em profundidade, acompanhando a declividade do fundo (sempre na apneia), brincadeiras com as bolhas de água provocadas pelas corredeiras da entrada (milhões delas subindo à superfície como moedas prateadas), saltos em diversas posições.

Meu irmão e os amigos gostavam de saltar de ponta, desde o alto da parede. Lançavam o corpo no ar com muita determinação. às vezes solitários, às vezes em duplas ou trios. O Cléber, sempre inventando moda, teve a ideia de atravessar um pau de embaúba sobre o Corredor (apesar dos meus protestos...). De sobre o tronco, os saltos ficavam ainda mais emocionantes, pois este balançava e até conseguia projetar um pouco acima, quem de lá saltava.

Como nunca tive coragem para nenhum destes saltos, me restou inventar o que era possível a um reles mortal. 'Gente, olha só: pular em pé mesmo, mas olhando para cima! Dá mais emoção!'. Ok, todos concordavam que era legal, mas logo retomavam seus saltos de ponta. Então inventei de pular com os braços prendendo as pernas ao corpo, como fazíamos na piscina, quando crianças, o salto 'de bomba'. Mostrei o salto a todos e fiquei aguardando os resultados, lá embaixo. Justamente meu irmão Fernando foi tentar, mas partindo do tronco. Ao saltar, fez como pedi, dobrando as pernas e prendendo-as ao corpo, com os braços travando o conjunto. Mas desequilibrado pelo tronco, virou-se no ar e caiu de costas, uma altura de 4 metros! E lá vem o Fernando, boiando ao sabor da correnteza, olhos fechados, gemendo de dor. Acolhi meu irmão junto à pedra grande na saída do Corredor, aguardando os longos minutos necessários à sua recuperação.







O Luto no Sul de Minas de antigamente

Até metade do Século XX, o luto no Sul de Minas envolvia práticas rígidas para os parentes do falecido, que eram religiosamente seguidas: o ...