quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O melhor do Programa do PT para o Brasil

O melhor do Programa do PT para o Brasil:

a) Porto em Cuba;

b) Financiamento da ampliação do Metrô de Caracas, na Venezuela;

c) Aporte de R$ 1 bilhão à Bolívia, por meio de um adicional escuso na aquisição do gás boliviano.

d) Um programa arrojado de habitação em território brasileiro: o auxílio-moradia para juízes.

O horizonte após a Eleição 2014

E as pesquisas mostram Dilma descolando do Aécio, assumindo a liderança. Resta o consolo de que, neste próximo mandato, ela terá de lidar com as consequências de 12 anos da gestão do PT:

a) economia em declínio, mercado de consumo em retração, produção industrial em desaceleração. A despeito da baixa taxa de desemprego atual, correm notícias de que a indústria automotiva, por exemplo, vem realizando demissões sistemáticas e preparando férias coletivas para antes do final do ano;

b) o setor energético, suportado pelo caro funcionamento das termelétricas, reclamará o valor justo da energia elétrica, o que deverá elevar os custos de produção. Os níveis dos reservatórios das usinas hidrelétricas encontram-se abaixo do verificado no ano 2000, quando tivemos de lutar contra o risco do apagão;

c) a seca que atinge as regiões sudeste e centro-oeste encarecerá a produção agrícola;

d) o preço da gasolina também será reajustado até o fim do ano (palavras do Mantega). Melhor abastecer o tanque até este fim-de-semana;

e) o modelo econômico pelo qual a inflação foi mantida a baixos índices por conta de elevações na taxa Selic, já dá mostras de haver se desgastado: a taxa Selic segue alta e a inflação não cede;

f) A produção industrial está sufocada: o PIB deste ano promete ser um exíguo 0,27% e se espera que 2015 chegue a apenas 1%.

Independente de ser Dilma ou Aécio, o cenário econômico no próximo governo será desalentador. Uma eventual reeleição de Dilma presidente imporá ao PT o desafio de se revelar aquele Partido do qual, anos atrás se acreditou ser capaz de resolver as mazelas nacionais, com muita inteligência, sobriedade e estilo. Seja o que for, o PT não vai largar o osso. Vai ser curioso assistir, nas Eleições de 2018, o candidato Lula prometendo salvar o Brasil, alegando que seus 8 anos de governo foram melhores que os de Dilma.

sábado, 4 de outubro de 2014

Lula, o PT e o Brasil

A última revista Veja, "Todos atrás dela", traz uma citação de Lula bastante explicativa desta pessoa: um discurso de comício em Santo André, no qual Lula afirma que roubo a banco é um mal menor, já que banqueiros têm muito, assim como muito sugam a população com suas taxas e juros.

Meu entendimento é de que o Lula não acredita na força do trabalho. Um líder dos trabalhadores que nunca trabalhou, apresenta as mãos isentas de enxada, graxa e calos, não poderia mesmo valorizar o trabalho.

Como também nunca estudou, Lula prega equívocos como a aceitação do roubo a banco, quando o correto seria o estudo, o trabalho e a busca por meios de uma vida honesta e digna.

Em tempos idos, quando Lula se dispôs a trabalhar em uma metalúrgica, encerrou o expediente de eu primeiro dia observando que seu uniforme impecável contrastava com os uniformes surrados de seus colegas. Resolveu o problema lançando-se furtivamente sobre um amontoado de fuligem, ganhando aparência similar à dos colegas, pelo que deixou a empresa de peito estufado e cabeça erguida. Lula traz a marca do "parecer ser", em detrimento, do "ser" de fato.

A campanha que emplacou Lula Presidente foi tocada por marqueteiros, gente especializada em "parecer ser". Suas peças publicitárias reuniam expoentes da política, da cultura e das artes, em um ambiente de reuniões que pretendiam ser a construção do Brasil do futuro, sob a liderança do Lula. Vencidas as eleições, o PT que lutou por vinte anos para se estabelecer, não possuía um Plano de Governo. Então lançou o PAC, pedindo que a população enviasse projetos. Um governo claramente sem projetos.

"Ser" custa muito: estudar, trabalhar, raciocinar. E lá vem o Brasil na toada do Lula e seu PT, propagando ao mundo as virtudes do país do milagre econômico, do oásis de pujança em meio à crise mundial. O Brasil que "parece ser" refulge nas capas das revistas nacionais e internacionais, a estrela do PT brilhando alto.

Um produto marcante do Governo Lula foi Eike Batista, que alçou voo na lista dos bilionários mundiais, impulsionado pelas empresas X. Rápido subiu, mais rápido ainda caiu, com seu império de papéis e especulação financeira que drenaram os caros recursos com que o BNDES pretendia concretizar o sonho brasileiro. Eike, empresário símbolo da Era Lula, criou um império alheio ao labor e ao saber, alicerçado no vazio. E o Brasil andou para trás.

A crise mundial passou... e o Brasil não implantou um parque industrial de nanotecnologia em sistemas integrados, apenas indústrias que dependem tremendamente de insumos externos. As mesmas montandoras e indústrias que existem mundo afora, mantendo o Brasil preso à venda de insumos básicos e sua recompra após beneficiamento, repetindo no Século XXI à antiga fórmula de submissão do imperialismo anglo-americano de que o PT criticou. A Era Lula em nada serviu para reverter esta sina.

O bom momento do Brasil no cenário mundial está passando e herdamos os mostrengos inconclusos do PT: Transposição do Rio São Francisco, Rodovia Transnordestina, estádios modernos para um futebol arcaico, obras e mais obras de PAC encalhadas e até viaduto desabado antes mesmo de entrar em operação.

Saúde, educação, segurança? Meros motes eleitoreiros, apelos cada vez urgentes ao eleitorado, produzindo lances cada vez mais dramáticos, com gente morrendo à míngua em porta de hospital, bandidos comandando o crime de dentro de presídios, professores mau remunerados à frente de alunos mal educados e sem apelo à oportunidade do estudo. O mundo inteiro ficou assim ou é o Brasil que ficou pior?

O Brasil do PT já não consegue mais "parecer ser", a ponto de a Presidente Dilma ter de intervir nos estudos do IBGE para segurar a notícia de que hoje, o Brasil está cada vez mais distante de "ser" uma nação.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Eleições difíceis

Sempre soube que as eleições são um momento difícil na vida dos políticos, mas de muito proveito para a política como um todo, um espaço aberto à discussão e ao exercício da cidadania.

Em tempos passados, com que empenho as corrente ideológicas se batiam nas primeiras eleições para presidente. Com que vontade assistíamos, participávamos de tudo.

Nos dias de hoje, não faço a menor ideia em quem votar. Tudo o que sei é que após as eleições, os empréstimos do Governo Federal à energia elétrica vão ser repassados ao cidadão (aqui no Paraná, já tentaram um aumento de 35% mas o Governo do Estado autorizou apenas 25%).

A única coisa que posso mudar: dinheiro brasileiro financiando metrô na Venezuela e porto em Cuba. Quem sabe eu possa até conseguir de volta a refinaria que a Colômbia tomou do Brasil?

Nos tempos atuais, as eleições não abrem o espaço que precisamos para discutir o Brasil que queremos. Minha resposta pessoal é: NÃO! Não aceito a continuidade o que está aí.

Parafraseando os petistas de 1989: eu quero mudança!

Curtas

3- A propaganda eleitoral da Dilma em 2010 era "Para o Brasil continuar crescendo". Hoje a BBC Brasil estampa a matéria "Por que o Brasil parou de crescer?", afirmando que "Agora é oficial: o Brasil parou de crescer".

2- Notícia no Valor Econômico neste mesmo dia 16: "Governo corta incentivos à JAC Motors". Apesar da notícia aparentemente ruim para a  JAC, empresa automotiva chinesa, esta ainda pode retomar a construção de fábrica em Camaçari-BA. Neste caso, receberá o aporte de R$ 2 bilhões do Banco do Estado e do BNDES para concluir a obra. Começo a entender porque Eike Batista dizia que "o BNDES é o melhor banco do mundo".

1- Duas notícias neste 16 de setembro de 2014, no Estadão:
- Supremo Tribunal Federal autoriza auxílio-moradia para juízes federais
- Sem teto e PM entram em confronto durante reintegração no centro


domingo, 31 de agosto de 2014

A fita da KIQQ

Uma música que me toca na alma: You make loving fun, de Fleetwood Mac. Engraçado que só agora, 32 anos depois de ouví-la pela primeira vez, tomei conhecimento do nome de banda, graças ao site letras.mus.br, muito bom.

Mas deixa eu explicar de vez essa coisa toda. Seguinte, rolava o ano de 1982, quando minha irmã Tetê, emprestou uma fita-cassete com músicas gravadas nas férias de uma amiga em Los Angeles. De cor preta, com um resto de papel branco grudado em um dos lados, com músicas tocadas em uma estação de rádio no mínimo especial: KIQQ, 104 FM, com seu famoso bordão 'Quêi-áái, quíu! quíu!'. Se era tudo isso, não sei: para mim, era.

E lá estavam verdadeiras obras de arte, com Olívia Newton John, Paul McCartney, Earth Wind and Fire, Barry White, Rolling Stones, apresentadas por um DJ muito sofisticado lançando ao ar um inglês atraente 'All the rocks, from K-I-Q-Q, Los Angeles', uma novidade e tanto para mim.

Por muito tempo, ouvi sem parar. Pena que nunca fiz cópia da fita. A sequência se dividia nos lados A e B (lembra disso?) da fita-cassete, na seguinte forma:

Lado A
1- Rio de Janeiro - Barry White
       'I love the fun in the sun with the people'

2- All out of love - Air Supply
       'It would make me believe what tomorrow could bring'

3- Don't ask me why - Billy Joel
        'you're not stranger to the streets'

4- Listen to what the man said - Paul McCartney
        'so won't you listen to what the man said?'

- KIQQ, the hits of the week!

5- You've lost that loving feeling - The Righteous Brothers

       'There's a place in my heart for you'

6- Magic - Olivia Newton John
       'You have to believe we are magic'

- KIQQ and Olivia Newton John in a magic dance, 1-0-4!

7- Da Ya think I'm sexy? Rod Stewart
       'Outside is cold, misty and it's raining'

8- Give me the night - George Benson
       'Don't you know we can fly?'

- [...] Give me the night

9- Play the game - Queen (apenas o que coube no fim da fita)       

Lado B
10- Emotional Rescue - Rolling Stones
        'I was dreaming last night'

- KIQQ, Los Angeles (vinheta animada em coro feminino)

11- Never knew love like this before - Stephanie mills
        'What a surprise'

12- You make loving fun - Fleetwood Mac
        'you may be happy with the things you do'

13- Upside Down - Diana Ross
       'There's a place in my heart for you'

- K-I-Q-Q [...]

14- Midnight Rocks - Al Stewart
       'in your imagination, there is no hesitation'

- K-I-Q-Q [...]

15- Reasons - Earth, Wind and Fire
       'Please let me love you with all my might'

- propaganda

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Na dita dura

Não vi o início da Ditadura, mas vi o fim dela, com bastante curiosidade sobre tudo, como bem retratou Herbert Viana: quero entender tudo o que eu posso e que eu não posso.

A curiosidade era aguçada pela escassa informação disponível. Na escola, aprendíamos o que estava registrado nos livros: dentre os três tipos de países: Desenvolvidos, Em desenvolvimento, Subdesenvolvidos, o Brasil era país Em desenvolvimento. Um livro do primário afirmava que quem fala mau do governo é mentiroso. Fui criado com a sólida noção de que o Governo pensa em tudo e é capaz de prover tudo da melhor forma para o bem de todos. Líquido e certo.

Atenção senhores pais... pronunciado por uma voz grossa e séria, enquanto na tela da TV se via um papel branco carimbado e assinado, com linhas e letras negras ilegíveis. Era a indicação da faixa etária à qual o programa era proibido, ou melhor, inacessível, já que de pronto, os menores deixavam a sala, sem choro nem vela. ...este programa é proibido para menores de 12 anos. Chato assim. A implacável censura, já  bem relaxada pelo fim do 'mandato', mas nada parecida com hoje, em que nada se proíbe, apenas se desaconselha. Uma evidência daqueles tempos é o vinil da banda Blitz, com duas faixas riscadas a estilete. Não, não os tenho, mas me lembro bem, nem adiantava tentar tocar que arrebentava a agulha do toca-discos (saiba mais em http://migre.me/lkxQr).

Nasci em 1969, 5 anos após instalado regime, um período conturbado. Cheguei à quarta série do primário em 1979, sem que ouvisse nada além da crise internacional do petróleo e da inflação, hiperinflação, dívida externa. Transamazônica, Ferrovia do Aço, Angra dos Reis, Itaipú eram outros nomes comuns. Figueiredo, Delfim Netto, Jarbas Passarinho eram arroz de festa, mas nem de longe divertidos como Geisel, que se podia 'escrever' na maquininha, a calculadora com dígitos em fósforo verde.

A música de Geraldo Vandré, proibidíssima, era cantada nas missas da Igreja de Santa Cecília, em minha cidade natal, sem alteração alguma na letra. Mas o contexto aqui não era a atitude de protesto político, mas a atitude cristã.

A programação da TV Globo deixava vazar raras gotas de realidade. Em certo quadro do Planeta dos Homens, humorístico, um pai exemplificava ao filho a inflação monetária, adicionando água (dinheiro sem lastro) a um copo de leite (dinheiro real, fundeado no tesouro nacional). Essa água era adicionada pelo pai em três ou quatro medidas, até que o menino retrucava: "Pai, isso não é inflação, é o leite que nós bebemos".

Um primo jornalista da Globo me explicou que as novelas eram compradas pelo Governo, o que explicava o fato de - sempre - alguém pobre ascender socialmente pelo matrimônio, dando ao povo a esperança de que se podia conseguir uma condição melhor na vida. Alguns anos mais tarde, um professor de cursinho explicou exatamente o mesmo.

Porque tanto a Globo? Simples, era canal com melhor qualidade de som e de imagem, além de um conteúdo superior às poucas opções disponíveis. TV Record, TVS (antecessora do SBT), TV Bandeirantes, TV Manchete (nascida no início da década de 80). Detalhe, a TV Globo do Rio, com o ambiente carioca dominando o noticiário nacional e ditando a moda.

Minha infância corria tranquila, entre família, pipas, criação de canarinho, estudos. Minhas pipas voavam ao som de Chico Buarque (Meu caro amigo), Rita Lee (Mania de você), Gilberto Gil (Realce), Gal Costa (Só louco), Elis Regina (Trem azul), Toquinho e Vinícius (Tarde em Itapuã), Milton Nascimento (Bailes da vida), Roberto Carlos (Detalhes), Beatles (Help!), ABBA (Fernando), Bee Gees (Tragedy) e discoteca em geral (Born to be alive, Don't let me be misunderstood). Os infantis Saltimbancos e Plunct! Plact! Zum!. As coletâneas de country americano nas marcas de roupa jeans Lee (Lee Original Country Music) e Staroup (You made it right). Da TV, as trilhas sonoras de novelas pela Som Livre (Estúpido Cupido) e Sítio do Pica-pau Amarelo (que gostosa a canção-tema do Pedrinho). Bons tempos.

Embora não me sentisse à vontade na ignorância das coisas, eu não tinha muita noção do que se passava.  Meus pais faziam malabarismos para driblar a inflação, comprando e estocando o que podiam, tão logo meu pai recebesse o salário. Em uma aula no 1º ano do colegial, um professor de química quebrou as regras e explicou que sua classe profissional era proibida de falar em política dentro de sala de aula, acrescentando que o Brasil era na verdade um país subdesenvolvido.

De alguma forma, fiquei marcado pela atitude rebelde dos jovens da época, mas apenas para descobrir, já na faculdade, pouco após finda a Ditadura, que a rebeldia fora substituída por apatia. Essa não existia mais. Meus colegas na universidade não tinham o menor interesse em se mobilizar para fim algum. No máximo, reclamavam de algum professor, pelas costas, se muito. Certa vez, contrariados com o reitor, promovemos a única reunião coletiva nos 5 anos em que estive lá, sem conseguir nada além: "E vamos lá pro centro da cidade prá quê? Ficar na praça de braços cruzados olhando prá todo mundo?".

Um outro aspecto ainda mais incômodo: éramos facilmente manipuláveis. Aquela mesma reunião terminou conduzida por um colega contrário aos interesses pretendidos pelo movimento. Anulava a manifestação enquanto ele próprio ascendia na atenção da direção da faculdade. Foi a primeira vez que vi algo assim, mas não a última.

domingo, 13 de julho de 2014

Valor brasileiro

Fim de Copa para o Brasil, melhor, para a Seleção Brasileira. Vá lá, não fomos bem, mas jogos são assim. E isso é o que foi: um jogo. Mais fácil pensar assim, quando somos os perdedores.

E que perda! Perdemos em nossa própria casa, a casa do País do Futebol! Tínhamos bons estádios e a torcida, também estávamos acostumados ao clima. Sinceramente, só hoje me dei conta do poder - e do estrago - que me causaram esses anos e anos ouvindo louvações à Seleção, como se esta fosse o nosso próprio solo, fosse coisa muito nossa. Não me interesso por futebol, mas fiquei tão abalado que precisei de boas horas para retomar o ritmo, o astral.

E que lições, quantas lições! Muitos anos se passarão ao som das análises sobre essa Copa, nossa gente, nossa política. Gastamos o que não podíamos para ter estádios, alguns onde já os tínhamos. Da infraestrutura de apoio, as obras realmente necessárias, temos alguma coisa.

Suamos para atender aos padrões do distante Senhor Feudal do Futebol, uma Fifa que age sem padrão algum. Jogos conduzidos por juízes sem critério, administrando cartões a uns, em lances similares aos de outros que não foram punidos. Algumas seleções brilharam em campo, mas deixaram a disputa por meros erros de arbitragem. O jovem Neymar quase vai à cadeira de rodas, sem que a Fifa possa, por seus próprios regulamentos, punir o maldoso ataque. A justiça da Fifa é ainda mais injusta que a nossa.

Falcatruagem nos ingressos, alguns destinados a escolas públicas. Maracutaias na alta administração, quem diria, lá da Suíça, cheirando a banco. Desmantelada pela nossa polícia carioca e o nosso Ministério Público. Anfitriões de Copas anteriores nem se deram conta do que se passou em seu país.

A Fifa terá de se re-inventar. O mundo viu e aplaudiu nossa indignação contra essa entidade que, não satisfeita com o mando dos estádios, tenta tomar conta do país que a recebe. Um tablóide alemão nos agradeceu, os primeiros a contestá-la. Fifa, go home.

Me emocionei frente a um jogo, um único jogo, que pôs por terra aquele nossa vã-glória da abaladora camisa amarela, a ginga que só brasileiro tem, nossa malícia, o jeitinho que é daqui só. Nossa fome de bola, nossa malandragem, nossas corridas e vôos, dribles, a genialidade ímpar nos gramados... Não existem, simplesmente não existem. O que vimos foi a nulidade de um time pago a preço de ouro, perante uma seleção com gente realmente capaz, poderosa mesmo, entre as quatro linhas, e fora dela.

Um atleta europeu entra em campo após horas e mais horas nas salas de aula onde ensinam de fato. É gente disposta a fazer o melhor em tudo o que faz. A nação alemã vem se refazendo após ir à lona em dois conflitos gigantescos e ser divida em duas por quatro décadas. E mais uma vez já se estabelece entre as nações líderes.

No mesmo período do pós-guerra, o Brasil se estabeleceu na liderança do futebol, assegurando cinco das cobiçadas estrelinhas para o nosso brasão. Hoje, exatamente hoje, após as inumeráveis partida dos campeonatos nacionais e estaduais se mostrarem improdutivas, após a flagorosa derrota, somos chamados a refletir se foi escolhido o melhor caminho. Em análise franca, vivemos no Brasil do pão e circo romano re-adaptado: com cadeira cativa nos bares, nos embriagamos ante campeonatos de futebol tão letárgicos que até o 'jogo da volta' inventaram. Comemoramos noite adentro jogos chatos como aquele contra o Chile, só porque foi vitória. Nossa miséria seria tanta que perdemos o senso crítico até em relação ao único esporte nacional?

Nossa seleção, por sua vez, é o reflexo de nosso país. Somos destituídos de educação, nossa melhor cultura é construída no que se faz com as mãos, os pés, o rebolado. Intelectualmente, estamos minguando. Prova disso é a programação dominical das TVs nacionais, quando a audiência é certa. A TV aberta é um vazio, mas quão poucos canais pagos trazem informação de qualidade. Nos pacotes mais baratos, nem constam.

Nos últimos jogos da Seleção Brasileira tivemos o embate de uma seleção pouco instruída e treinada, organizada por um técnico arrogante. Nossos rapazes, não é de hoje, são escalados e organizados para jogar à sombra dos poucos craques em campo. Não temos plano B e, mesmo que tivéssemos, deixamos de escalar os jogadores de que precisaríamos. Um salário milionário com uma incrível solução fraca, às vésperas do grande massacre: treinar os jogadores que não entrariam em campo, para enganar o técnico alemão (certamente com melhor nível de instrução). A quem enganou?

Galvão Bueno, ah... alvo de um 'Calaboca Galvão!' mundial na Copa passada, vem expor à vergonha nossos jovens talentos:  'passarão os próximos anos a se explicar!'. Jogadores promissores, mas no contexto de uma nação que vem sendo lentamente desconstruída. Espezinha, citando Pelé e Gérson. O Pelé, que pegou a camareira e não assume a filha legítima? O Gérson, da Lei da Vantagem? Não, esses não são bons exemplos para nós. Apenas figuraram quando o Brasil, mais que a seleção, podia mais, fazia melhor, brilhava ao mundo e com lastro, tinha 'café no bule'.

Precisamos de novos ídolos.

Proponho o Davi Luiz, de cabelos enormes como seu coração e suas capacidades. Profissional desapegado de si, capaz de consolar e beijar ao derrotado oponente colombiano, enquanto os colegas comemoravam. Celebrado nas vitórias, fatalmente, emprestou o rosto à nossa emblemática derrota, em publicações no mundo todo.

Proponho como ídolo o Júlio César, a quem pudemos ver a tensão, por sua responsabilidade nata, nos pênaltis com o Chile. Assistimos à sua dor nos gols da Alemanha. Nem fiquei a ver, nos gols da Holanda.

Proponho que tenhamos como ídolos, os herói ao alcance das mãos. Meus ídolos de verdade estão em minha família e também no meu ambiente de trabalho. Meus ídolos estão nas escolas, a ensinar e a aprender. Também ídolos já falecidos que vivem em mim pelos valores que plantaram e dou continuidade e replico.

O legado dessa Copa é que precisamos de novos ídolos, interlocutores, valores, uma nova educação. O legado é: a certeza de que o nosso Brasil, até mesmo no futebol, sem que a população receba uma educação consistente e um melhor conteúdo da mídia, não irá mais a lugar algum.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Lanceiros Negros

Os Lanceiros Negros, infantaria de escravos atuando na Revolução Farroupilha, após anos de gloriosos feitos pela causa, foram enfim convencidos a depor as armas e pernoitar onde estavam, até segunda ordem. O desfecho foi trágico.

No Brasil contemporâneo, ele ainda dormia com sua esposa e bebê, quando acordaram assustados com o estrondo no portão. Ao espiar pela janela da cozinha, a esposa se deparou com o cano de uma arma de fogo apontada em sua direção, aos brados de 'abram!'.

O carro e a casa, do berço aos mantimentos na cozinha, revirados em busca de armas, drogas, provas. Nada encontraram. Felizmente, ao menos, também nada forjaram.

Algemado e interrogado em frente à família e mais tarde na delegacia, sempre chamado por um nome desconhecido. Guardado em um cubículo com mais presos, mas nada a temer: 'ele não está preso, é apenas uma averiguação'.

Alguém, sabe-se lá quem, apontou seu envolvimento, sabe-se lá como.

Perdas materiais e danos psicológicos a ele e sua família. As consequências para si, a esposa e o bebê repercutirão por quanto tempo e em que intensidade? Em se provando não sua culpa, mas um equívoco, como desfazer o excesso e restituir a paz a esta célula familiar?

Faltaram as provas, mas não um tratamento para bandidos. Faltaram as provas, mas não as evidências típicas de um país regrado por uma justiça cega: negro e pobre. Seus direitos humanos, violados como chefe de família, agora estão assegurados.

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Atualizando: transferido para um presídio a cerca de 100 km de sua casa, sua mãe e sua esposa conseguirão enfim visitá-lo em breve, pela primeira vez. Já cumpre sentença há um mês, apesar de ainda aguardar julgamento. Ninguém ainda propôs uma vaquinha para afiançá-lo, mas a família já  levanta fundos para a conta do advogado.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Siga com Deus

Minha mãe tinha um jeito especial, só dela, de se despedir de nós, acenando suaves e bem visíveis tchaus, a mão direita espalmada, o braço direito em sustenido vai-e-vem. Podia estar no beiral de uma janela, à soleira da porta ou, como na maioria das vezes, no meio da rua, de pé. Enquanto íamos embora, podíamos olhar para trás e lá estava ela, continuamente acenando, até que saíssemos de cena. Até que isso acontecesse, retornávamos os acenos por várias vezes.

Só quando eu já tinha mais de trinta anos, me perguntei o porque dela fazer assim. E preocupado com sua segurança, pedi que ela tratasse de entrar logo, assim eu me sentiria melhor. Mas pelo retrovisor, vi que lá permanecia a conhecida figura grisalha, despedindo-se até que eu sumisse de sua vista.

Certo dia, muito adoecida, muito enfraquecida, ela partiu com minha irmã e meu cunhado, para se tratar em São Paulo. Sentada  no banco de trás, mal conseguindo se manter sentada, nos acenava pelo vidro aberto, agitando as flores de jasmim que recebera das mãos do meu pai, um pouco antes. O carro partindo, mas quem acenava desta vez, eram o seu marido, seus filhos, cunhados e sobrinhos.

Ainda a vi mais duas vezes, na UTI, mas ela não pôde me reconhecer. Na verdade, estou certo de que chegou sim a me reconhecer, por um breve instante retornando-me um sorriso suave.

Meu pai, meus irmãos, cunhados, meus sobrinhos, eu, passamos uma longa semana em casa.
Terminados aqueles dias, retirei o carro da garagem enquanto conversava com meu cunhado, o Euro. Parti, deixando para trás, lá no meio da rua, uma figura de cabelos grisalhos e braço estendido: meu cunhado continuava o gesto de minha mãe.

Finalmente, entendi que este gesto era acompanhado com orações: quem partia estava sendo abençoado, sendo solicitado à atenção do Senhor para que o acompanhasse em sua viagem, em suas escolhas, em seus passos.

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São José dos Campos, 21/07/2005.

Betinho.

            Achei muito interessante que sua reflexão acerca da mamãe focasse tanto as suas mãos. Quando a visitei na UTI, na última noite, tomei sua mão esquerda e me detive a pensar em como aquelas mãos de tanto trabalho pudessem estar assim frágeis e sem atitude.
            No dia seguinte, no velório, fitava suas mãos envoltas no terço, tentando imaginar por quais mistérios teriam elas agora experimentado o repouso.
            E hoje lhe escrevo para participar mais uma coisa. Me dei conta de que um trecho da música “A Barca”, de que a mamãe tanto gostava e cantarolava em sua atividades, resumem a sua própria filosofia e bem sabemos o quanto:
“ Tu, minhas mãos solicitas
Meu cansaço, que a outros descanse”...

Um forte abraço,
                                                                                              Luciano





terça-feira, 10 de junho de 2014

Abertura da Copa no Brasil

Estamos perto do pontapé inicial da Copa, que deverá ser dado por um tetraplégico, movimentando-se com um exoesqueleto eletrônico, uma máquina excepcional projetada pelo cientista brasileiro Miguel Nicolelis.

No mais, imagino que contaremos um pouco de nossa história ou de nossas grandezas. Narrativas da conhecida sequência descobrimento - escravidão - ditadura? Das riquezas naturais, cidades-patrimônio da humanidade (Unesco), Carnaval e futebol?

Melhor seria mostrar as grandezas nas quais somos imbatíveis: malas forradas de dinheiro em espécie revelariam ao mundo nossa pujança econômica, dinheiro na cueca exaltaria nossa criatividade.

Que tal Balbina, a gigantesca hidrelétrica incapaz de iluminar um único estádio de futebol? Ou nossa capacidade ímpar de gestão do sistema elétrico, com dois apagões no curto espaço de 15 anos? Faríamos sucesso com a UHE Barra Grande, a hidrelétrica que em pleno século XXI inundou uma floresta de araucárias!

Que tal nossas obras que dispensam terremotos e ciclones para vir abaixo? Os edifícios Palace II e Liberdade, ambos no Rio de Janeiro, a Ponte dos Remédios e a Linha Amarela do Metrô em São Paulo, a ponte da Régis Bittencourt em Campina Grande do Sul-PR,...

Nossas telecomunicações, com telefonia fixa cobrada duplamente em pulsos e assinatura, enquanto as ligações de celular são derrubadas de propósito, forçando o usuário a fazer mais ligações. Comunicaremos essa ao mundo todo, só no Brasil é assim!

Nosso progresso sobre rodas: cargas levadas a distâncias intercontinentais sobre caminhões tocados a 'rebite', em pistas pedagiadas e esburacadas. O trânsito-tartaruga de nossas grandes cidades. Nossos carros, os mais caros do mundo. A gasolina de um país auto-suficiente em petróleo, enxertada  de porcarias. Nosso álcool combustível, de futuro sempre incerto, disputando nossa 'terra roxa' com a produção de alimentos.

Nosso progresso sobre trilhos: o abandono da rede ferroviária nacional, a construção da interminável Norte-Sul e da enferrujada Transnordestina (assim disse o New York Times),... Falando em trans, que tal a Transposição das águas do São Francisco, essa ninguém tem, nem nós!

Nosso progresso sobre águas: a rede fluvial praticamente nula e os lentos portos marítimos, incapazes de escoar as grandes safras, regadas com as maiores cargas de agrotóxicos de todo o planeta!

As águas, nossa maior riqueza, sob a gestão competente da Nestlé, marca mundial que está destruindo o Parque das Águas de São Lourenço, com riscos de compremeter as prodigiosas águas minerais do Sul de Minas, entre elas a Gasosa de Cambuquira, a melhor de todas as águas!

Nosso Aquífero Guarani, ameaçado pelo Fracking, que começa a se instalar no Paraná, o mesmo Estado que estuda instalar condomínios e indústrias nos mananciais de abastecimento público.

Fecharíamos o tema das águas com o sistema Cantareira, para espanto dos países do Oriente-Médio, com sua pouca água abastecendo milhões de habitantes.

Nossa natureza: que tal levarmos árvores aos estádios? Cedro, jequitibá, jatobá, araucária, castanheira, palmito-jussara? Uma ararinha-azul? Difícil vai ser encontrar um espécime...

Da Amazônia levaríamos a arte de Frans Krajcberg, com seus restos da floresta queimada. Do Cerrado, a soja! Da Mata-Atlântica, a cana-de-açúcar.

A justiça do confortável salário-reclusão às famílias de presos, sustentados pelas famílias das vítimas. Vaquinhas afiançando condenados na mais alta instância do nosso judiciário.

Hordas de crianças, analfabetas funcionais, na quarta-série do ensino fundamental. Os salários dos nossos professores: como relevamos a base profissional de nosso sistema econômico! E que tal encenarmos uma de nossas salas de aula alheias à autoridade do professor?

Poderíamos reprisar o concurso da Garota do Tchan, aquele que fez muitas de nossas mulheres ralarem na boquinha da garrafa, lembra? O que o mundo civilizado diria disso? Então uma hora, uma hora somente, de programação de domingo na TV aberta!

Não seria um show e tanto, as estrelas do Big Brother numa daquelas festas bombadas, com diálogos de alto nível? Não, não, esse programa já perdeu audiência mundo afora, só no país do futebol ainda não desligam a TV.

Nossa política... a gestão de todo um Estado, toda uma Nação, focada exclusivamente no curto mandato de quatro anos do governante da vez! Conseguiríamos listar quantos programas de governo consistentes?

São muitas as opções, bem mais do que se pode escrever. O Brasil continua a ser um país e tanto, mas temos muito a fazer, se quisermos que estas citações deixem de representar o anfitrião desta Copa.

sábado, 10 de maio de 2014

Kleber K (II)

Seguíamos em direção ao nosso primeiro acampamento, rio acima. Eu estava feliz por pisar um lugar ermo, opção de poucos, achando que fazia especial por ser certo que ninguém mais frequentaria aquele lugar. Em um poço largo à frente, em meio às águas agitadas por uma cachoeira, uma figura conhecida parou de nada e me fitava, sorridente. "Cléber?", perguntei. Ele acenou com a cabeça que sim. Conversamos um pouco e soube que ele era amigo dos proprietários daquelas terras e sempre nadava ali. Nos desejou um bom acampamento e foi embora.

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Nos conhecíamos da infância nas piscinas do Senzala (clube de campo) e no estudo primário no Oratório, mas não convivíamos. Certo recreio o vi 'caminhando' com as mãos, enquanto 'plantava bananeira'. Até aquele momento, sabia pouco mais que o seu nome, que era irmão da Fabíola e do Beto, que era um pouco mais velho que eu.

Adolescentes, pixei um muro próximo à casa dele, declarando amor à moça que um dia seria a sua namorada.

Por essa época, o Cléber era o tecladista do Orelha de Sapo, uma banda que já até tinha música de própria autoria, gravada em estúdio:
"É rock meu, quem bebeu não sabe ao certo se deu, 
Valeu, valeu! Dá em cima de quem te ofendeu!"
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Na faculdade, eu com 21 anos, estabelecemos amizade e formamos um grupo de passeios e explorações, com mais o Rodolfo, o Marinho, o Coqueiro e o Fernando. Uma de nossas primeiras aventuras foi no Parque do Itatiaia, visitando todas as cachoeiras que podíamos, desafiando suas águas agitadas e geladas com nossas máscaras de mergulho e nadadeiras, brincando feito crianças! Nesse primeiro 'ataque', foi marcante o salto do Cléber e o Rodolfo no paredão da Cachoeira Pitú. Eles galgaram quinze metros de um paredão de rocha vertical e se jogaram no poço. O salto foi tão alto, que pude acompanhar as múltiplas expressões faciais, enquanto caíam.

Outra vez em Itatiaia, no enorme poço do Maromba, o Cléber inventou de passar um rolo de corda grossa no ombro direito e se pôs na beira de uma rocha alta, uns vinte metros de altura à beira do poço, e fixou a corda em uma árvore com tronco se esgueirando sobre o precipício, desfazendo o rolo. Assistíamos a tudo lá de baixo, nós e os turistas que por lá estavam, surpresos e em suspense. O Cléber então, passou uma volta da corda pela coxa, fazendo uma espécie de travamento, passando a descer pela corda, com que facilidade! A uns três ou quatro metros da linha da água, no fim da corda, ele se jogou, mergulhando na água.

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Eu já recém-formado, trabalhando em São Paulo, o Cléber me convidou a um videokê na Liberdade, uma novidade naquele ano de 1994. Era um local curioso, com o metade do salão ocupado por um cercadinho que reunia mulheres bonitas, bem vestidas e maquiadas. Na nossa metade, homens em suas mesas recebiam essas moças em companhia. Não tivemos essa companhia, mas nada a se estranhar, pois logo que chegamos, abrimos nossas carteiras para nos certificar de possuir dinheiro para pagar a conta. Foi o que bastou para que ficássemos sozinhos.

O 'cardápio' tinha músicas em japonês e inglês, sendo que os cantores de plantão preferiam as músicas mais calmas e inspiradoras, levando paz ao espírito. Fiquei impressionado com um brasileiro emplacando músicas japonesas. O Cléber cantou 'Smoke gets in your eyes' com excelente desempenho, mandando bem até nos tons mais altos.

Cantei uma bem conhecida dos Beatles,  mas inseguro, ouvi daquele brasileiro nipo-cantor: "Você canta melhor. Você está com o espírito preso". Me abriu o caminho para refletir sobre isso e buscar mudanças.

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Conforme narrei em 'Kleber K', passamos um Carnaval em Ubatuba, em uma casa sem água encanada nem energia elétrica, morro adentro na Mata Atlântica. Certo fim de tarde, sob chuva, eu não conseguia levar o Golzinho 'quadradrinho' ano 87 naquela subida tomada de lama. O Cléber entendia de carros e afirmou ser necessário invertermos a tração, ou seja, subir de ré. Assumindo o volante, venceu os 50 metros, na confiança. Mas daí um novo problema: umas pedras no caminho haviam trincado o caninho do combustível sob o piso carro. O Cléber se deitou sob o carro, e com a ajuda de uma lanterna, se pôs a analisar a questão. Haja paciência, nem quis ver! Naquele fim-de-mundo, conseguiu do vizinho um caninho com o diâmetro exato e mais arame e estilete para a obra, estancando a sangria.

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Nossa turma acampou aos pés da Serra da Mantiqueira, entre o maciço da Serra e o Mar de Morros do Vale do Paraíba. Mas sob chuva fria pulverizando gotículas, passamos a tarde dentro das duas barracas. Dormíamos e acordávamos, sentindo a fome apertar, apenas trocávamos piadas de uma barraca a outra. Como de costume, éramos eu, meu irmão Fernando, o Marinho e o Coqueiro, mas naquele feriado contávamos com o reforço de 2 amigos de São Paulo, apelidados de Tang e Ki-Suco.

Perto das 22h, a chuva deu uma trégua e pudemos esticar as pernas. A lenha estava molhada e não havia fogo para preparar comida alguma. Foi quando vimos a luz de uma lanterna bruxuleando, aproximando-se desde a casa do dono daquelas terras. Mas quem conseguiu autorização para lá estarmos foi o Cléber, que não pôde participar. Preocupados, nos pusemos a elaborar desculpas. Para nossa extrema alegria, ouvimos o silvo da polícia, o típico assobio de saudação do nosso amigo Kleber K! E lá veio ele, boné na cabeça, mochila  nas costas, lanterna à mão, bem disposto, brincando um monte com a nossa desesperada situação. Falava, matraqueava, enquanto reclamava, rachava lenha, destacava uma turma para estender uma lona entre as barracas, mandava outros lavar a louça, lá na distante bica: "Vocês nem lavaram a louça!", "Vocês deixaram a lenha molhar!", "Que falta de atitude!", "Como é que vocês iam fazer?" "A lenha molha por fora mas fica seca por dentro". Mas tudo isso com muito bom humor, contando muitas histórias e piadas. Conseguimos fogo, carne assada, macarrão, jantar!

Pouco antes de dormir, a paisagem do Vale era ampla e límpida, as luzes de Cruzeiro tremeluzindo ao longe. Sobre a cidade, uma nuvem mais baixa, com uma curiosa forma de frango assado.

Acordei às 4h30m, a paisagem ainda linda, mas já sem o frango. Nos minutos seguintes rezei, entretido com as luzes de Cruzeiro. Um som diferente se fez ouvir, vindo no alto das montanhas que nos cercavam. De repente, uma forte rajada de vento derrubou uma das hastes da cobertura de lona. Rapidamente a repus, quando outra haste foi arrancada. O Cléber saiu da outra barraca e deu conta desta haste. Outra haste foi ao chão, o Cléber gritou "abaixa tudo!". As rajadas se sucediam em levas, dava para ouví-las se aproximando,  alternando-se dentre a encosta norte e a encosta leste. Recebíamos uma pancada após a outra, chegando a rasgar o tecido da cobertura de uma barraca e a jogar nosso amigo Coqueiro para o lado. Não teve jeito: desfizemos o acampamento.

Qualquer um que passe por isso irá concordar que é maravilhoso um café-da-manhã em casa, com os pais!  O Tang dizia "Viemos de São Paulo até aqui prá sofrer". O Marinho achava que não devíamos ter desistido, mas o Ki-suco retrucou: "Prá quê? Íamos estar lá presos na barraca trocando piada até agora!"

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A despedida de solteiro do Kléber foi em acampamento, como sempre, lá ao pé da Serra. Os convidados chegaram lá em 3 carros e 2 motos, mas desta vez, conduzindo os veículos até o local do camping, vencendo 770 metros de um denso mato de sapê, as motos à frente e gente a pé, escolhendo o melhor caminho. Cheguei mais tarde, mas pude me guiar por marcas no mato, acusando as duas trilhas dos pneus. Adentrei o mato sozinho, o mato por vezes acima do capô, adrenalina! Um pedrão me pegou a lateral direita do Golzinho branco, amassando o metal sob a porta, quase impedindo-a de abrir.

O clima estava ótimo, tanto da temperatura, como dos amigos. Churrasco, trote no noivo - que teve raspados os pelos de uma perna - e muitas piadas. Tarde da noite, eu tomado de felicidade: deitado com as costas sobre uma rocha, vasculhando um céu coalhado de estrelas, absolutamente fraco, não me aguentando de tanto rir.




quinta-feira, 8 de maio de 2014

Esmola negada

Fazia frio naquele início de madrugada, quando terminei a compra de um remédio e deixava a farmácia ansioso por chegar logo em casa. Já no carro, um menino se postou ao vidro e me pediu dinheiro. Irritado, vi que dispunha de duas moedas em minha carteira, R$ 1,00 e R$ 0,05. Foi o que dei a ele, a de menor valor, apenas.
Dei a partida no carro por apenas alguns metros, parando antes da faixa de pedestres, aguardando o sinal vermelho. Acalentado pelo som do rádio, me pus a observar o menino, em sua nova abordagem, uma Pick-up que acabava de parar na faixa ao lado.
Afinal quem era ele? Esse eu posso descrever com facilidade: uns 13 anos, magro, cerca de 1,30m de altura, pele suja, cabelos cacheados crescidos para cima da cabeça, olhos grandes, mal vestido que só. Devia passar frio. Seu corpo em uma só posição: ereto, os olhos fixos a quem interpelava, a mão esquerda erguida em sinal de aguardando que algo lhe fosse dado, a mão direita posta sobre o estômago. A boca pronunciava os mesmos dizeres que foram ditos a mim: "eu tenho fome". O motorista partiu sem atendê-lo, enquanto a o menino o acompanhava, girando lentamente o corpo, os olhos fixados veículo, a boca entreaberta, incrédulo. Ainda me julgando no meu direito de não ser incomodado, parti também.
Seguindo para casa, aquela cena me remoía, o menino podia estar vivendo sua primeira noite fora de casa, podia estar se sentindo no limite do suportável, aquela atitude de não crer na recusa da esmola, enquanto se percebia à mercê da fome e do frio, ninguém o ajudaria, a noite seria longa, as perspectivas em sua vida, nulas. Estava tomado de vergonha, lembrando no quanto não lhe ajudei, arrependido de não ter ao menos lhe dado a moeda maior.
Voltei lá no início da noite seguinte e me pus em pé na esquina, a procurá-lo em meio à agitação dos transeuntes naquele horário das 20h. Quem vi foi um outro menino maltrapilho, atravessando a rua decidido, em minha direção. Parou em frente a mim e com um largo sorriso, uma expressão de satisfação em seu rosto, me estendeu a mão em uma atitude de quem aguarda receber o que lhe é devido. Pedi que caminhasse comigo até uma padaria, onde lhe paguei um sanduíche e uma vitamina. Voltei para casa um pouco melhor resolvido com minha consciência.

Na noite anterior neguei esmola a alguém de fato necessitado. Na noite seguinte, um outro pequeno necessitado, significando uma oportuna nova chance. O que neguei na noite anterior, não me fora negado no dia seguinte.

O acontecido foi tão místico, que busquei resolvê-lo na minha ciência cristã, de que o esmoleiro é o próprio Cristo. Era Ele na noite anterior, foi Ele novamente na noite seguinte. Acho que seria errado dizer que foi como se eu quitasse uma dívida, mas eu nada disse e o menino se postou diante de mim calado, em atitude certa de que não sairia de mãos vazias. E o rosto tomado por aquela expressão de satisfação...

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A flor por testemunha

Estive com ela em duas ocasiões apenas, mas esses breves encontros renderam dezenas de cartas e telefonemas. Eram os anos de 1993 e 94 e minha auto-estima andava muito baixa. Na primeira ocasião, a Denise tentou me tirar para dançar, mas recusei, alegando não saber dançar - e não sei mesmo. Mas na segunda, como estava de passagem em sua cidade, aceitei o convite para dormir em sua casa.

Conversamos um monte no início da noite e saímos para os festejos na cidade, tendo a oportunidade de beijá-la enquanto rolava um desfile de lingerie. Nas horas seguintes caminhamos pela praça, onde colhi a flor branca de uma árvore e a entreguei, colhendo um sorriso em resposta e vendo que ela não soltava mais a flor.
Na manhã seguinte, acompanhei seu pai no trato das galinhas no fundo do quintal, nos cuidados com as árvores e mudas do pomar. Lá na frente, uma buzina me chamando. Peguei minha mala e entrei na cozinha para a despedida. Ela estava em pé, de frente para mim, o quadril apoiado no balcão, as mãos agarradas às beiradas. Seus olhos estavam fechados e seu rosto transmitia um sentimento forte, que arrisco dizer tratar-se de dor. Beijei-a, me despedi e parti. Ela nada disse.
Havia sido um fim-de-semana e tanto, que me ajudou muito no resgate da minha auto-estima, mas era uma época em que eu não estava com coragem para me relacionar com alguém.

As cartas foram um episódio à parte. Quando tudo terminou, cheguei a fazer a estatística das postagens, mas como sempre acaba acontecendo, não resistiu a um dia dedicado a organizar meu quarto e me desfazer de coisas. 
A primeira carta iniciava com "Você entrou por aquela porta, me beijou e partiu. Você entrou na minha vida.". Dentro de uma das cartas, uma flor ressecada, ah, aquela flor! Respondi na carta seguinte: "Já sem cor, já sem odor, a flor é testemunha". Logo que recebeu a carta, ela me ligou: "Você viu o que você escreveu?!"
Uma das cartas que recebi estava forrada de beijos, dos dois lados da folha. Por cima dos beijos, a escrita. Desta vez, resolvi brincar, respondendo: "Essa minha carta também vai forrada de beijos, só que eu não uso batom!".
Ela de fato se esforçou muito para ativar um convívio, para que eu retornasse. Chegou a partilhar segredo, pelo que busquei aconselhá-la, mas evitando me envolver. Com dois anos de relacionamento 'virtual', recebi sua última carta, com seu entendimento de que não era mesmo possível continuar e votos de felicidades. Respondi, tentando reavivar o envio de suas cartas, que me davam muito gosto, mas sem resposta.
A troca de mensagens e as conversas por telefone foram um verdadeiro bálsamo, luz em um período obscurecido por muitas dificuldades e incertezas. Desejo que ela tenha alcançado a felicidade que tanto demonstrou almejar, que tenha conseguido uma boa companhia e esteja vivendo bem sua vida.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Salve, Jorge!

Ainda faltava meia hora para inciar o expediente e eu já vencia o primeiro patamar das escadarias da empresa, quando ouvi o Diretor de Operações perguntar ao meu colega: "Você conhece alguém que já tenha trabalhado a bordo de helicóptero?". Travei minha subida e desci a escada a toda, gritando "Eu!!! Eu fiz trabalho de campo para a Dersa, no Trecho Oeste do Rodoanel!". Estanquei de frente aos dois, a tempo de perceber que acabava de frustrar os planos do meu colega em conseguir um bom trabalho. Foi mals... Era o início de um dos trabalhos mais gostosos de minha vida.

Para resumir, o trabalho começava no dia seguinte e demandava o registro fotográfico de 150 pontos distribuídos na região sudoeste do Estado de São Paulo. O meio era o helicóptero, muito plausível para um mundo ainda sem as imagens orbitais de alta resolução, pré-Google Earth.

Pontualmente às 6 horas da manhã, conheci o piloto. No telefone, ele recebia as condolências por um colega piloto falecido no dia anterior, em Tamboré, a serviço. Morrera carbonizado na queda da aeronave, pouco após a decolagem."A gente tá na luta". Moreno e de cabelos negros e lisos, aparência tranquila, óculos escuros em quase todo o tempo. Vestia uma camisa vermelha com a logo da companhia aérea. Era o Comandante Jorge.

Às 7 horas já taxiávamos a bordo de um R-22 e alçávamos vôo rumo a Bauru (apenas para abastecer). Um bom começo, uma bela vista, passamos ao lado do Pico do Jaraguá. Ao sobrevoar um reflorestamento de eucaliptos, pude sentir o aroma típico das folhas.

Eu me mantinha sentado, os braços repousados sobre a prancheta, 100% entretido com a paisagem. Que terra impressionante o Brasil, como trabalham os caminhões e suas cargas, os tratores e as aeronaves pulverizando defensivos agrícolas, as represas gerando energia elétrica,...

O Jorge quebrou o gelo: "Facinho pilotar um avião, tem duas pessoas". Acenei com a cabeça, concordando. E seguiu falando "Aqui não, um só tem que fazer tudo. Sabe quantos anos foram precisos para fazer o helicóptero voar? 20 anos!". Perguntou se era o meu primeiro vôo. Quebrado o gelo, seguimos levando adiante as nossas palavras ao vento.

A cabine do R-22 permite um amplo ângulo de visada. A paisagem se renovava a cada tempo, revelando os padrões de uso do solo no Estado: vastas regiões de plantio de cana, sucedida por vastas regiões de pecuária, à medida em que rumávamos na direção de Mato Grosso do Sul. No campo, o gado Nelore debandava em desespero e as garças voavam, fugindo daquele ruidoso pássaro que éramos. Um boi isolado fugia, mandando chifradas violentas em nossa direção, temendo ser a hora d bife.

O Jorge surpreendeu de saída: além da total atenção ao trajeto e ao que se passava ao redor - quem pilota helicóptero age assim - dedicava total atenção a mim, fazendo questão de me explicar tudo sobre o mundo dos helicópteros: os princípios, os mecanismos, os acidentes. Achei interessantíssimo saber que existe uma rotação mínima com a qual o giro pás consegue vencer o peso do helicóptero. Realmente requer atenção.

E o helicóptero soviético que aparece no filme do rambo, com turbinas acopladas? Pura invenção que não sai das telas nunca, porque as pás do helicóptero tem na velocidade do som, o seu limite! Uma a uma, minhas dúvidas foram sendo esclarecidas.

No chão, à frente de um galpão, um caboclo se posicionou de frente para nós e se pôs a acenar com os dois braços, lentamente, feliz, seu rosto iluminado de plena satisfação. Helicópteros devem mesmo ser raros de ver por ali.

E pouco após o início dos trabalhos, quando já conseguia as primeiras tomadas fotográficas,... fui acometido de um súbito enjôo. "Acho melhor a gente descer", eu disse. O Jorge perguntou: "Não quer aguardar a próxima foto?". "Tô bals", foi o que pude responder, antes de 'lavar' a cabine. O Jorge surpreendeu mais uma vez, com absoluto profissionalismo "Tudo bem, tá tudo bem, isso é muito normal! Já estamos sobre o aeroporto, já estamos descendo".

Era o aeroclube de Guararapes. Saí do helicóptero, caminhei uns passos, olhei para trás, o Jorge agitado a limpar o interior do helicóptero. Voltando a olhar para frente, me dirigi para o hangar, onde os funcionários que ali trabalhavam, pararam o que fazia e ficaram me olhando. Um senhor calvo e de óculos, com jeitão de coordenador da turma, se aproximou e - mostrando preocupação - me perguntou, com algum jeito: "Foi só por cima?". Acenei que sim e ele me apontou o vestiário: "Então é ali".

No exíguo espaço interno do R-22, há pouca ventilação e abundante insolação! Em duas ocasiões, pousamos em busca de água, que foi servida bem gelada, pelos moradores do campo, Deus os abençoe! Ao pousar nas margens do Rio Paranapanema, UHE Capivara, em Iepê, vimos o proprietário postar-se à cerca, olhando para nós. Preocupado, o Jorge pediu que fosse rápido pedir autorização. Saltei correndo, o corpo inclinado para a frente e a cabeça abaixada - regra básica para evitar as hélices em alta rotação. O som forte das hélices foi ficando para trás, substituído por latidos, vários latidos! Estanquei! Cães de vários tamanhos se aproximavam! O proprietário se aproximou sorrindo e sinalizou que eram mansos. Com um forte aperto de mão, pedi desculpas. Ele respondeu, vibrando: "Que desculpa que nada! É uma enorme honra!!!! Sebastião Salgado, Assentamento Estrela, Lote 22!!!". Logo recebíamos água gelada, café quente e bolo, em sua varanda. Depois entrei no rio, até os joelhos e lá fiquei. O Jorge apenas me fitava, aguardando a retomada dos trabalhos.  Quando saí e segui ao helicóptero, dei falta dele. Virei-me para trás e o vi no rio, refrescando as pernas.

72 locais fotografados após, pernoitamos em Lucélia. Abastecido o helicóptero, o Jorge se dirigiu a um menino sentado ali próximo: "Quantos anos você tem?". O menino, de 12 anos, ouviu algo especial: "Garoto, você pode me ajudar? Tenho que estacionar melhor o helicóptero e preciso de um contrapeso!". O menino entrou no helicóptero e afivelou o cinto de segurança O Comandante elevou a nave alguns poucos metros, deslocando-a para a direita e logo pousou. Desligou a máquina e despediu-se do menino, agradecendo-o. Caminhando adiante comigo, Jorge explicou: "Eu não precisava de contrapeso nenhum, mas esse menino nunca mais vai esquecer isso na vida dele!!!"














segunda-feira, 7 de abril de 2014

João Bosco

Manhã de Carnaval na cidade paulista de Cruzeiro. Duas mães se telefonam, uma delas preocupada com o filho que não retornara da noitada. João Bosco se lançara na folia com a metade do rosto pintado de verde, a outra metade de amarelo. Tão logo acordara e vira a cama vazia, sua mãe ligou para Márcia, a mãe do Duda, seu inseparável amigo. O mistério foi solucionado tão logo abriram a porta da casa: o João Bosco dormia sobre o capacho, abraçado ao Pipoca, um cachorro com pelagem chamuscada de tinta verde-amarela.

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O João era mesmo um folião muito animado: por alguns anos promoveu uma brincadeira que celebrava com surpreendente alegria o desfecho da vida, uma espécie de festejo fúnebre. Vestidos a caráter, os foliões saíam em desfile, carregando um caixão pelas ruas do centro da cidade de Cruzeiro. E quem ia a bordo do esquife? O próprio, com os cabelos curtos escorrido sobre um rosto embranquecido e algodões no nariz. Os foliões animados carregavam  o caixão cantando desde a  marcha fúnebre em rítmico lá-lá-lá, até rimas como "Au! Au! Au! O morto é um animal!, respondida por uma mão que surgia  pela janelinha do caixão, sinalizando um agitado "não!", que significava 'não é animal não!'. A mesma resposta era dada para a rima "Eu! Eu! Eu! O morto se ...!".

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Certa madrugada de Carnaval, passei em frente à sede do Cruzeiro Futebol Clube, tradicional palco da folia cruzeirense. Próximo à porta de entrada estava estacionado o carro da família Flintstone.

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Uma outra vez ainda, uma enorme Arca de Noé singrou as ruas da cidade. Parando nas esquinas, abria-se a grande porta lateral e de lá saíam os festivos figurantes: os Bichinhos da Parmalat.

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Tantos carnavais, mas passamos a nos relacionar mesmo foi no ônibus diário para Guaratinguetá, nas sonolentas manhãs e madrugadas em que eu compartilhávamos as aventuras vividas em rios e trilhas da majestosa Serra da Mantiqueira, além de interessantes conversas sobre nossos passados e planos para o futuro.

domingo, 6 de abril de 2014

Na Grande Ilha

Finalmente, férias! Em dois anos e meio trabalhando naquela empresa, finalmente consegui 5 dias de férias! Como assim?? Simples: eu não possuía carteira assinada. Era o ano de 2002.

E finalmente poderia viajar para algum lugar. Bonito-MS foi de cara a primeira opção, logo descartada por falta de grana. Um destino perto e bem cotado era Ilha Grande, uma das 365 ilhas de Angra dos Reis.

No caminho para lá. na localidade de Rio Claro, passamos por uma extensa revista policial, em busca de drogas. Nós, nosso carro e nossas bagagens. Os policiais procederam com total profissionalismo e nos liberaram após constatar que estávamos limpos, mas quase perdemos a última balsa partindo de Angra dos Reis para a ilha.

Descemos da balsa na Vila do Abraão, o porto principal de Ilha Grande, eu e meu irmão Fernando. Eram os primeiros dias de Janeiro. Empolgado, eu disse ao Fer: "Nossos problemas ficaram no continente!"

Caminhando umas poucas quadras, chegamos a um camping de fundo de quintal, uma área ampla abrigando 8 barracas. Ocupamos a posição mais ao fundo, à direita. E logo surgiu nosso primeiro problema: a barraca emprestada veio sem as varetas da armação. A dona do camping felizmente possuía um grupo de reserva. Serviu, mas como eram menores que os originais, nossa barraca ficou mais parecendo um sorvete derretido.

Naquele camping, logo faríamos boas amizades:
- Gilmar: um negão de Nova Iguaçú. Gente boa, extremamente bem humorado, nunca parava de falar. "Fala sério!". Estava com sua esposa, mas não me recordo seu nome;
- Leonardo e Sílvia, paulistanos. De especial, o Leonardo trazia a história engraçadíssima de um desastroso feriado na Ilha do Mel. Quando nos reencontramos no ano seguinte, fizemos questão de que ele nos contasse de novo a história toda;
- Juliano: esse belo-horizontino estava lá com seu irmão mais novo. Mais uma dupla bem-humorada.
- Ígor: o enorme cachorro do camping, amarelo e peludo, um amigão com o qual podíamos até passear pela Vila do Abraão. O Fer foi quem mais se encantou com ele. Era bem conhecido dos moradores e comerciantes. Podíamos entrar com ele nas lojas e houve até quem nos ensinasse como fazer ele se sentar.

A cada dia, fazíamos nossos passeios para cada lado da ilha, nos reunindo à noite para trocar histórias e dicas das melhores trilhas. Na penúltima noite, jantamos juntos e combinamos de fazer nossa última trilha também juntos (mas sem o Ígor), para a Praia dos dois rios, que outrora abrigou o famoso presídio da ilha.

O jantar comunitário surgiu de forma espontânea. com o Gilmar anunciando que tinha pescado um peixe grande, que então estava à disposição. O Leonardo e a Sílvia entraram com o arroz, o Juliano com a farofa, nós com o vinho. O Fer foi o mestre-cuca. O Gilmar contava histórias, "fala sério!". Deve ter sido ali que o Leonardo narrou sua celébre travessia dos 9 km de praia da Ilha do Mel, rodeado de mutucas. Sua única defesa era um enorme chapéu, com o qual tentava afastavar o inimigo. Disse que mesmo quando entrava na água, ele via as mutucas sobre ele, aguardando sua saída.

No dia seguinte, a saideira nos 14 km que levam à Praia dos dois rios, uma delícia de lugar. Ali você pode intercalar a água salgada do mar com a água doce de um dos dois rios que chegam em um dos cantos da extensa praia. Antes de chegar lá todavia, você tem as ruínas do presídio implodido e a vila dos guardas que atuavam no local. Alguns deles ainda estão lá, aposentados. Um deles, perguntado sobre o dia-a-dia do presídio, me surpreendeu,  retratando uma colônia de férias.

A caminhada não é tão simples, com 7 km de subida, seguida de 7 km  de descida. Na volta principalmente, ficamos bem cansados. Fora da Vila do Abraão, é a única via carroçável em toda a ilha. Em algum ponto dessa trilha, pudemos ouvir um Bugio, ao longe. É o maior primata da ilha e produz um impressionante som, um longo 'roar'.

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Voltamos a Ilha Grande no ano seguinte, mas surpreendidos pela notícia de que vários dos menores campings da ilha foram fechamos, nos instalamos no superlotado camping do Sr. Palma. Muito interessante aliás, o Palma é uma espécie de líder comunitário.

Achamos o espaço de nossa barraca bem próximo à área do refeitório. Desta vez, o Fer gabava-se de ter trazido um colchão inflável. Chegada a hora de dormir, eu estendi sobre o chão o meu isolante térmico, uma colcha, um lençol, um travesseiro. Boa noite.

O Fer começou a soprar seu colchão inflável. Sim, ele se não tinha uma bomba de ar! Os longos minutos se passavam ao som de fúúúúú, fúúúúú, fúúúúú. Até ajudei um pouco meu exausto irmão. Eu já estava confortavelmente cochilando quando ele concluiu e finalmente se deitou. Ao lado, um pessoal recém-chegado terminava de montar a barraca e então pudemos ouvir um 'tump-tump-tump': sim, eles usavam uma bomba de ar. Dei muita risada, até o Fer não resistiu e começou a rir.

A noite seguia tranquila e eu dormia bem, mas fui acordado ao som de fúúúúú, fúúúúú, fúúúúú. O colchão dele estava vazando. Logo que me levantei na manhã seguinte, o Fer rolou para a minha 'cama'. Havia dormido mal e o colchão já estava esvaziado.

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A Gruta do Acaiá é um ponto alto no turismo da Ilha Grande. Fica bem no canto da ilha, chegando-se lá a bordo de veleiros. A entrada está uma propriedade que volta e meia está interditada, acho que alguma questão de posse da terra. Entra-se por um buraco no chão, descendo-se por uma escada e, então, caminha-se de cócoras um trecho, passando por uma superfície de rocha, em uma descida suavemente inclinada, até chegar próximo à saída da gruta. Como é uma saída submersa, fica tomada pela água do mar, mas iluminada de azul, devido à luz do sol, brilhando lá fora da caverna. E com uma porção de peixes. 







sexta-feira, 14 de março de 2014

Vovó Tita 2

A disputa eleitoral foi acirrada, com vitória de Avelino Bastos para a prefeitura de Cruzeiro. O resultado animou a turma dos vencedores, que planejou a desforra ao cair da noite. Esperavam 'visitar' cada adversário. Aproximando-se do casarão da Vovó Tita, hoje conhecido como Solar dos Novaes, se depararam com o portão fechado e a proprietária posicionada numa das janelas da sala, no andar superior, com seu rifle. Gritou ela, então: "Eu e Iracema estamos praticamente sós." - breve pausa - "Vocês são muitos" - mais uma curta pausa. - "e certamente vão conseguir entrar!".  Concluiu: "Todos sabem que eu tenho ótima pontaria! Por isso, os primeiros que se atreverem a transpor o portão, serão homens mortos!". Não querendo arriscar, os invasores mudaram de planos.

Já falei tanto dela, mas ainda não descrevi a Vovó Tita. Na verdade, só posso descrevê-la por fotografias, dado o longo tempo que já se passou. Temos então, uma senhora de meia altura, trajando uma blusa elegante de cor clara e com alguns babados, presa à cintura sob uma saia larga e com dobras e de cor escura, dessas que chegam aos tornozelos. Um calçado confortável de cor preta. Penteado caprichoso, emoldurando um rosto autoritário mas bondoso, vincado pela ação do tempo, com alguma papada sob o queixo.

Se aqueles foram tempos de faroeste no interior de São Paulo, foram também o tempo da honra e da determinação. Voltemos agora no tempo, para os finais do século 19, quando Dona Tita ainda era uma menininha, para que possamos conhecer seu avô, o Major Novaes.

Ele era o proprietário da próspera Fazenda Bela Vista, era um Barão do Café. Suas boas relações com a família imperial garantiram uma estação ferroviária nas linhas que atravessavam suas terras, bem no entroncamento da ferrovia Central do Brasil (Rio-São Paulo) com a Rio-Minas. Neste local nasceria a cidade de Cruzeiro-SP.

De fato, essa estrutura viária trouxe prosperidade às fazendas e municipalidades da região, com grande afluxo de riquezas e pessoas, deslocando o pólo econômico da Freguesia do Embaú, ali próximo, para a nova Freguesia de Cruzeiro, em plenas terras da Fazenda Boa vista.

Se toda essa estrutura ferroviária trouxe facilidades para o escoamento da produção de café, estabeleceu um povoamento em constante crescimento. Chegava o momento de criar espaços adequados para o desenvolvimento urbanístico da cidade nascente e a Fazenda Boa vista teria de ceder este espaço.

O Major Novaes, adiantando-se ao problema, resolveu doar suas terras, com a condição de que as ruas levassem nomes da monarquia: Av. Dom Pedro II, Av. Teresa Cristina, Av. Princesa Isabel, Av. Conde d'Eu, daí por diante.

A administração municipal, de republicanos ferrenhos, desconsiderando a doação, desapropriou por decreto a área necessária à implantação do sistema viário, depositando em banco uma gorda indenização um pouco superior a 30 Contos de Réis. Ofendido nos brios, o Major Novaes nunca lançou mão desse dinheiro e ainda ordenou que seus herdeiros procedessem da mesma forma. O depósito intocado veio a prescrever após a década de 30, para grande alívio da Vovó Tita.

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Na casa grande da Fazenda Boa Vista, dormia serenamente a pequena Celestina. Aproximou-se dela o seu avô, o Major Novaes. Desfez-se de seu anel e, encaixando-o no dedão do pezinho da bebê, disse "Este é para ti, Pequetita". A Pequetita, nossa bem conhecida Vovó Tita, sempre teve o anel à mão. Um grande pedra o enfeitava (não se sabe se esta foi acrescentada mais tarde). Em seu testamento, expressou o desejo de que o anel ficasse com um amigo que residia na cidade de São Paulo.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Vovó Tita

Meu pai se mudou para Cruzeiro na década de 50. Mineiro muito versátil, inteligente e de muita empatia, logo fez muitos amigos. Uma amizade especial foi travada com Dona Tita, a filha herdeira do Barão do Café naquelas paragens. Desta amizade resultou um gostoso convívio do qual pude, com meus irmãos, compartilhar em nossa infância.

Eu era muito pequeno, mas era fácil reconhecer que estávamos nos aproximando da casa da Vovó Tita: ela residia na Casa Grande que por alguns séculos dominou a área plana da atual cidade de Cruzeiro. Eu era um pequeno menino sentado no fundo banco do carro, só conseguindo enxergar o que havia de mais alto, lá fora. Assim, via a longa fachada assobradada de cor branca com batentes e janelas azuis, adornada junto ao telhado, com desenhos de cordas também azuis. Um lampião azul na esquina do prédio me confirmava onde estávamos e logo já estacionávamos na garagem. 

Havia uma escada de acesso pela garagem. Me lembro da Vovó Tita nos recebendo lá no alto da escada. Sempre por ali, a Iracema, sua criada, mulher alta, sempre de cabelos presos sobre a cabeça. Eram pessoas boas para as crianças.

Lá em cima, a sala grande era decorada com quadros e pratos na parede, cristaleiras, louças, lustres. Em uma despensa ao lado da sala, um largo pote à nossa disposição com biscoitos que adorávamos comer. Eram deliciosos! Hoje raramente encontro algum que iguale o sabor.

Em um canto de parede, a rede. Era o que me interessava, pois na verdade eu não achava muito o que fazer além de matar a curiosidade que me despertavam os artigos espalhados pela sala. Basicamente, eu achava a visita muito chata e que só eu não me divertia ali. Coisa de criança, lamento muito não aproveitado melhor aqueles momentos que hoje sinto terem sido tão gostosos.

A anfitriã se reunia em meus pais na sala de visitas que era uma ambiente dentro da sala grande, com cadeiras sobre um tapete de couro de boi. Nós crianças, ficávamos brincando pela sala enquanto os adultos conversavam. Um detalhe especial era o som dos passos sobre o chão de tábuas corridas.

Me lembro de ficar deitado na rede branca, no canto da grande sala. Esta sala possuía ainda uma capela anexa, guardando imagens sacras e uma decoração de beleza peculiar, ricamente enfeitada.

As últimas visitas aconteceram em 1977. Como minha casa precisou de uma reforma emergencial (o piso de cerâmica da cozinha estourou em uma noite de muito calor), Vovó abriu mais uma vez as portas de sua casa para lá residirmos por um mês. Mas já não era mais o casarão. Este havia sido desapropriado devido ao seu interesse histórico e cultural. Vovó Tita agora morava em uma casa  do outro lado da rua, construído com o dinheiro da desapropriação.

Vovó Tita agora gostava de ficar namorando a vista do casarão centenário: 'que saudades da minha casa!'. Faleceu em setembro de 1977, com quase 84 anos.


terça-feira, 11 de março de 2014

Um poço Corredor

Às 16h da tarde de um domingo frio com chuva leve e persistente, tudo o que se deseja é estar em sua própria cama. Mas fica difícil com seu irmão mais novo, insistindo em nadar na Serra: "Vamos lá, a gente vai todo fim-de-semana!" e também "A gente tem que ir!". Assim, levantei e troquei de roupa, a sunga por baixo. Pegamos as máscaras de mergulho, os snorkels e as nadadeiras, entramos no carro e rumamos para a Serra da Mantiqueira.

O local fica no Rio do Braço, a 20 km da nossa cidade de Cruzeiro, passando pela Vila de Pinheiros, em meio às montanhas que formam a base da Serra. Com o carro estacionado na beira do asfalto, caminhando a pé por 1 km de pasto, chega-se ao Corredor, o poço comprido, e com ao menos 3 metros de profundidade. Fica entre duas paredes rochosas de uns 4 metros de altura. Após este poço, uns 100 metros rio abaixo, existe o Poção, na base de uma extensa rocha inclinada, com uma cachoeira na chegada e um abrigo sob a rocha, ao lado desta.

Por uns dois anos, batemos cartão lá em todo sábado e domingo, com nossos amigos Mário, Coqueiro e Cléber (Kleber K). Johnnie Utah e Rodolfo também estiveram lá conosco. 

Em meu Gol quadradinho azul, subíamos a Serra ao som de Guns 'n' Roses: Yesterdays, November Rain, Stranged, Welcome to the Jungle, Comma marcaram época. Ao som destas notas, corríamos na pista que se erguia na cumeada das montanhas na base da Serra.

Com o carro estacionado na beira do asfalto, adentrávamos uma pequena área de plantio com uma bica de água abundante e fresca. Após beber da água e pular a cerca acima desta, tinha início a caminhada de 1 km em plano inclinado, tendo à direita a imponente escarpa da Serra da Mantiqueira, no domínio da Pedra da Mina; e à direita, láááá em baixo, distante, a cidade de Cruzeiro.

O local é pouco frequentado. Sem trilha demarcada, pisa-se terreno virgem, abrindo o seu próprio caminho em meio ao pasto. Atravessando mais uma cerca, segue-se até a Grande Árvore, próxima à Pedra Quebrada. Venta muito e já dá para ouvir a corredeira do rio. Então vem a descida do morro, que sempre descemos aos pulos, garantindo emoção e suspense a cada salto. Nunca nos machucamos fazendo isso. Caminhadas descontraídas, em plena liberdade.

Antes de chegar no rio, um último desafio: 10 metros de um barranco íngreme em terra nua, auxiliado por uma árvore posicionada na sua meia altura. Suas raízes também ajudam muito.

Chegamos! Estamos sobre a 'parede' direita do Corredor (à direita do fluxo do rio). Vê a água lá em baixo? É sempre verde e cristalina assim! A parede esquerda, do outro lado, parece bem próxima, mas pode saltar sem medo, nunca batemos nela (apesar de o Fernando quase dar com o pé ali). 

É isso: um corredor de uns 20 metros, com uns 4 metros de largura, água pura! As águas entram com a fúria de uma corredeira, formando um turbilhão de bolhas. Passam agitadas pelo Corredor e saem após ter seu fluxo dividido por um pedrão, que nos ajuda a marcar o término das brincadeiras.

Como todo rio de serra que se preze, as águas do Rio do Braço são ge-la-das. Mesmo nos dias mais quentes de verão. Mas nos dias mais quentes, quem vai chegando, já vai pulando! Nos dias mais frios, some a coragem: todos aguardam um corajoso que diga como estão as coisas lá por baixo. A resposta é sempre a mesma: quem ressurge do mergulho olha prá cima e grita 'tá quentinha!!'.

E lá ficávamos a tarde toda, ora no Corredor, ora no Poção lá embaixo. Em meio aos dois poços, as brincadeiras em um escorregador natural, tacar pedras na colméia sob uma parede rochosa... Também aproveitávamos para nos distrair com a vista das águas enfurecidas em um trecho onde toda a vazão do rio é exprimida numa largura de apenas meio metro. Em certa ocasião de estiagem, com menos água, mas com muita turbulência, finalmente pudemos escorregar ali!

Certa ocasião, ao subirmos de volta ao Corredor, corríamos para entrar no poço em meio ao próprio rio, exceto o Mário, que já ia à frente, galgando a parede direita. De lá, gritou: 'Cobra! Cobra!'. Paramos. Ao chegarmos no poço, a cobra verde já se abrigava sob a parede, onde morreu a pedradas (apesar de meus protestos em contrário). O Mário disse ser lindo como a cobra nada em superfície d'água. Uma oportunidade única que só ele aproveitou.

O Corredor proporcionou tantas brincadeiras quanto nossa criatividade foi capaz de proporcionar: competições para ver quem conseguia vencer a corredeira na entrada da água, lutas corporais sobre essa mesma entrada (vencia quem sobrasse em pé), mergulhos em profundidade, acompanhando a declividade do fundo (sempre na apneia), brincadeiras com as bolhas de água provocadas pelas corredeiras da entrada (milhões delas subindo à superfície como moedas prateadas), saltos em diversas posições.

Meu irmão e os amigos gostavam de saltar de ponta, desde o alto da parede. Lançavam o corpo no ar com muita determinação. às vezes solitários, às vezes em duplas ou trios. O Cléber, sempre inventando moda, teve a ideia de atravessar um pau de embaúba sobre o Corredor (apesar dos meus protestos...). De sobre o tronco, os saltos ficavam ainda mais emocionantes, pois este balançava e até conseguia projetar um pouco acima, quem de lá saltava.

Como nunca tive coragem para nenhum destes saltos, me restou inventar o que era possível a um reles mortal. 'Gente, olha só: pular em pé mesmo, mas olhando para cima! Dá mais emoção!'. Ok, todos concordavam que era legal, mas logo retomavam seus saltos de ponta. Então inventei de pular com os braços prendendo as pernas ao corpo, como fazíamos na piscina, quando crianças, o salto 'de bomba'. Mostrei o salto a todos e fiquei aguardando os resultados, lá embaixo. Justamente meu irmão Fernando foi tentar, mas partindo do tronco. Ao saltar, fez como pedi, dobrando as pernas e prendendo-as ao corpo, com os braços travando o conjunto. Mas desequilibrado pelo tronco, virou-se no ar e caiu de costas, uma altura de 4 metros! E lá vem o Fernando, boiando ao sabor da correnteza, olhos fechados, gemendo de dor. Acolhi meu irmão junto à pedra grande na saída do Corredor, aguardando os longos minutos necessários à sua recuperação.







quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Jovens em risco

Não é engraçado? Fernandópolis, no interior de São Paulo, inovou ao decretar toque de recolher para menores. Os resultados foram animadores para diversos índices de criminalidade, chegando a zerar a autuação de menores portando armas de fogo.

E não é que derrubaram a lei que havia conseguido a melhora no cenário criminal? Procurei na Internei por respostas e pelos autores do processo, mas não consegui um consenso do que motivou a derrubada de uma lei tão benvinda.

Eu estive em Tupi Paulista, no interior de São Paulo, em duas ocasiões: no ano 2000 e em 2009. Em ambas, percorri as ruas da cidade em noites de um dia de semana. Na primeira ocasião me encantei com a cidade e morro de saudades. Na segunda, me assustei muito ao perceber, após às 21h, a rua ser tomada por jovens e mais jovens, meninos e meninas, em atitude de azaração. Eram tão jovens que alguns não passavam mesmo de crianças crescidas.

Fiquei muito triste ao pensar que a vida noturna provê mais revés que sorte, enquanto essa gente nova arrisca tanto (uma vida inteira) por tão pouco (uma noitada)... E triste de pensar que seus pais talvez desejassem que não fosse assim, mas impedir de que jeito, nos dias de hoje? Nossa cultura pós-Ditadura conseguiu reduzir o odiável sentido da 'autoridade' a um nível temerário, em que já não mais é exercida nem mesmo em casa.

Na ocasião, soube de Fernandópolis, com seu toque de recolher vigente. Torci por igual socorro a Tupi Paulista. Esquece.

Você, estimado leitor, pode achar exagero meu. Espero que esteja certo. Mas já vi tanta coisa dar errado na vida dos meus jovens companheiros. A maior parte morreu cedo demais, em acidentes automobilísticos. Outra parte perdeu cedo a juventude por conta dos desvios impostos às suas perspectivas futuras, consequência de seus próprios erros. Alguns assumiram vícios, que carregam ainda hoje. Graças a Deus, boa parte seguiu vivendo, mas considerando as oportunidades de risco criadas, só posso mesmo acreditar que vale dar tempo ao tempo, ou, como nos ensinavam na escola: "não colocar a carroça na frente dos bois".


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Em drogas

Começo este texto sem saber qual título terá, porque falo de gente muito próxima, sempre em meu coração, apesar do pouco contato que tivemos.

Com apenas 8 anos de idade fumou o primeiro baseado. Ele tão teve chance, não teve escolha: com uma natural dificuldade de evitar uma vontade, aos 12 já estava viciado. Minha família lhe era uma referência, acorrendo a nós algumas vezes. Sentado na sala, como um jovem hippie, explicava entusiasmado que havia queimado as trocas de roupa que recebera, pois era deus. Em outra ocasião, insistiu que dormiria em nossa casa, uma casa cheia de crianças. Em sua cintura, uma enorme faca.

Sua relação familiar, no seio de sua família, foi triste e violenta, nem sei dizer a quem foi pior. Sua mãe era pele e osso - sem exagero - de tanto sofrer, um sofrimento muitas vezes provocado e imposto por um filho obcecado pelas drogas. Em casa nada possuíam, pois qualquer item era logo vendido ou trocado. Certa tarde apareceu no portão de casa oferecendo um xaxim de samambaia.

As oportunidades de frequentar nossa casa nem foram tantas assim, se comparadas à frequência na delegacia, em unidade de tratamento, no sanatório.  A prisão chegou a ser acionada pela própria mãe, que encenava verdadeiros teatros e casualidades, temendo a represália do filho. A encenação era tanta, que ao menos uma vez, ela impediu mesmo que ele fosse preso.

Eu já era adulto e cheguei a visitá-lo no Sanatório. Seus dedos da mão direita sempre escurecidos, pelo uso frequente do cigarro, talvez sua unica distração. Em algumas ocasiões, ele bem que se esforçava, mas não conseguia articular palavra.  Em outras, com dificuldade, formou frases que já não expressavam sentimento, apenas respondia às minhas perguntas. Ele demonstrava uma calma alegria de estar com alguém conhecido.

Ainda o vi circulando pelas ruas, à noite, em companhia prá lá de suspeita. O convidei a tomar um refrí, no que ele recusou, mostrando que tinha que seguir adiante. Insisti, de nada adiantou. Pensei em intimar. Mas só retardaria um pouco o inevitável.

Sua mãe repetia sempre que tinha fé em sua recuperação, mas já havia virado um lema vazio, não tinha mais como. Ele já tinha mais de 40 anos! Alguns anos antes, ela passou o Natal conosco, ficando em casa mais alguns dias. Minha mãe a encontrou a tatear, com ambas as mãos, a parede branca da sala. Perguntada do que fazia, respondeu: 'Aqui havia tanta vida, tanta alegria...'.

Ao conversar com sua mãe pela uma última vez, notei uma inesperada alteração em seus anseios, a fé havia se esvaído. Duas semanas após, ele jazia nos fundos de sua casa. Sua mãe, chorando sobre seu corpo, lamentando a morte do - agora - melhor filho do mundo, assumindo a insana decisão de haver contratado um matador. No jornal, uma nota fria, incapaz de uma mínima centelha do horror ao qual aquela mãe esteve submetida nas últimas três ou quatro décadas.

Descanse na paz de Deus, meu primo, descanse na paz de Deus, minha prima.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Nestlé mata águas de Minas

A Nestlé está acabando com a água mineral de São Lourenço-MG. Cada vez que tomo par dessa história, está pior que da vez anterior. 


Era só a água. E nenhuma única nota na imprensa...

O que estão fazendo com a água dos brasileiros? Quem defende a nossa água?

Repasso essa denúncia porque conheço bem a região e conheço parte da história. Os demais são fatos novos, mas são tantos que me assustaram. 


Nestlé mata Água Mineral São Lourenço  (As  águas turvas da Nestlé)

Há alguns anos a Nestlé vem  utilizando os poços de água mineral de São Lourenço para fabricar a água  marca PureLife.

Diversas organizações da cidade vêm combatendo a  prática, por muitas razões.
As águas minerais, de propriedades  medicinais e baixo custo, eram um eficiente e barato tratamento médico  para diversas doenças, que entrou em desuso, a partir dos anos 50, pela  maciça campanha dos laboratórios farmacêuticos para vender suas fórmulas  químicas através dos médicos. Mas o poder dessas águas permanece.  Médicos da região, por exemplo, curam a anemia das crianças de baixa  renda apenas com água ferruginosa.

Para fabricar a  PureLife, a Nestlé, sem estudos sérios de riscos à saúde, desmineraliza  a água e acrescenta sais minerais de sua patente. A desmineralização de  água é proibida pela Constituição.

Cientistas europeus  afirmam que nesse processo a Nestlé desestabiliza a água e acrescenta  sais minerais para fechar a reação. Em outras palavras, a PureLife é uma  água química. A Nestlé está faturando em cima de um bem comum, a água,  além de o estar esgotando, por não obedecer às normas de restrição de  impacto ambiental, expondo a saúde da população a riscos desconhecidos.  O ritmo de bombeamento da Nestlé está acima do  permitido.

 
Troca de dutos na presença de fiscais é rotina.  O terreno do Parque das Águas de São Lourenço está afundando devido ao  comprometimento dos lençóis subterrâneos. A extração em níveis além do  aceito está comprometendo os poços minerais, cujas águas têm um lento  processo de formação. Dois poços já secaram. Toda a região do sul de  Minas está sendo afetada, inclusive estâncias minerais de outras  localidades.

Durante anos a Nestlé vinha operando, sem licença  estadual. E finalmente obteve essa licença no início de  2004.

Um dos brasileiros atuantes no movimento de defesa  das águas de São Lourenço, Franklin Frederick, após anos de tentativas  frustradas junto ao governo e à imprensa para combater o problema,  conseguiu apoio, na Suíça, para interpelar a empresa criminosa. A Igreja  Reformista, a Igreja Católica, Grupos Socialistas e a ONG verde ATTAC  uniram esforços contra a Nestlé, que já havia tentado a mesma prática na  Suíça.

Em janeiro deste ano, graças ao apoio desses grupos,  Franklin conseguiu interpelar pessoalmente, e em público, o presidente  mundial do Grupo Nestlé. Este, irritado, respondeu que mandaria fechar  imediatamente a fábrica da Nestlé em São Lourenço. No dia seguinte, no  entanto, o governo de Minas (PSDB), baixou portaria regulamentando a  atividade da Nestlé. Ao invés de aplicar multas, deu-lhe uma  autorização, mesmo ferindo a legislação federal.. Sem aproveitar o apoio  internacional para o caso, apoiou uma corporação privada de histórico  duvidoso.

Se a grande imprensa brasileira, misteriosa e  sistematicamente vem ignorando o caso, o mesmo não ocorre na Europa,  onde o assunto foi publicado em jornais de vários países, além de duas  matérias de meia hora na televisão. Em uma dessas matérias, o vereador  Cássio Mendes, do PT de São Lourenço, envolvido na batalha contra a  criminosa Nestlé, reclama que sofreu pressões do Governo Federal (PT),  para calar a boca. Teria sido avisado de que o pessoal da Nestlé apóia o  Programa Fome Zero e não está gostando do barulho em São  Lourenço.

 
Diga-se também que a relação espúria da Nestlé  com o Fome Zero é outro caso sinistro. A empresa, como estratégia de  marketing, incentiva os consumidores a comprar seus produtos, alegando  que reverte lucros para o Fome Zero. E qual é a real participação da  Nestlé no programa? A contratação de agentes e, parece, também  fornecendo o treinamento.

Sim, é a mesma famosa Nestlé, que  tem sido há décadas alvo internacional de denúncias de propaganda  mentirosa, enganando mães pobres e educadores, para  substituir  leite materno por produtos Nestlé, em um dos maiores crimes contra a  humanidade.

A vendedora de leites e papinhas "substitutos"  estaria envolvida com o treinamento dos agentes brasileiros do Fome  Zero, recolhendo informações e gerando lucros e publicidade nas duas  pontas do programa: compradores desejosos de colaborar e famintos  carentes de comida e informação. Mais preocupante: o Governo Federal  anuncia que irá alterar a legislação, permitindo a desmineralização  "parcial" das águas. O que é isso? Como será  regulamentado?

Se a Nestlé vinha bombeando água além do  permitido e a fiscalização nada fez, como irão fiscalizar agora a tal  desmineralização "parcial"? Além do que, "parcial" ou "integral", a  desmineralização é combatida por cientistas e pesquisadores de todo o  mundo. E por que alterar a legislação em um item que apenas interessa à  Nestlé? O que nós, cidadãos, ganhamos com isso?

É simples.  Sabemos que outras empresas, como a Coca-Cola, estão no mesmo caminho da  Nestlé, adquirindo terrenos em importantes áreas de fontes de água. É  para essas empresas que o governo governa? Uma vergonha  !!!
                              
Colabore. Transmita estas informações para outras  pessoas e não consuma o que prejudica a saúde.

Mais informações sobre o caso Nestlé  em http://www.circuitodasaguas.org/  

O Luto no Sul de Minas de antigamente

Até metade do Século XX, o luto no Sul de Minas envolvia práticas rígidas para os parentes do falecido, que eram religiosamente seguidas: o ...