domingo, 6 de abril de 2014

Na Grande Ilha

Finalmente, férias! Em dois anos e meio trabalhando naquela empresa, finalmente consegui 5 dias de férias! Como assim?? Simples: eu não possuía carteira assinada. Era o ano de 2002.

E finalmente poderia viajar para algum lugar. Bonito-MS foi de cara a primeira opção, logo descartada por falta de grana. Um destino perto e bem cotado era Ilha Grande, uma das 365 ilhas de Angra dos Reis.

No caminho para lá. na localidade de Rio Claro, passamos por uma extensa revista policial, em busca de drogas. Nós, nosso carro e nossas bagagens. Os policiais procederam com total profissionalismo e nos liberaram após constatar que estávamos limpos, mas quase perdemos a última balsa partindo de Angra dos Reis para a ilha.

Descemos da balsa na Vila do Abraão, o porto principal de Ilha Grande, eu e meu irmão Fernando. Eram os primeiros dias de Janeiro. Empolgado, eu disse ao Fer: "Nossos problemas ficaram no continente!"

Caminhando umas poucas quadras, chegamos a um camping de fundo de quintal, uma área ampla abrigando 8 barracas. Ocupamos a posição mais ao fundo, à direita. E logo surgiu nosso primeiro problema: a barraca emprestada veio sem as varetas da armação. A dona do camping felizmente possuía um grupo de reserva. Serviu, mas como eram menores que os originais, nossa barraca ficou mais parecendo um sorvete derretido.

Naquele camping, logo faríamos boas amizades:
- Gilmar: um negão de Nova Iguaçú. Gente boa, extremamente bem humorado, nunca parava de falar. "Fala sério!". Estava com sua esposa, mas não me recordo seu nome;
- Leonardo e Sílvia, paulistanos. De especial, o Leonardo trazia a história engraçadíssima de um desastroso feriado na Ilha do Mel. Quando nos reencontramos no ano seguinte, fizemos questão de que ele nos contasse de novo a história toda;
- Juliano: esse belo-horizontino estava lá com seu irmão mais novo. Mais uma dupla bem-humorada.
- Ígor: o enorme cachorro do camping, amarelo e peludo, um amigão com o qual podíamos até passear pela Vila do Abraão. O Fer foi quem mais se encantou com ele. Era bem conhecido dos moradores e comerciantes. Podíamos entrar com ele nas lojas e houve até quem nos ensinasse como fazer ele se sentar.

A cada dia, fazíamos nossos passeios para cada lado da ilha, nos reunindo à noite para trocar histórias e dicas das melhores trilhas. Na penúltima noite, jantamos juntos e combinamos de fazer nossa última trilha também juntos (mas sem o Ígor), para a Praia dos dois rios, que outrora abrigou o famoso presídio da ilha.

O jantar comunitário surgiu de forma espontânea. com o Gilmar anunciando que tinha pescado um peixe grande, que então estava à disposição. O Leonardo e a Sílvia entraram com o arroz, o Juliano com a farofa, nós com o vinho. O Fer foi o mestre-cuca. O Gilmar contava histórias, "fala sério!". Deve ter sido ali que o Leonardo narrou sua celébre travessia dos 9 km de praia da Ilha do Mel, rodeado de mutucas. Sua única defesa era um enorme chapéu, com o qual tentava afastavar o inimigo. Disse que mesmo quando entrava na água, ele via as mutucas sobre ele, aguardando sua saída.

No dia seguinte, a saideira nos 14 km que levam à Praia dos dois rios, uma delícia de lugar. Ali você pode intercalar a água salgada do mar com a água doce de um dos dois rios que chegam em um dos cantos da extensa praia. Antes de chegar lá todavia, você tem as ruínas do presídio implodido e a vila dos guardas que atuavam no local. Alguns deles ainda estão lá, aposentados. Um deles, perguntado sobre o dia-a-dia do presídio, me surpreendeu,  retratando uma colônia de férias.

A caminhada não é tão simples, com 7 km de subida, seguida de 7 km  de descida. Na volta principalmente, ficamos bem cansados. Fora da Vila do Abraão, é a única via carroçável em toda a ilha. Em algum ponto dessa trilha, pudemos ouvir um Bugio, ao longe. É o maior primata da ilha e produz um impressionante som, um longo 'roar'.

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Voltamos a Ilha Grande no ano seguinte, mas surpreendidos pela notícia de que vários dos menores campings da ilha foram fechamos, nos instalamos no superlotado camping do Sr. Palma. Muito interessante aliás, o Palma é uma espécie de líder comunitário.

Achamos o espaço de nossa barraca bem próximo à área do refeitório. Desta vez, o Fer gabava-se de ter trazido um colchão inflável. Chegada a hora de dormir, eu estendi sobre o chão o meu isolante térmico, uma colcha, um lençol, um travesseiro. Boa noite.

O Fer começou a soprar seu colchão inflável. Sim, ele se não tinha uma bomba de ar! Os longos minutos se passavam ao som de fúúúúú, fúúúúú, fúúúúú. Até ajudei um pouco meu exausto irmão. Eu já estava confortavelmente cochilando quando ele concluiu e finalmente se deitou. Ao lado, um pessoal recém-chegado terminava de montar a barraca e então pudemos ouvir um 'tump-tump-tump': sim, eles usavam uma bomba de ar. Dei muita risada, até o Fer não resistiu e começou a rir.

A noite seguia tranquila e eu dormia bem, mas fui acordado ao som de fúúúúú, fúúúúú, fúúúúú. O colchão dele estava vazando. Logo que me levantei na manhã seguinte, o Fer rolou para a minha 'cama'. Havia dormido mal e o colchão já estava esvaziado.

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A Gruta do Acaiá é um ponto alto no turismo da Ilha Grande. Fica bem no canto da ilha, chegando-se lá a bordo de veleiros. A entrada está uma propriedade que volta e meia está interditada, acho que alguma questão de posse da terra. Entra-se por um buraco no chão, descendo-se por uma escada e, então, caminha-se de cócoras um trecho, passando por uma superfície de rocha, em uma descida suavemente inclinada, até chegar próximo à saída da gruta. Como é uma saída submersa, fica tomada pela água do mar, mas iluminada de azul, devido à luz do sol, brilhando lá fora da caverna. E com uma porção de peixes. 







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