Ainda faltava meia hora para inciar o expediente e eu já vencia o primeiro patamar das escadarias da empresa, quando ouvi o Diretor de Operações perguntar ao meu colega: "Você conhece alguém que já tenha trabalhado a bordo de helicóptero?". Travei minha subida e desci a escada a toda, gritando "Eu!!! Eu fiz trabalho de campo para a Dersa, no Trecho Oeste do Rodoanel!". Estanquei de frente aos dois, a tempo de perceber que acabava de frustrar os planos do meu colega em conseguir um bom trabalho. Foi mals... Era o início de um dos trabalhos mais gostosos de minha vida.
Para resumir, o trabalho começava no dia seguinte e demandava o registro fotográfico de 150 pontos distribuídos na região sudoeste do Estado de São Paulo. O meio era o helicóptero, muito plausível para um mundo ainda sem as imagens orbitais de alta resolução, pré-Google Earth.
Pontualmente às 6 horas da manhã, conheci o piloto. No telefone, ele recebia as condolências por um colega piloto falecido no dia anterior, em Tamboré, a serviço. Morrera carbonizado na queda da aeronave, pouco após a decolagem."A gente tá na luta". Moreno e de cabelos negros e lisos, aparência tranquila, óculos escuros em quase todo o tempo. Vestia uma camisa vermelha com a logo da companhia aérea. Era o Comandante Jorge.
Às 7 horas já taxiávamos a bordo de um R-22 e alçávamos vôo rumo a Bauru (apenas para abastecer). Um bom começo, uma bela vista, passamos ao lado do Pico do Jaraguá. Ao sobrevoar um reflorestamento de eucaliptos, pude sentir o aroma típico das folhas.
Eu me mantinha sentado, os braços repousados sobre a prancheta, 100% entretido com a paisagem. Que terra impressionante o Brasil, como trabalham os caminhões e suas cargas, os tratores e as aeronaves pulverizando defensivos agrícolas, as represas gerando energia elétrica,...
O Jorge quebrou o gelo: "Facinho pilotar um avião, tem duas pessoas". Acenei com a cabeça, concordando. E seguiu falando "Aqui não, um só tem que fazer tudo. Sabe quantos anos foram precisos para fazer o helicóptero voar? 20 anos!". Perguntou se era o meu primeiro vôo. Quebrado o gelo, seguimos levando adiante as nossas palavras ao vento.
A cabine do R-22 permite um amplo ângulo de visada. A paisagem se renovava a cada tempo, revelando os padrões de uso do solo no Estado: vastas regiões de plantio de cana, sucedida por vastas regiões de pecuária, à medida em que rumávamos na direção de Mato Grosso do Sul. No campo, o gado Nelore debandava em desespero e as garças voavam, fugindo daquele ruidoso pássaro que éramos. Um boi isolado fugia, mandando chifradas violentas em nossa direção, temendo ser a hora d bife.
O Jorge surpreendeu de saída: além da total atenção ao trajeto e ao que se passava ao redor - quem pilota helicóptero age assim - dedicava total atenção a mim, fazendo questão de me explicar tudo sobre o mundo dos helicópteros: os princípios, os mecanismos, os acidentes. Achei interessantíssimo saber que existe uma rotação mínima com a qual o giro pás consegue vencer o peso do helicóptero. Realmente requer atenção.
E o helicóptero soviético que aparece no filme do rambo, com turbinas acopladas? Pura invenção que não sai das telas nunca, porque as pás do helicóptero tem na velocidade do som, o seu limite! Uma a uma, minhas dúvidas foram sendo esclarecidas.
No chão, à frente de um galpão, um caboclo se posicionou de frente para nós e se pôs a acenar com os dois braços, lentamente, feliz, seu rosto iluminado de plena satisfação. Helicópteros devem mesmo ser raros de ver por ali.
E pouco após o início dos trabalhos, quando já conseguia as primeiras tomadas fotográficas,... fui acometido de um súbito enjôo. "Acho melhor a gente descer", eu disse. O Jorge perguntou: "Não quer aguardar a próxima foto?". "Tô bals", foi o que pude responder, antes de 'lavar' a cabine. O Jorge surpreendeu mais uma vez, com absoluto profissionalismo "Tudo bem, tá tudo bem, isso é muito normal! Já estamos sobre o aeroporto, já estamos descendo".
Era o aeroclube de Guararapes. Saí do helicóptero, caminhei uns passos, olhei para trás, o Jorge agitado a limpar o interior do helicóptero. Voltando a olhar para frente, me dirigi para o hangar, onde os funcionários que ali trabalhavam, pararam o que fazia e ficaram me olhando. Um senhor calvo e de óculos, com jeitão de coordenador da turma, se aproximou e - mostrando preocupação - me perguntou, com algum jeito: "Foi só por cima?". Acenei que sim e ele me apontou o vestiário: "Então é ali".
No exíguo espaço interno do R-22, há pouca ventilação e abundante insolação! Em duas ocasiões, pousamos em busca de água, que foi servida bem gelada, pelos moradores do campo, Deus os abençoe! Ao pousar nas margens do Rio Paranapanema, UHE Capivara, em Iepê, vimos o proprietário postar-se à cerca, olhando para nós. Preocupado, o Jorge pediu que fosse rápido pedir autorização. Saltei correndo, o corpo inclinado para a frente e a cabeça abaixada - regra básica para evitar as hélices em alta rotação. O som forte das hélices foi ficando para trás, substituído por latidos, vários latidos! Estanquei! Cães de vários tamanhos se aproximavam! O proprietário se aproximou sorrindo e sinalizou que eram mansos. Com um forte aperto de mão, pedi desculpas. Ele respondeu, vibrando: "Que desculpa que nada! É uma enorme honra!!!! Sebastião Salgado, Assentamento Estrela, Lote 22!!!". Logo recebíamos água gelada, café quente e bolo, em sua varanda. Depois entrei no rio, até os joelhos e lá fiquei. O Jorge apenas me fitava, aguardando a retomada dos trabalhos. Quando saí e segui ao helicóptero, dei falta dele. Virei-me para trás e o vi no rio, refrescando as pernas.
72 locais fotografados após, pernoitamos em Lucélia. Abastecido o helicóptero, o Jorge se dirigiu a um menino sentado ali próximo: "Quantos anos você tem?". O menino, de 12 anos, ouviu algo especial: "Garoto, você pode me ajudar? Tenho que estacionar melhor o helicóptero e preciso de um contrapeso!". O menino entrou no helicóptero e afivelou o cinto de segurança O Comandante elevou a nave alguns poucos metros, deslocando-a para a direita e logo pousou. Desligou a máquina e despediu-se do menino, agradecendo-o. Caminhando adiante comigo, Jorge explicou: "Eu não precisava de contrapeso nenhum, mas esse menino nunca mais vai esquecer isso na vida dele!!!"
segunda-feira, 21 de abril de 2014
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