quarta-feira, 7 de maio de 2014

A flor por testemunha

Estive com ela em duas ocasiões apenas, mas esses breves encontros renderam dezenas de cartas e telefonemas. Eram os anos de 1993 e 94 e minha auto-estima andava muito baixa. Na primeira ocasião, a Denise tentou me tirar para dançar, mas recusei, alegando não saber dançar - e não sei mesmo. Mas na segunda, como estava de passagem em sua cidade, aceitei o convite para dormir em sua casa.

Conversamos um monte no início da noite e saímos para os festejos na cidade, tendo a oportunidade de beijá-la enquanto rolava um desfile de lingerie. Nas horas seguintes caminhamos pela praça, onde colhi a flor branca de uma árvore e a entreguei, colhendo um sorriso em resposta e vendo que ela não soltava mais a flor.
Na manhã seguinte, acompanhei seu pai no trato das galinhas no fundo do quintal, nos cuidados com as árvores e mudas do pomar. Lá na frente, uma buzina me chamando. Peguei minha mala e entrei na cozinha para a despedida. Ela estava em pé, de frente para mim, o quadril apoiado no balcão, as mãos agarradas às beiradas. Seus olhos estavam fechados e seu rosto transmitia um sentimento forte, que arrisco dizer tratar-se de dor. Beijei-a, me despedi e parti. Ela nada disse.
Havia sido um fim-de-semana e tanto, que me ajudou muito no resgate da minha auto-estima, mas era uma época em que eu não estava com coragem para me relacionar com alguém.

As cartas foram um episódio à parte. Quando tudo terminou, cheguei a fazer a estatística das postagens, mas como sempre acaba acontecendo, não resistiu a um dia dedicado a organizar meu quarto e me desfazer de coisas. 
A primeira carta iniciava com "Você entrou por aquela porta, me beijou e partiu. Você entrou na minha vida.". Dentro de uma das cartas, uma flor ressecada, ah, aquela flor! Respondi na carta seguinte: "Já sem cor, já sem odor, a flor é testemunha". Logo que recebeu a carta, ela me ligou: "Você viu o que você escreveu?!"
Uma das cartas que recebi estava forrada de beijos, dos dois lados da folha. Por cima dos beijos, a escrita. Desta vez, resolvi brincar, respondendo: "Essa minha carta também vai forrada de beijos, só que eu não uso batom!".
Ela de fato se esforçou muito para ativar um convívio, para que eu retornasse. Chegou a partilhar segredo, pelo que busquei aconselhá-la, mas evitando me envolver. Com dois anos de relacionamento 'virtual', recebi sua última carta, com seu entendimento de que não era mesmo possível continuar e votos de felicidades. Respondi, tentando reavivar o envio de suas cartas, que me davam muito gosto, mas sem resposta.
A troca de mensagens e as conversas por telefone foram um verdadeiro bálsamo, luz em um período obscurecido por muitas dificuldades e incertezas. Desejo que ela tenha alcançado a felicidade que tanto demonstrou almejar, que tenha conseguido uma boa companhia e esteja vivendo bem sua vida.

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