Ano 1997, a Ponte dos Remédios, na capital paulistana, ameaçou ruir. Interdição do tráfego e obras emergenciais de pronto iniciadas, a imprensa também em campo registrou uma árvore crescendo entranhada na estrutura da ponte, revelando o descaso com esta e as demais pontes sobre o Rio Tietê. Publicada a notícia, os governos lavaram as mãos: o Municipal atribuiu a responsabilidade da manutenção ao governo Estadual, o qual, por sua vez, alegou ter sido responsável apenas por sua construção, cabendo à Prefeitura os cuidados decorrentes.
Ano 2014, a água em São Paulo ameaça acabar. O Governo Estadual afirma dominar a situação para lá de crítica e tenta jogar o problema para o Federal, o qual responde que os cuidados com a água são da Unidade Federativa.
Remediada, a Ponte dos Remédios segue como opção segura ao tráfego paulistano. Mas o abastecimento público fica com a raspa do tacho dos reservatórios e córregos mais próximos da megalópole. Milhões de cidadãos brasileiros permanecem em dramática contigência do recurso mais abundante em nosso país.
Seja nos transportes ou no bem mais básico e precioso, vivemos o descaso absoluto dos Poderes. Lotados por gente ávida pelos recursos financeiros amealhados dos caros impostos, somos indignos da mais comezinha promessa da campanha surgida da mente de algum marqueteiro.
Entramos em 2015 acostumados a monitorar a percentagem do Cantareira, o qual adentra novo período de estiagem com ainda menos água que no ano passado, sem outra perspectiva que não o racionamento. A solução está na produção de água, mediante procedimentos de segurança hídrica, com ações focadas na restauração do ciclo hidrológico natural, a única forma de recarga das águas dos mananciais e reservatórios superficiais e subterrâneos (aquíferos).
É preciso blindar os mananciais, impedindo a ocupação urbana deste espaço. As florestas são o meio pelo qual se retém a água no solo, evitando a perda das águas pela evaporação. Então, há que se recriar as matas ciliares, proteger as nascentes, reflorestar os terrenos íngremes, restabelecer a Reserva Florestal. É preciso revogar o Novo Código Florestal.
Além disso, há que cessar os desmatamentos, estancar o avanço das fronteiras agrícolas e restaurar - o máximo possível - os cinco biomas nacionais: Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia, Floresta com Araucárias, Pantanal.
Caso contrário, seguiremos despreparados para as críses hídricas vindouras, estiagens cada vez mais longas, intensas, severas. O que será de nossas cidades e nossas fronteiras agrícolas sem a água?
sábado, 21 de março de 2015
domingo, 15 de março de 2015
Rua das Flores II
Chegamos na Praça Santos Andrade, aqui em Curitiba, logo após as 14h, o horário marcado nas redes sociais. O espaço já estava cheia e mais pessoas chegavam por todas as ruas, chegando a 80 mil, pelas contas da Polícia Militar. Muitos vestiam verde e amarelo, uma camiseta da seleção ou a própria bandeira do Brasil. Esse clima de Copa tinha um motivo muito nobre: a manifestação popular por uma melhora na política, um Brasil melhor.
Haviam faixas de "Chega de corrupção", que está mais alinhada ao modo como o Brasil conseguirá superar a crise. Mas haviam também "impeachment", "Fora Dilma", "Fora Toffoli", "Fora PT", "Welcome to corruPTion paradise". A frase que mais gostei dizia "Quem não se manifesta, aceita calado". Também gostei do cartaz de uma teen, com "É tanta coisa que não cabe aqui".
Dos prédios, bandeiras do Brasil, bandeiras verdes, amarelas, vermelhas,... Ops! Sim, esticaram uma enorme bandeira vermelha em uma janela, logo recolhida após manifestações contrárias, em coro. A reação da massa não foi das mais democráticas...
E da Praça, caminhamos pela Rua das Flores. Novamente, poucas semanas após os professores encherem de cores este, que é o calçadão da Rua XV de Novembro, as massas cívicas ergueram sua voz por uma política melhor.
A solução? Não sei, ninguém sabe e mesmo as manifestações foram difusas. Impeachment? A Dilma foi eleita em pleito democrático e deve permanecer à frente do Brasil pelo período integral dos 4 anos. Será um penoso período não só para o povo, mas também para um PT cada vez mais precarizado por escândalos cada vez mais avassaladores, já que insiste em confundir a gestão do país com a gestão de seus próprios interesses. Passados mais 3 anos, aí sim, as urnas receberão nosso sonoro "Fora PT".
Lanceiros Negros II
Desde o início dos acontecimentos, já se passou Copa, Natal, Reveillon, Carnaval e as manifestações cívicas. Já são 8 meses desde que ele, sua esposa e filha neném foram despertados, desde que ele fora retirado do seio familiar e retido para averiguações.
Da prisão da unidade policial de sua cidade natal, fora transferido para o presídio regional, a 130 km de sua casa. Distância essa que sua mãe e esposa conhecem bem, assim como os procedimentos indecorosos que precisam vencer para prestar-lhe apoio.
Se em toda notícia ruim, há um aspecto positivo, este deve ser o estreitamento das relações familiares da parte de sua mãe com sua sogra, na luta perene por conseguir fundos para advogado, viagens e compra dos itens que precisam ser entregue ao cativo. E como toda notícia ruim ainda pode piorar, de seu empregador não pingou mais um único Real de salário, nem tampouco houve um único mês de auxílio-reclusão.
Privado de sua família e liberdade, sobrevive entre dezenas de detentos, em um espaço que não comportaria um terço dessa turma em condições razoáveis. Para se ter uma ideia, cada colchão abriga uma dupla, dormindo em carta de valete. Difícil imaginar como conseguir um mínimo de conforto e dignidade nos longos, incômodos e sonolentos dias.
As averiguações talvez estejam em curso, mas ainda não houve julgamento. Ele segue preso já por oito meses, sem ao menos haver sido julgado culpado, apenas um suspeito mal explicado. O caso já está nas mãos do juiz, ao qual pagamos auxílio-moradia na esperança de alguma notícia de alento para essa família, uma decisão quem sabe tão boa que possa requalificar um nome jovem perante a sociedade, estancando o prolongamento do enorme tempo já perdido.
A notícia só poderá ser boa, a exemplo de José Genoíno, que condenado no Supremo Tribunal Federal, pagou a multa com 'vaquinha', recebeu regime semi-aberto e teve a condenação extinta.
Da prisão da unidade policial de sua cidade natal, fora transferido para o presídio regional, a 130 km de sua casa. Distância essa que sua mãe e esposa conhecem bem, assim como os procedimentos indecorosos que precisam vencer para prestar-lhe apoio.
Se em toda notícia ruim, há um aspecto positivo, este deve ser o estreitamento das relações familiares da parte de sua mãe com sua sogra, na luta perene por conseguir fundos para advogado, viagens e compra dos itens que precisam ser entregue ao cativo. E como toda notícia ruim ainda pode piorar, de seu empregador não pingou mais um único Real de salário, nem tampouco houve um único mês de auxílio-reclusão.
Privado de sua família e liberdade, sobrevive entre dezenas de detentos, em um espaço que não comportaria um terço dessa turma em condições razoáveis. Para se ter uma ideia, cada colchão abriga uma dupla, dormindo em carta de valete. Difícil imaginar como conseguir um mínimo de conforto e dignidade nos longos, incômodos e sonolentos dias.
As averiguações talvez estejam em curso, mas ainda não houve julgamento. Ele segue preso já por oito meses, sem ao menos haver sido julgado culpado, apenas um suspeito mal explicado. O caso já está nas mãos do juiz, ao qual pagamos auxílio-moradia na esperança de alguma notícia de alento para essa família, uma decisão quem sabe tão boa que possa requalificar um nome jovem perante a sociedade, estancando o prolongamento do enorme tempo já perdido.
A notícia só poderá ser boa, a exemplo de José Genoíno, que condenado no Supremo Tribunal Federal, pagou a multa com 'vaquinha', recebeu regime semi-aberto e teve a condenação extinta.
quarta-feira, 11 de março de 2015
Bruta História
As imagens do EI são fortes, mas lamento confessar que me chocaram mais os ataques aos acervos históricos. Lamento pelo fato em si, mas principalmente por meus sentimentos ignorarem que uma única vida humana vale mais que qualquer obra histórica. E quantas vidas eles têm ceifado...
Quem são? Por que fazem isso? Não, não me digam que o fazem por Deus. Em meus pensamentos, tenho Alá como a divindade adorada pelos islamistas, assim como os cristãos adoram a Deus, a Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Penso que Alá é a forma como o próprio Deus, por seu amor e sabedoria infinitos, quis se dar a conhecer pelos muçulmanos. Assim como os judeus adoram Javé e nós, cristãos, adoramos a Deus. O mesmo Deus revelado de forma peculiar a povos distintos, ansioso pelo reconhecimento de todos.
Um motivo bom para pensar assim, é que muçulmanos e judeus são primos, descencentes do mesmo pai Abraão. Os cristãos, por sua vez, têm por herança o Deus dos judeus, pela vontade do Divino Criador.
Mas o que os nossos irmãos do EI estão fazendo?
A resposta talvez recaia na pergunta contrária: o que foi feito aos partidários do EI, para que agissem assim? Então caímos no óbvio, mas difícil de ver: os povos que hoje formam o EI estiveram fora do jogo dos grandes poderes humanos por muito tempo. Em tempos recentes, sofreram o horror de dois dos mais pesados bombardeios aéreos do mundo. Um pouco antes, permaneceram oprimidos sob governos totalitários, do qual Saddam Hussein é apenas um exemplo, mas recorrente em diversos países. Menosprezados por Israel e as grandes potências ocidentais, aos quais o petróleo soa mais interessante que todo o resto (as vidas inexpressivas dos povos locais). Mais atrás ainda, as dominações colonizadoras europeias, nas quais o escravismo era uma opção. E então Gengis Khan, Cruzadas, Júlio César, Alexandre o Grande,... Essa pesada História traz poucas opções no cenário contemporâneo, talvez a China e seu típico trato estrangeiro, do que temos o vívido exemplo do Tibete... As perspectivas para as populações árabes nunca foram muito boas.
Impressiona a capacidade dos Bush pai e filho, de ver na descarga fatal de bombas, uma solução. Descarregando toda sorte de males sobre um povo, esperavam que brotassem flores? Simplesmente ignoraram a História e as eloquentes consequências das intervenções do homem europeu, em última análise, do homem branco. Os conflitos decorrentes de tantos anos de um ódio dormitante que alimentou mais e mais ódio. Por fim, o Obama, com sua tosca solução de simplesmente retirar as tropas, deixando o país à deriva, sem garantir uma mínima estabilidade política.
Mas as belas obras de arte, evidências do nascer da consciência, registros no berço da civilização, estatuária unindo crenças e ciência humana, o homem representado em boi, leão, águia e cobra. Os colossais testemunhos da antiguidade... Estamos assistindo um amargo repeteco: o dominador, soberano em seus valores parciais, destruindo o que julga inútil. Assistimos, em temos pós-modernos, a dominação de Pizarro, a queda de Montezuma, o assolamento da cultura indígena americana, a destrato ao povo africano, a perda da Sala de Âmbar nos arrastes nazistas, o massacre cultural das raças não-arianas, bem como a ruína da cultura alemã, promovida por seus próprios líderes e arrematada por russos e aliados.
Apesar da pirotecnia e barbarismo das cenas que nos chegam nos dias de hoje, ninguém de peso acena soluções (por favor, pelo bom senso, desconsiderem a proposta de Dilma em se conversar com os extremistas). No fim das contas, tantos foram os ataques ao povo árabe, que aparenta não haver sobrado disposição alguma para repelir a insanidade que assola o Oriente Médio.
terça-feira, 3 de março de 2015
Petistas de volta
Enrolado nos 12 anos de poder, o PT busca justificar que a turma do FHC agia assim, que o PSDB faz igual. Mas foi por ser diferente, que o povo colocou o PT no poder, para fazer a diferença!
E os partidários do PT aceitam e cerram fileiras como quem defende seu time de futebol desabado na segunda divisão. Mas ao contrário das quatro linhas, as consequências de um jogo político ruim refletem em toda a sociedade, todos saem perdendo, ficando a sociedade cada vez mais deteriorada e sedenta de ordem e progresso, saúde e educação, justiça e paz.
Os petistas, que eram tão informados de tudo o que acontecia na política, acusavam prontamente o erro, escancaravam a maracutaia, o que aconteceu? Silenciaram porque o PT fraquejou e sucumbiu à lama? Pois na lama não estamos todos agora?
Se os petistas se calaram, quem vai falar em seu lugar, quem vai lutar pelo país, expor e execrar a corrupção? O povo tem pressa e já se movimenta: os caminhoneiros paralisando rodovias, os professores e diversas categorias de servidores no Paraná fazem queda de braço com o Executivo e o Legislativo.
Mas para consertar o Brasil é preciso mais! Corruptores na cadeia, fim da impunidade, dos verbodutos, dos superfaturamentos, das mega-obras desnecessárias. O tempo se fez curto para reconstruir o país que ainda desejamos deixar para nossos filhos.
Oposição e situação já se mostraram tão iguais quanto pequenas, já não há mais bandeiras partidárias a defender. O PSDB do Covas? O PT do Lula? O PMDB, antigo MDB do Ulysses? O PV do filho do Sarney? Não, queremos uma nova política e precisamos de gente engajada em lutar por um Brasil melhor. E nessa luta, os petistas estão fazendo falta, muita falta.
E os partidários do PT aceitam e cerram fileiras como quem defende seu time de futebol desabado na segunda divisão. Mas ao contrário das quatro linhas, as consequências de um jogo político ruim refletem em toda a sociedade, todos saem perdendo, ficando a sociedade cada vez mais deteriorada e sedenta de ordem e progresso, saúde e educação, justiça e paz.
Os petistas, que eram tão informados de tudo o que acontecia na política, acusavam prontamente o erro, escancaravam a maracutaia, o que aconteceu? Silenciaram porque o PT fraquejou e sucumbiu à lama? Pois na lama não estamos todos agora?
Se os petistas se calaram, quem vai falar em seu lugar, quem vai lutar pelo país, expor e execrar a corrupção? O povo tem pressa e já se movimenta: os caminhoneiros paralisando rodovias, os professores e diversas categorias de servidores no Paraná fazem queda de braço com o Executivo e o Legislativo.
Mas para consertar o Brasil é preciso mais! Corruptores na cadeia, fim da impunidade, dos verbodutos, dos superfaturamentos, das mega-obras desnecessárias. O tempo se fez curto para reconstruir o país que ainda desejamos deixar para nossos filhos.
Oposição e situação já se mostraram tão iguais quanto pequenas, já não há mais bandeiras partidárias a defender. O PSDB do Covas? O PT do Lula? O PMDB, antigo MDB do Ulysses? O PV do filho do Sarney? Não, queremos uma nova política e precisamos de gente engajada em lutar por um Brasil melhor. E nessa luta, os petistas estão fazendo falta, muita falta.
Grito dos esquecidos
Faço minhas as palavras do médico Joáo Nelsi Lukenczuk, publicadas hoje, 03 de março de 2015, na Folha de Londrina, Opinião do Leitor, acerca da Greve dos Caminhoneiros:
Tive
a oportunidade de acompanhar o protesto dos caminhoneiros em vários trechos
rodoviários do país. A força da classe foi inegavelmente evidenciada pelo caos
que começou a ser provocado nos mais variados setores da sociedade brasileira.
Como qualquer trabalhador que luta no árduo mister de promover o progresso da
nação brasileira, o caminhoneiro tem suas alegrias e vicissitudes, entretanto,
nos últimos tempos, as agruras e os sofrimentos parecem predominar. Aquele que
sai de casa sem saber quando volta ou se volta, deixando os entes queridos
vários dias ou meses, alimentando-se e dormindo mal, muitas vezes até sem local
para fazer a própria higiene pessoal, não é valorizado. Além do mais, o desequilíbrio
receita/despesa vai cada vez mais acentuando: o baixo valor do frete contrasta
com a alta dos combustíveis e a exorbitância dos pedágios vai sepultando os
lucros, as esperanças e as ilusões desse bravo guerreiro das estradas. Nesse
episódio o desespero e a revolta foram evidenciados e coube aos caminhoneiros a
missão de ser os porta vozes de uma nação inteira, cansada de conviver com
tanta roubalheira e tantos desmandos. Não bastasse isso, temos ainda que arcar
com uma alta carga tributária. Parabéns caminhoneiros, que Deus os proteja e dê
muita força nessa arrojada e corajosa empreitada de repaginar nosso país pelo
grito dos esquecidos.
Autor: João
Nelsi Lukenczyk (médico) - Londrina
Publicado em: Folha de Londrina, Seção Opinião do Leitor, 03/03/2015
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