sábado, 21 de março de 2015

Sem remédio

Ano 1997, a Ponte dos Remédios, na capital paulistana, ameaçou ruir. Interdição do tráfego e obras emergenciais de pronto iniciadas, a imprensa também em campo registrou uma árvore crescendo entranhada na estrutura da ponte, revelando o descaso com esta e as demais pontes sobre o Rio Tietê. Publicada a notícia, os governos lavaram as mãos: o Municipal atribuiu a responsabilidade da manutenção ao governo Estadual, o qual, por sua vez, alegou ter sido responsável apenas por sua construção, cabendo à Prefeitura os cuidados decorrentes.

Ano 2014, a água em São Paulo ameaça acabar. O Governo Estadual afirma dominar a situação para lá de crítica e tenta jogar o problema para o Federal, o qual responde que os cuidados com a água são da Unidade Federativa.

Remediada, a Ponte dos Remédios segue como opção segura ao tráfego paulistano. Mas o abastecimento público fica com a raspa do tacho dos reservatórios e córregos mais próximos da megalópole. Milhões de cidadãos brasileiros permanecem em dramática contigência do recurso mais abundante em nosso país.

Seja nos transportes ou no bem mais básico e precioso, vivemos o descaso absoluto dos Poderes. Lotados por gente ávida pelos recursos financeiros amealhados dos caros impostos, somos indignos da mais comezinha promessa da campanha surgida da mente de algum marqueteiro.

Entramos em 2015 acostumados a monitorar a percentagem do Cantareira, o qual adentra novo período de estiagem com ainda menos água que no ano passado, sem outra perspectiva que não o racionamento. A solução está na produção de água, mediante procedimentos de segurança hídrica, com ações focadas na restauração do ciclo hidrológico natural, a única forma de recarga das águas dos mananciais e reservatórios superficiais e subterrâneos (aquíferos).

É preciso blindar os mananciais, impedindo a ocupação urbana deste espaço. As florestas são o meio pelo qual se retém a água no solo, evitando a perda das águas pela evaporação. Então, há que se recriar as matas ciliares, proteger as nascentes, reflorestar os terrenos íngremes, restabelecer a Reserva Florestal. É preciso revogar o Novo Código Florestal.

Além disso, há que cessar os desmatamentos, estancar o avanço das fronteiras agrícolas e restaurar - o máximo possível - os cinco biomas nacionais: Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia, Floresta com Araucárias, Pantanal.

Caso contrário, seguiremos despreparados para as críses hídricas vindouras, estiagens cada vez mais longas, intensas, severas. O que será de nossas cidades e nossas fronteiras agrícolas sem a água?

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