sábado, 24 de janeiro de 2015

Tios Amauri e Márcia

Amauri e Márcia, os grandes amigos de meus pais. Sua prole de 3 meninas e um menino conjugavam nossos 3 meninos e 2 meninas. As famílias se viam com tal frequência em missas, refeições dominicais, festas e férias, que formávamos uma grande família: pais "compadres", mães "comadres" e "tios" da criançada. Algumas das crianças chegavam a passar parte das férias junto à família amiga.

Nossa longa infância não podia ter sido mais espontânea! As duplas se estabeleceram conforme a faixa etária: a Tatá regulava com o meu irmão Marcos e a Dodora com minha irmã Tetê. A Nenês e minha irmã Cacaia eram inseparáveis, enquanto eu me esforçava para acompanhar o Duda, uns 3 anos mais velho que eu. Meu irmão Fernando, na condição de temporão, ficou sem um par, mas com a vantagem de ser paparicado por todos.

As crianças brincavam de pega-pega na saída da igreja Santa Cecília, fazendo de pique a imagem de Nossa Senhora e o poste de iluminação. Festas em casa garantiam divertidos esconde-escondes no jardim, enquanto a casa de Cambuquira nos reservava cabra-cega e mia-gato. Compartilhávamos o excelente Carvanal de Campanha no Colégio Sion, com direito a jogos de ping-pong no porão e exploração clandestina dos extensos corredores desativados nas férias daquela instituição. Jogos de baralho e de tabuleiro? A qualquer momento.

Trago muitas lembranças de nossa convivência e, mais que isso, tive o privilégio da educação e forja de caráter estando imerso nesse mundo, no qual convivíamos até mesmo nas madrugadas, em meus sonhos.

As lembranças de meus tios acerca de mim, datavam de mais cedo: Tio Amauri rezava o terço à porta do quarto onde minha mãe, recém-chegada da sala de parto, ansiava por notícias do menino prematuro que lutava pela vida, em algum lugar daquele hospital, em uma incubadora.

Tia Márcia foi minha professora na 4ª série do primário, simplesmente meu melhor ano na escola.  Como os demais colegas, eu a chamava "Dona Márcia", mas suas aulas foram de um interesse tal que fechei o ano com boletim em conceito 'A' (salvo "comportamento", uma disciplina avessa a um menino irrequieto, exibido e brincalhão). Acredito que firmei meu gosto pela escrita devido às suas aulas de produção de texto, na qual aplicava distintas técnicas e muita criatividade para nos ensinar redação e ortografia. Nem conto das aulas de matemática, história e religião: um passeio, eu estudava com gosto.

Já adulto, contei com a presença do querido casal em minha festa de formatura, quando "Dona Márcia" me presenteou um desenho eu havia feito para a minha então professora.

Certa noite, fui convocado à sua casa, para tratar de um assunto no qual pude lhes dar algumas orientações. Tia Márcia observou que "A vida é uma volta: olha aí o aluno ensinando a professora".

Em duas outras noites, troquei a balada por longas e profundas conversas com o Tio Amauri, em sua casa. Não perdi a oportunidade de lhe dizer que "O senhor sabe que eu o tenho em conta de pai".

Quando enfrentei um grave problema em um serviço no qual lidava com muitas dificuldades, pude contar com um precioso auxílio do Tio Amauri, o qual prontamente pôs em prática um dom especial que possuía, por sua elevada espiritualidade.

Conforme o tempo passava, me mudei para cidades cada vez mais distantes e já quase não os visitava, mas ainda assim, pude apresentar-lhes minha esposa e nossa neném. Certa vez estando lá na minha cidade-natal, liguei para o Tio Amauri pedindo desculpas por não poder estar com eles. Logo o telefone tocou de volta, com a Tia Márcia: "Você se lembrou da professora? Então espera que eu vou ler algo para você", passando a ler um belo texto com o qual me abençoava.

Cada um tomou a mão de Deus a seu tempo. Pela ocasião do falecimento da tia, abracei juntos o Tio Amauri e a Tatá, com muita emoção, apenas conseguindo desejar "Feliz Natal" (as festas de fim-de-ano se aproximavam). Na vez do tio, abri meu álbum de formatura na página com nossas fotos, acendi uma vela e rezei o rosário. Como bem diria a Tia Márcia, "a vida é uma volta": Tio Amauri rezou o rosário na minha chegada. Eu, na sua partida.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

No trem Florença-Roma

Venice is my home!” exclamou ela, os braços abertos em cruz, o rosto iluminado em sorriso. It’s a very nice city, we loved it so much!”, respondemos. Pouco depois, partimos no trem.

Até aqui, visitamos Venezia, Bologna, Pisa e Firenze. Agora seguimos de trem regional a Roma, a Cidade Eterna. Somos levados à capital do antigo Império Romano por túneis, vales, vinhedos, rios de cor bege acinzetado... uma cidade medieval, encarapitada sobre um monte! Uma viagem bela mas sonolenta, 4 horas regadas a Sudoku e essa escrita aqui no Blogger. Diferente mesmo foi a multa de  €10,00 que tivemos de pagar por não termos validado a passagem antes de embarcar (que marcada!).

Este ano de 2014 foi atípico e choveu muito aqui na Itália, mas a chuva contínua não foi nada bem recebida aqui, onde parreiras e oliveiras passam muito bem sem acqua.

É o nosso 9° dia de viagem e ainda nem é a metade das férias, mas já visitamos tantas chiese (igrejas) e musei (museus) que já perdi a conta. Apreciamos tantas obras de arte da roma clássica e da idade média que fica difícil dizer o que vimos de especial. Impressiona o quanto conhecíamos tão pouco deste período, mas precisaríamos dedicar muito mais tempo para realmente conhecer os fatores históricos e culturais nos quais estas obras foram criadas.

A dificuldade na apreciação das artes está no conhecimento do contexto histórico em que foram criadas, o que diz muito acerca de como devemos entendê-las e apreciá-las. A estátua do David de Michelangelo, por exemplo, recebeu notoriedade pela disposição do artista em trabalhar um bloco de mármore de qualidade ruim e que já havia sido abandonado por dois artistas de renome na cidade de Florença. O monolito já até possuía um apelido pejorativo, quando Michelangelo, na disposição dos 25 anos de idade, lançou-se ao trabalho e levou a obra a termo.

O feito coincidiu com o fim da longa dominação de mais de 300 anos da família Médici em Florença. A conquista de Michelângelo foi logo associada à conquista do povo fiorentino, estabelecendo a celebração de sua obra, com  notoriedade. Desta forma, tornou-se emblemática deste evento de libertário.

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E quanto há para se ver: em Florença, na Chiesa Santa Croce (Igreja da Santa Cruz), os túmulos de Michelângelo, Galileo Galilei, Macchiavel, Dante Allighieri,... Em Veneza, no Pazzalo Ducale (o Palácio Ducal), as dominações exercidas sobre a Rota da Seda, o caminho para o Oriente.

As obras, os nomes, se sucedem: Michelangelo, Leonardo da Vinci, Tintoretto, Veronese, Verrocchio, Bellini,... sem falar no astrônomo Galileo Galilei,  em Macchiavel, escritor político, e Dante Alighiere, autor da Divina Comédia. Gente que fez História!

A bem da verdade, minha ignorância só não brada mais alto porque ao menos li os capítulos inciais de “O Príncipe” de Macchiavel há alguns anos, em uma edição de bolso pinçada de uma gôndola de supermercado. Descobri aqui, que minha ignorância é coisa dantesca, maquiavélica. Terei de me dedicar a conhecer mais sobre esses caras e suas obras, garantindo um mínimo de dignidade para poder afirmar que estive no Vêneto e na Toscana.

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As chiesas, meus Deus, as chiesas! Essas obras do renascentismo, testemunhas do que nossa fôra nossa civilização e do que passou a ser! Estão lá, humildemente à disposição de quem apenas atenda à simples instrução “tirare” em suas portas. Uma porta que se abre para séculos passados, anteriores mesmo ao descobrimento do nosso Brasil.

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Em Pisa, adentramos duas igrejas aparentemente mal cuidadas e escuras, uma delas, a de Santa Catherina, enorme. Um ambiente a-m-p-l-o com poucos acessos à luz externa e apenas algumas velas que foram acesas pelos que ali oraram nas últimas horas! Um escuro ambiente da Era das Trevas. Ali orou o povo humilde, abnegado e subjugado da era medieval, ali imperou o medo das bruxas e da Inquisição, ali se exerceu o poder da realeza e nobreza.

Reis e nobres, gente que, por maior que tenha sido o seu poder, restam apenas seus nomes e brasõesinscritos nas várias lápides dispostas no chão, paredes e capelas laterais. Algumas lápides, por sinal, em lastimável estado de má-conservação, severamente prejudicadas pela ação do tempo. Em várias lápides, nem mesmo os nomes ali indicados escaparam ao dano. Talvez somente um estudo aprofundado em documentos específicos traga a luz seus nomes, talvez nem isso.

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Arriviamo a Roma!

Uma última noite no museu

Assisti ao filme Uma noite no Museu 3, um dos raros filmes sequenciados que se mantiveram interessantes. Cumpre sua proposta de comédia e ainda passa boas mensagens, com trechos que chegam a emocionar, de ternos que são.

Para mim, a melhor mensagem está no diálogo final entre Ben Stiller - o guarda do museu - e Robin Willians, no papel do Presidente Theodore Roosevelt (um boneco de cera representando o presidente americano). Esse diálogo traz um ponto de vista peculiar para uma situação crítica:

Ben Stiller - Eu não sei como será a minha vida a partir de amanhã.
Robin Willians - Que empolgante!

A mensagem que captei foi que a incerteza pode ser encarada como um fator de empolgação, fantástico!

Mas não posso me furtar a falar do que me pegou mais no coração: A última atuação do brilhante Robin Willians. Logo que vi o trailer me espantei de saber que veria um filme novo dele, afinal de contas!

Robin Willians... assisti a tantos de seus ótimos filmes que cheguei a me irritar quando o filme era só bom. Assisti inúmeras vezes a Good Morning Vietnam, que intrepretação, quanta energia!! Sociedade dos Poetas Mortos, quanto me inspira a provocar mudanças positivas nas gerações mais novas, criar um novo pensar! Uma babá quase perfeita, arrancando gargalhadas na pele de Mrs. Doubtfire. E mauitos mais: Hook, a volta do Capitão Gancho, Amor além da vida, Câmera indiscreta, Gênio indomável, Homem bi-centenário,...

A diversidade dos papéis que interpretou, a agilidade com que modificava sua voz, as expressões faciais com que transmitia uma completa alegria, sincera simpatia, profundo pesar,...  Com tantas qualidades, o que lhe faltou? Por que saiu de cena mais cedo?

Para respostas sem perguntas, nada melhor que resposta a todas as perguntas: Jesus. Que Ele perdoe suas faltas e, considerando o quanto você trabalhou tão bem os seus muitos talentos, que o aceite e o acolha na morada eterna. Que a luz do dia que nunca cessa brilhe para ti. Robin Willians, esteja com Deus.

Nos créditos do último filme em que atuou, uma singela homenagem ao ator:

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|      "A magia nunca acaba!"       |
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

No INPE

Das diversas histórias que formam a lenda do INPE, em São José dos Campos, onde atuei na década de 90, trago aqui duas ocorrências curiosas que contavam na ocasião:

Marciana

Em minha primeira semana lá, precisando emprestar um livro na biblioteca, me sugeriram conversar com a Marciana, bibliotecária. Em um local como o INPE, não resisti a imaginar que encontraria um ser verdinho e gosmento a organizar livros nas estantes. Mas pelo contrário, encontrei uma mulher de uns 35 anos esguia e esbelta, tez levemente morena, dotada de boa comunicação e focada em suas atividades profissionais. A narrativa abaixo mostra que não fui o único a julgar errado esta pessoa:

Certa vez, a Marciana se pôs a contatar a biblioteca de uma universidade, buscando emprestar um livro. Solicitada a prestar informações cadastrais, estabeleceu-se o seguinte diálogo:

- Seu nome, por favor?
- Marciana

- De qual instituição?
- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

- Qual o seu endereço?
- Avenida dos Astronautas...

Ao pronunciar esta última informação, seu interlocutor concluiu ser um trote e prontamente desligou o telefone!

Contagem regressiva

Naquela época, as operadoras telefônicas se resumiam às estatais, de forma que pra se fazer uma ligação interurbana, bastava o código da região, que em São José dos Campos era 012.

O prefixo do telefone do INPE era 345 e os ramais iniciavam em 6. Dentre os vários ramais disponíveis, havia o 6789, que tocava na sala de um pesquisador do Departamento de Meteorologia. Resumindo, o número de seu telefone era (012) 345-6789.

Alguns curiosos testavam a sequência óbvia do 0 ao 9, apesar de caras que eram as ligações interurbanas. Ligavam, perguntavam para que local haviam discado, ouviam algo como "INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais", agradeciam e, satisfeitos, encerravam a ligação. Mas teve um cara que mandou esta: 

- Pesquisas Espaciais? Tá errado, então! O certo não seria 9... 8... 7... 6... 5... 4... 3... 2... 1... 0!! 

O Luto no Sul de Minas de antigamente

Até metade do Século XX, o luto no Sul de Minas envolvia práticas rígidas para os parentes do falecido, que eram religiosamente seguidas: o ...