Amauri e Márcia, os grandes amigos de meus pais. Sua prole de 3 meninas e um menino conjugavam nossos 3 meninos e 2 meninas. As famílias se viam com tal frequência em missas, refeições dominicais, festas e férias, que formávamos uma grande família: pais "compadres", mães "comadres" e "tios" da criançada. Algumas das crianças chegavam a passar parte das férias junto à família amiga.
Nossa longa infância não podia ter sido mais espontânea! As duplas se estabeleceram conforme a faixa etária: a Tatá regulava com o meu irmão Marcos e a Dodora com minha irmã Tetê. A Nenês e minha irmã Cacaia eram inseparáveis, enquanto eu me esforçava para acompanhar o Duda, uns 3 anos mais velho que eu. Meu irmão Fernando, na condição de temporão, ficou sem um par, mas com a vantagem de ser paparicado por todos.
As crianças brincavam de pega-pega na saída da igreja Santa Cecília, fazendo de pique a imagem de Nossa Senhora e o poste de iluminação. Festas em casa garantiam divertidos esconde-escondes no jardim, enquanto a casa de Cambuquira nos reservava cabra-cega e mia-gato. Compartilhávamos o excelente Carvanal de Campanha no Colégio Sion, com direito a jogos de ping-pong no porão e exploração clandestina dos extensos corredores desativados nas férias daquela instituição. Jogos de baralho e de tabuleiro? A qualquer momento.
Trago muitas lembranças de nossa convivência e, mais que isso, tive o privilégio da educação e forja de caráter estando imerso nesse mundo, no qual convivíamos até mesmo nas madrugadas, em meus sonhos.
As lembranças de meus tios acerca de mim, datavam de mais cedo: Tio Amauri rezava o terço à porta do quarto onde minha mãe, recém-chegada da sala de parto, ansiava por notícias do menino prematuro que lutava pela vida, em algum lugar daquele hospital, em uma incubadora.
Tia Márcia foi minha professora na 4ª série do primário, simplesmente meu melhor ano na escola. Como os demais colegas, eu a chamava "Dona Márcia", mas suas aulas foram de um interesse tal que fechei o ano com boletim em conceito 'A' (salvo "comportamento", uma disciplina avessa a um menino irrequieto, exibido e brincalhão). Acredito que firmei meu gosto pela escrita devido às suas aulas de produção de texto, na qual aplicava distintas técnicas e muita criatividade para nos ensinar redação e ortografia. Nem conto das aulas de matemática, história e religião: um passeio, eu estudava com gosto.
Já adulto, contei com a presença do querido casal em minha festa de formatura, quando "Dona Márcia" me presenteou um desenho eu havia feito para a minha então professora.
Certa noite, fui convocado à sua casa, para tratar de um assunto no qual pude lhes dar algumas orientações. Tia Márcia observou que "A vida é uma volta: olha aí o aluno ensinando a professora".
Em duas outras noites, troquei a balada por longas e profundas conversas com o Tio Amauri, em sua casa. Não perdi a oportunidade de lhe dizer que "O senhor sabe que eu o tenho em conta de pai".
Quando enfrentei um grave problema em um serviço no qual lidava com muitas dificuldades, pude contar com um precioso auxílio do Tio Amauri, o qual prontamente pôs em prática um dom especial que possuía, por sua elevada espiritualidade.
Conforme o tempo passava, me mudei para cidades cada vez mais distantes e já quase não os visitava, mas ainda assim, pude apresentar-lhes minha esposa e nossa neném. Certa vez estando lá na minha cidade-natal, liguei para o Tio Amauri pedindo desculpas por não poder estar com eles. Logo o telefone tocou de volta, com a Tia Márcia: "Você se lembrou da professora? Então espera que eu vou ler algo para você", passando a ler um belo texto com o qual me abençoava.
Cada um tomou a mão de Deus a seu tempo. Pela ocasião do falecimento da tia, abracei juntos o Tio Amauri e a Tatá, com muita emoção, apenas conseguindo desejar "Feliz Natal" (as festas de fim-de-ano se aproximavam). Na vez do tio, abri meu álbum de formatura na página com nossas fotos, acendi uma vela e rezei o rosário. Como bem diria a Tia Márcia, "a vida é uma volta": Tio Amauri rezou o rosário na minha chegada. Eu, na sua partida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário