terça-feira, 11 de março de 2014

Um poço Corredor

Às 16h da tarde de um domingo frio com chuva leve e persistente, tudo o que se deseja é estar em sua própria cama. Mas fica difícil com seu irmão mais novo, insistindo em nadar na Serra: "Vamos lá, a gente vai todo fim-de-semana!" e também "A gente tem que ir!". Assim, levantei e troquei de roupa, a sunga por baixo. Pegamos as máscaras de mergulho, os snorkels e as nadadeiras, entramos no carro e rumamos para a Serra da Mantiqueira.

O local fica no Rio do Braço, a 20 km da nossa cidade de Cruzeiro, passando pela Vila de Pinheiros, em meio às montanhas que formam a base da Serra. Com o carro estacionado na beira do asfalto, caminhando a pé por 1 km de pasto, chega-se ao Corredor, o poço comprido, e com ao menos 3 metros de profundidade. Fica entre duas paredes rochosas de uns 4 metros de altura. Após este poço, uns 100 metros rio abaixo, existe o Poção, na base de uma extensa rocha inclinada, com uma cachoeira na chegada e um abrigo sob a rocha, ao lado desta.

Por uns dois anos, batemos cartão lá em todo sábado e domingo, com nossos amigos Mário, Coqueiro e Cléber (Kleber K). Johnnie Utah e Rodolfo também estiveram lá conosco. 

Em meu Gol quadradinho azul, subíamos a Serra ao som de Guns 'n' Roses: Yesterdays, November Rain, Stranged, Welcome to the Jungle, Comma marcaram época. Ao som destas notas, corríamos na pista que se erguia na cumeada das montanhas na base da Serra.

Com o carro estacionado na beira do asfalto, adentrávamos uma pequena área de plantio com uma bica de água abundante e fresca. Após beber da água e pular a cerca acima desta, tinha início a caminhada de 1 km em plano inclinado, tendo à direita a imponente escarpa da Serra da Mantiqueira, no domínio da Pedra da Mina; e à direita, láááá em baixo, distante, a cidade de Cruzeiro.

O local é pouco frequentado. Sem trilha demarcada, pisa-se terreno virgem, abrindo o seu próprio caminho em meio ao pasto. Atravessando mais uma cerca, segue-se até a Grande Árvore, próxima à Pedra Quebrada. Venta muito e já dá para ouvir a corredeira do rio. Então vem a descida do morro, que sempre descemos aos pulos, garantindo emoção e suspense a cada salto. Nunca nos machucamos fazendo isso. Caminhadas descontraídas, em plena liberdade.

Antes de chegar no rio, um último desafio: 10 metros de um barranco íngreme em terra nua, auxiliado por uma árvore posicionada na sua meia altura. Suas raízes também ajudam muito.

Chegamos! Estamos sobre a 'parede' direita do Corredor (à direita do fluxo do rio). Vê a água lá em baixo? É sempre verde e cristalina assim! A parede esquerda, do outro lado, parece bem próxima, mas pode saltar sem medo, nunca batemos nela (apesar de o Fernando quase dar com o pé ali). 

É isso: um corredor de uns 20 metros, com uns 4 metros de largura, água pura! As águas entram com a fúria de uma corredeira, formando um turbilhão de bolhas. Passam agitadas pelo Corredor e saem após ter seu fluxo dividido por um pedrão, que nos ajuda a marcar o término das brincadeiras.

Como todo rio de serra que se preze, as águas do Rio do Braço são ge-la-das. Mesmo nos dias mais quentes de verão. Mas nos dias mais quentes, quem vai chegando, já vai pulando! Nos dias mais frios, some a coragem: todos aguardam um corajoso que diga como estão as coisas lá por baixo. A resposta é sempre a mesma: quem ressurge do mergulho olha prá cima e grita 'tá quentinha!!'.

E lá ficávamos a tarde toda, ora no Corredor, ora no Poção lá embaixo. Em meio aos dois poços, as brincadeiras em um escorregador natural, tacar pedras na colméia sob uma parede rochosa... Também aproveitávamos para nos distrair com a vista das águas enfurecidas em um trecho onde toda a vazão do rio é exprimida numa largura de apenas meio metro. Em certa ocasião de estiagem, com menos água, mas com muita turbulência, finalmente pudemos escorregar ali!

Certa ocasião, ao subirmos de volta ao Corredor, corríamos para entrar no poço em meio ao próprio rio, exceto o Mário, que já ia à frente, galgando a parede direita. De lá, gritou: 'Cobra! Cobra!'. Paramos. Ao chegarmos no poço, a cobra verde já se abrigava sob a parede, onde morreu a pedradas (apesar de meus protestos em contrário). O Mário disse ser lindo como a cobra nada em superfície d'água. Uma oportunidade única que só ele aproveitou.

O Corredor proporcionou tantas brincadeiras quanto nossa criatividade foi capaz de proporcionar: competições para ver quem conseguia vencer a corredeira na entrada da água, lutas corporais sobre essa mesma entrada (vencia quem sobrasse em pé), mergulhos em profundidade, acompanhando a declividade do fundo (sempre na apneia), brincadeiras com as bolhas de água provocadas pelas corredeiras da entrada (milhões delas subindo à superfície como moedas prateadas), saltos em diversas posições.

Meu irmão e os amigos gostavam de saltar de ponta, desde o alto da parede. Lançavam o corpo no ar com muita determinação. às vezes solitários, às vezes em duplas ou trios. O Cléber, sempre inventando moda, teve a ideia de atravessar um pau de embaúba sobre o Corredor (apesar dos meus protestos...). De sobre o tronco, os saltos ficavam ainda mais emocionantes, pois este balançava e até conseguia projetar um pouco acima, quem de lá saltava.

Como nunca tive coragem para nenhum destes saltos, me restou inventar o que era possível a um reles mortal. 'Gente, olha só: pular em pé mesmo, mas olhando para cima! Dá mais emoção!'. Ok, todos concordavam que era legal, mas logo retomavam seus saltos de ponta. Então inventei de pular com os braços prendendo as pernas ao corpo, como fazíamos na piscina, quando crianças, o salto 'de bomba'. Mostrei o salto a todos e fiquei aguardando os resultados, lá embaixo. Justamente meu irmão Fernando foi tentar, mas partindo do tronco. Ao saltar, fez como pedi, dobrando as pernas e prendendo-as ao corpo, com os braços travando o conjunto. Mas desequilibrado pelo tronco, virou-se no ar e caiu de costas, uma altura de 4 metros! E lá vem o Fernando, boiando ao sabor da correnteza, olhos fechados, gemendo de dor. Acolhi meu irmão junto à pedra grande na saída do Corredor, aguardando os longos minutos necessários à sua recuperação.







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