quinta-feira, 13 de março de 2014

Vovó Tita

Meu pai se mudou para Cruzeiro na década de 50. Mineiro muito versátil, inteligente e de muita empatia, logo fez muitos amigos. Uma amizade especial foi travada com Dona Tita, a filha herdeira do Barão do Café naquelas paragens. Desta amizade resultou um gostoso convívio do qual pude, com meus irmãos, compartilhar em nossa infância.

Eu era muito pequeno, mas era fácil reconhecer que estávamos nos aproximando da casa da Vovó Tita: ela residia na Casa Grande que por alguns séculos dominou a área plana da atual cidade de Cruzeiro. Eu era um pequeno menino sentado no fundo banco do carro, só conseguindo enxergar o que havia de mais alto, lá fora. Assim, via a longa fachada assobradada de cor branca com batentes e janelas azuis, adornada junto ao telhado, com desenhos de cordas também azuis. Um lampião azul na esquina do prédio me confirmava onde estávamos e logo já estacionávamos na garagem. 

Havia uma escada de acesso pela garagem. Me lembro da Vovó Tita nos recebendo lá no alto da escada. Sempre por ali, a Iracema, sua criada, mulher alta, sempre de cabelos presos sobre a cabeça. Eram pessoas boas para as crianças.

Lá em cima, a sala grande era decorada com quadros e pratos na parede, cristaleiras, louças, lustres. Em uma despensa ao lado da sala, um largo pote à nossa disposição com biscoitos que adorávamos comer. Eram deliciosos! Hoje raramente encontro algum que iguale o sabor.

Em um canto de parede, a rede. Era o que me interessava, pois na verdade eu não achava muito o que fazer além de matar a curiosidade que me despertavam os artigos espalhados pela sala. Basicamente, eu achava a visita muito chata e que só eu não me divertia ali. Coisa de criança, lamento muito não aproveitado melhor aqueles momentos que hoje sinto terem sido tão gostosos.

A anfitriã se reunia em meus pais na sala de visitas que era uma ambiente dentro da sala grande, com cadeiras sobre um tapete de couro de boi. Nós crianças, ficávamos brincando pela sala enquanto os adultos conversavam. Um detalhe especial era o som dos passos sobre o chão de tábuas corridas.

Me lembro de ficar deitado na rede branca, no canto da grande sala. Esta sala possuía ainda uma capela anexa, guardando imagens sacras e uma decoração de beleza peculiar, ricamente enfeitada.

As últimas visitas aconteceram em 1977. Como minha casa precisou de uma reforma emergencial (o piso de cerâmica da cozinha estourou em uma noite de muito calor), Vovó abriu mais uma vez as portas de sua casa para lá residirmos por um mês. Mas já não era mais o casarão. Este havia sido desapropriado devido ao seu interesse histórico e cultural. Vovó Tita agora morava em uma casa  do outro lado da rua, construído com o dinheiro da desapropriação.

Vovó Tita agora gostava de ficar namorando a vista do casarão centenário: 'que saudades da minha casa!'. Faleceu em setembro de 1977, com quase 84 anos.


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