terça-feira, 3 de outubro de 2017

Algo de Noite dos Cristais no Brasil?


Como adorei caminhar sozinho pelas ruas da alemã Stuttgart, desde a manhãzinha, circulando pelas praças e igrejas, satisfeito por não entender nada do que falavam, aqui ou ali.  A língua era uma novidade e ouvi-la sem nada discernir me relaxava a mente. Era um domingo pacato e tudo transcorria normalmente.
 
Adentrei a noite percorrendo ruas desertas, silenciosas e recobertas das folhas do outono. De volta ao hotel fui surpreendido na Internet por uma nota no jornal local: aquele 9 de novembro de 2013 marcava os 75 anos da Kristallnach, a "Noite dos Cristais", quando os nazistas do füher se lançaram em repressão oficial aos judeus. Lojas quebradas e saqueadas, pessoas arrancadas de suas casas, ofendidas, ridicularizadas, espancadas e, inclusive, mortas. Diversas sinagogas arderam em chamas. 

Um livro registra o infame momento em que um soldado da SS urina sobre a sagrada Torá.

De toda a pompa e ostentação do período, resta o silêncio. Uma data histórica sem folguedos e sem nada a comemorar. A Kristallnach assinalou a ascensão do nazismo concomitante à dramática escalada nos abusos e as agressões aos judeus. Uma cena recorrente na iconografia da Segunda Guerra Mundial é a da soldadesca animada a separar famílias, aos empurrões e bofetões, arremessando homens para uma fila, mulheres a outra, enquanto idosos e crianças eram postos junto aos inservíveis ao trabalho.

Conheci alguns judeus que sobreviveram a esse período: uma senhora idosa que fugira de um campo de concentração com sua filha. Um homem com o braço marcado por um número tatuado, autor do livro "Quero viver!", onde narra a arraigada luta pela vida nos diversos campos por onde passou.

Também trabalhei com o idoso “Seu” Levi, o único remanescente de sua família após a guerra, com o qual estabeleci boa amizade. No início do milênio, atuávamos na área comercial da empresa Imagem em São José dos Campos, buscávamos viabilizar no Brasil os sistemas de "navigation on board", os hoje populares GPS automotivos. 

Seu Levi tinha um particular interesse em estabelecer bons contatos com os alemães, o que muito facilitou nossas missões comerciais com a Volkswagen, com o seu braço tecnológico Gedas e com a europeia Tele Atlas. Tão logo Seu Levi dava por cumpridos os entendimentos comerciais e afinados os diálogos, atenuava seu tom de voz e, criando um ambiente intimista, aplicava a pergunta de seu coração: "como aquilo pôde acontecer?"

Antes mesmo de o interlocutor formular resposta, Seu Levi assinalava o momento de sua infância, caminhando com seu pai pela calçada, quando um conhecido, oficial militar, se aproximou e os saudou efusivamente, para desconcerto de seu pai, que de pronto o alertou com gravidade: "Não faça assim, pode te causar problemas!", ao que o amigo retrucou "Não há o que temer! Tudo isso vai logo passar! O alemão é um povo cristão!".

Por ao menos três vezes assisti ao Seu Levi nesse diálogo, até que Jörn Malke, representante da Tele Atlas para a Volkswagen, lhe deu a resposta que melhor acalentou seu anseio: "Mas Seu Levi, na Alemanha não haviam cristãos!".

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A você leitor(a), resgatei essas memórias para conduzi-lo a esta reflexão que muito me angustia: do que esperar de nosso Brasil, quando já urinam em crucifixos e fazem troça de nosso Deus, o Senhor Jesus Cristo, em exposições ditas "artísticas" e peças teatrais? Para onde isto tudo irá evoluir, considerando-se que a história costuma se repetir? Como evitar que nosso país vivencie hoje os nefastos episódios da já longínqua Noite dos Cristais?
 
Observe-se que esse mesmo Estado já hesita em proibir manifestações públicas agressivas contra a família e anti-cristãos, deixando-se orientar pelo clamor das minorias extremadas.

E mais, veja como o Decreto Presidencial 7;037 de 2009 incentiva minar a família e seus valores! Isso não cria justamente o amparo legal para ações que apenas tendem a recrudescer em seu repertório de agressões à família cristã, tal como o fizeram com os judeus? 

Se estamos falando de uma História que se repete, que a inexorável derrocada das ideologias anti-cristãs dos "ismos" (nazismo, fascismo, comunismo) do século passado, nos sirvam de alerta.
 




domingo, 1 de outubro de 2017

Inocência manipulavel

Que tipo de artista proporia a uma exposição de artes, um homem despido e manipulado por crianças? Nenhum, pois que isto nada tem a ver com arte. Em qualquer país sério, essa ideia pérfida seria devidamente tratada no rigor da lei. 

Qual a justificativa para uma ideia tão estapafúrdia?  Qual o legado de um projeto tão abominável, além do que se agregue a práticas pedófilas dos interessados em replicar a "arte" às escondidas, presumivelmente indo além de uma "manipulação" preliminar?

E quanto às meninas que procederam a "manipulação", alguém lhes perguntou o que realmente esperavam de uma visita ao museu? O que realmente pretendiam fazer naquele dia? Certamente o que lhes foi oferecido não constava de seu ideário. Entendo que essas meninas foram violentadas em seus interesses, em seus direitos e em sua inocência.

Se a alguns agradam o brilho dos olhos, outrem preferem as remelas. E o que se espera de arte no âmbito cultural e educacional, acaba no esculacho de algo inconcebível e questionável mesmo a um filme pornô. E mais uma vez, nosso país desce um nível na escala das nações sérias.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Questionável heterossexual moral

Setembro quente em múltiplos sentidos, no clima, na política e no comportamento. Esse último...

Acabo de abandonar o canal Globo News, em favor da Band News, por conta do modo como os "globais" contestavam uma exibição de arte em Porto Alegre, abortada em uma rara ação de censura nestes tempos ultra-liberais. Eu, de minha parte, apoio plenamente a decisão: se agride, veta.

Por quê?

Desde 1968, a velocidades cada vez mais aceleradas, , nossa sociedade vivencia uma revisão quase irrestrita de valores. Foi-se embora a implacável Censura dos tempos da Ditadura, mas não sem marcar a classe artística e a imprensa, com verdadeira ojeriza por tudo o que se pense vetar.

E aos poucos, aquele antigo espírito do "é proibido proibir", evoluiu para um "tudo permitir" que nos impõe efeitos nefastos:
  • você chega de manhã na empresa e vai direto ao banheiro limpar o esperma respingado no ônibus, isso se não escapou de um jorro direto em seu pescoço;
  • enquanto usa o mictório, a conversa animada dos que usam os dispositivos ao lado, nada mais é que a disputa de quem vai ganhar o "galo", ou seja, você...
  • você recobra a consciência dias após dopado, despojado de bens e dignidade, abusado de inúmeras formas, incontáveis vezes;
  • alguém se dá por satisfeito, mas daquele momento em diante, você, exatamente você, despenderá cada dia de sua vida, tentando sublimar o doloroso momento em que se apropriaram de ti como um objeto qualquer.
A confusão é tanta, que mesmo levando à Justiça o caso mais escabroso, o juiz escamoteia a decisão sensata. Porque a moral virou tabu, substituída por uma ética que abriga conceitos imorais: ejaculou em público? É grave, mas não uma violência física...

Então, um instruído comentarista da Globo News vê na exposição de arte proscrita, uma verdadeira utilidade pública. A gente ilustrada afirma que cada um é livre para decidir... concessão às gentes depravadas, que prosperam sem nada somar na sociedade. Pelo contrário, subtraem e dividem.

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Nota: dos quatro exemplos "práticos", vivenciei o do mictório. Em agosto, mesmo, bem recente. Me senti inferiorizado ao me perceber o "galo" da rinha. Mas o que importa é não haver preconceitos, Eu, questionável heterossexual, que me comporte. 







terça-feira, 30 de maio de 2017

Um Brasil virado

O Brasil não avança um passo sem que se molhe a mão delinquente, suja como o rabo do urubu. O país verga sob a ignorância de gente hábil em gerir suas próprias contas e orgias,  desviando os caros recursos recolhidos da população trabalhadora em favor de seus mimos e interesses.

Um Brasil que se apequena ante três poderes que arrogam a si infindáveis direitos e benefícios, arrochados de aposentadorias e direitos negados ao povo.

O Brasil dos palácios escancara cargos comissionados, obras superfaturadas, propinas, joias, malas de dinheiro.

Seu legado é um Brasil que se perde em meio à bandidagem, à carência de valores, à cultura da bunda, cada vez mais virado em uma Síria, um Afeganistão, uma Venezuela.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Na Escola da Polícia Militar

Na manhã de hoje proferi uma palestra no tema água para cerca de 30 professores, no Colégio Estadual da Polícia Militar, na Vila Izabel, em Curitiba. Após a palestra, almocei com meus colegas da Sanepar e retornamos à escola.

Minha intenção era tão somente pegar minha mochila no auditório, porém não pude fazê-lo, dado que a turma de alunos da tarde havia tomado todo o pátio e acessos aos corredores, em ordem unida. Cantaram o Hino da Polícia Militar e ouviram as seguintes orientações de um oficial da Polícia Militar:

"Cuidem de honrar seu pai e sua mãe. Mesmo que aconteça de alguns tentarem apagar o seu brilho, mantenham os valores dos seus pais".

E continuou:

"Estão dizendo que o Brasil é um país corrupto, mas não é. Nossos líderes se corromperam, mas o povo brasileiro não é corrupto".

Proferidas estas sábias palavras, os alunos foram liberados enquanto recebiam instruções adicionais:"quem encontrar dificuldades procure um dos inspetores, ou os monitores,..."

Fiquei encantado com a disciplina dos jovens, que se direcionavam à sala de aula fileira após fileira, em absoluta organização. É bem verdade que havia um monitor cuidando de cada fila e emitindo ordens para que os procedimentos fossem cumpridos à risca. Tanta disciplina me levou a comentar com meus colegas: "se eu tivesse passado por uma escola dessas, das duas uma: ou eu teria sido expulso, ou eu seria uma pessoa melhor". Aposto na última opção, sim eu seria alguém melhor.

Bom saber que ainda existem escolas assim. Bom saber que alimentam em nossos jovens a esperança de um país livre da corrupção. Eu também acredito nisso. Aliás, o Brasil está mudando.

Durante minha palestra, alguém manifestou que a gestão dos mananciais "cabe ao Estado". Contra-argumentei dizendo que o Estado somos nós, cabe a nós propor, a nós cobrar, a nós falar. Claro que é preciso cuidado ao falar, frente a grandes interesses, mas se nós, formadores de opinião, nos calarmos, o que será?

O Brasil está mudando e a mudança depende de nós, a mudança somos nós.



sexta-feira, 19 de maio de 2017

A quem traz a mãe no coração

Conhecemos o Fábio tomando cerveja no balcão do Pick Nick, bar em Santa Felicidade, bairro de Curitiba. Jovem robusto, trabalhador e competidor de Jiu Jitsu, sua expressão gentil e voz suave nos proporcionou uma noite agradável, em diálogos sucessivos.

Naquela noite em que travamos contato, Fábio entreteve a mim e minha esposa em conversa fluída e animada, sobre cotidiano, política e religião. Ateu, ele afirmou não crer no céu, mas com uma fala surpreendente: “eu não acredito que o Céu exista, mas eu quero que exista, porque eu quero que a minha mãe possa entrar lá”.

Enternecido com seu pensar, propus a ele um caminho para o céu, com base em cuidados com o próximo, o necessitado, no qual se atende a Jesus. Afinal, a Deus importa que as mães entrem no Paraíso, mas que lá não estejam sozinhas.

A quem traz a mãe no coração, palavras de vida eterna surgem mesmo no bar, na cerveja, seja praticante de artes marciais, seja ateu.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Muda Brasil

Madrugada do dia 18 de maio de 2017, mais uma noite dura de dormir: o Presidente Michel Temer acusado de endossar negociações escusas para barrar a Lavajato. Mais um presidente bambo, o segundo consecutivo, em menos de um ano.

Mais um horizonte de incertezas, com as maiores empresas do país desvalorizadas nas bolsas mundo afora. O que acontecerá daqui para frente? O cenário se revela ainda mais incerto que na queda de Dilma. Lá, ao menos, havia a expectativa de um nome para assumir o poder, mas agora...

O Brasil está todo errado, desde as bases: as famílias estão presas em suas casas, acuadas pela bandidagem, mas vulneráveis às obscenas TVs abertas ou pagas e seus padrões tortos de beleza, estampados em bundas gordas, barrigas tanquinho e braços sarados, tudo recoberto de tatuagens que por vezes mais parecem manchas na pele.

Famílias escancaradas à Internet, que no limite tem ceifado vidas tenras, perdidas para o maligno “desafio” da baleia azul, com jovens entregando a própria saúde e a vida para algum desconhecido distante, em nome de cessar ameaças à sua família. Como se algo fosse pior que a perda de uma vida jovem.

Mesmo a religião que renova o espírito já dá espaço a quem desfigure a orientação espiritual, casos previstos por Jesus, de “cegos guiando cegos”.

O Estado dá suporte financeiro a vagabundos, ladrões, assassinos e estupradores, enquanto suas vítimas têm direito ao pranto e ao tratamento psiquiátrico.

Mesmo a Educação já não firma esperança às novas gerações, com escolas viradas em antros de propagação de comportamentos aleatórios, em uma crise de autoridade tal, que mesmo os professores percebem-se acuados, senão pelos alunos, por seus pais. Condições de trabalho asfixiantes.

Faltam recursos para ações estruturantes, sobram verbas para o futebol, festas e toda sorte de obra pública e negociata política. Aliás, há partidos políticos em excesso e um vazio de orientações ideológicas.

No ambiente democrático entorpecido, brasileiros arrogam a si mais direitos que deveres e ninguém mais se entende.

Uma única certeza: o Brasil precisa estancar a sangria, cessar a corrupção epidêmica, de Norte a Sul e das esferas federal à municipal. Chega de impunidade, chega de jeitinho. E basta de decisões malucas nas vias enviesadas de uma Justiça notabilizada por decisões contraditórias que beneficiam malandros, apenados e bon vivants, em detrimento do homem de bem.

O Brasil precisa acabar com as inversões e refazer uma escala de valores coerente, em que o trabalhador tem direito a salário justo, jornada de trabalho decente, aposentadoria no tempo certo, com valores definidos em coerência ao tempo trabalhado.

O Brasil não pode mais bancar cargos comissionados, benefícios aos ocupantes de cargos públicos, super-salários, aposentadorias estapafúrdias.

O Brasil não aceita mais a cultura da bunda, da malandragem e do jeitinho. O Brasil tem de fechar as portas ao erro, à sacanagem, ao malfeito.

O Brasil tem de preservar o meio ambiente, repeito à vida indígena, desmatamento zero! Punições severas aos predadores da fauna!

O Brasil tem de encontrar a saída para o atoleiro em que se enfiou sua sociedade.

Um bom ponto de partida reside em acabar com a impunidade, as 10 medidas contra a corrupção não podem mais esperar para valer.

Outro bom começo está em reduzir castas sustentadas pela massa trabalhadora. A carga de impostos é altíssima e o retorno de serviços ao cidadão é precário. Isso também tem de mudar.

A Lavajato tem de seguir adiante e literalmente lavar o que está podre em todo e qualquer partido político. O Brasil caiu na cilada ardilosa do maior esquema de corrupção da história mundial. É preciso erradicar esses muitos erros, o Brasil só conseguirá reerguer estando limpo dessa sujeira.

domingo, 23 de abril de 2017

Na padaria, um diálogo sobre vida

Nesta manhã, na padaria, aguardando concluírem o corte de queijo e mortadela para a cliente à minha frente, uma jovem de tênis, calça justa de moleton e agasalho, com seus cabelos longos levemente encaracolados, pintados em tons loiros e umedecidos. Na porta do estabelecimento, atrás de nós, se postam duas mulheres, as quais já tinha visto há alguns dias, na linha de ônibus São Bernardo, sentido centro, quando percebi serem mãe e filha, sendo a filha portadora de necessidades especiais, de pouca fala, mas sempre mantendo um sorriso que varia de intensidade na medida em que demonstra acompanhar os acontecimentos à sua volta. Muito animada, sua mãe tem um bebê no colo, de uns 4 meses: "É o meu neto!"

A moça loira se volta para elas, se mostrando surpresa: "mas eu nem vi ninguém grávida!", ao que a avó responde "É adotado!", adentrando o ambiente e se postando próximo a nós, junto ao balcão. A jovem sorri, ainda incrédula: "Sério?"

Eu passo a observar o menino de cabelos escuros e curtos, sombrancelhas curvas, Chupeta à boca, mãozinhas segurando o paninho, seus olhos calmos e observadores transmitindo paz.

A avó continuou, animada: "a mãe queria o aborto, mas minha filha Roxane convenceu a não abortar, prometendo registrar a criança em seu nome. Agora só falta sair a guarda!"

Eu sigo olhando o menino, agora com mais curiosidade, este pequeno testemunho de vida.

A atendente agora está livre e recebe o meu pedido de 8 pães, tipo francês.

Ao ser perguntada se "estão morando contigo?", a avó contrai a face demonstrando insatisfação e esclarecendo que "não. Mas ele fica alguns dias comigo, daí alguns dias com a Roxane e um dia com a mãe dele mesmo. Ela é casada e ele também não queria".

Pego o pacote bege de pães e pago a conta, enquanto a avó conclui: "ele tem duas mães, dois pais e quatro avós!". A mulher ao seu lado, sua filha especial, olha com alegria para a mãe e seu novo sobrinho.

Deixo a padaria, refletindo enquanto caminho para o carro. Reflito em como o amor dá vida e multiplica os bens.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Liberdade ao Tonhão

No próximo dia 13 de Junho completam 3 anos que Tonhão foi acordado em sua casa, na madrugada, e retirado de lá algemado, deixando esposa e filha neném. Não se sabe quem o acusou. 

Em sua casa e em seu carro não haviam drogas ou armas, mas de lá para cá, Tonhão já passou pela cadeia pública de Cruzeiro e o presídio de Potim. Atualmente está no presídio de Tremembé. Outras pessoas estão reclusas, suspeitas de participarem do mesmo crime, o assassinato de uma jovem. Ao Tonhão coube a acusação de ter entregado a arma do crime ao assassino, acusação mais tarde acrescida da entrega de drogas.

Já se provou a inocência de Tonhão quanto à entrega das drogas. Desta acusação ele foi absolvido. Cabe à justiça agora desvendar como foi possível ao Tonhão entregar a arma junto às drogas que não entregou. Todavia, o melhor mesmo é aguardar a conclusão do processo judicial, do qual se espera celeridade, resgatando a reputação de um pai de família querido em sua comunidade.

Celeridade é o que se espera da Justiça brasileira. A mesma Justiça que já se mostrou tão ágil ao anular todo o processo contra Genoíno, ao liberar o operador amigo do Eike, ao contornar a prisão de Guido Mantega para que ele acompanhasse a esposa enferma.

A Adriana Ancelmo foi permitido o convívio familiar, fato somente possível por estar obrigada a permanecer no apartamento, ação escassa no passado de jantares, festas e eventos junto ao marido que a mimava enquanto lesava o Estado do Rio de Janeiro. Porque Tonhão, apontado de forma tão etérea (uma foto no facebook), por tão leviano crime (a improvável entrega de arma e drogas a um bandido), segue encarcerado, distante de sua família?

Porque a suspeição de crime insere mais um prisioneiro em um sistema que já não comporta apenados? Porque o julgamento do Tonhão é tão arrastado? Porque não conceder liberdade a um homem sem passaporte, influência política nem dinheiro que justificassem o mais remoto temor pela fuga de um pai de família com residência fixa?

O dia 13 de Junho completará três anos da prisão do Tonhão. Mas neste próximo dia 28 de Abril está agendado o comparecimento do Tonhão ao Tribunal, evento este que já foi adiado duas vezes. No dia 28 de Abril, a Justiça brasileira tem uma ótima oportunidade de evitar que um terrível equívoco faça aniversário.

Sou amigo da mãe do Tonhão, mulher trabalhadora e honesta. Por reconhecer as virtudes desta mulher, a quem muito preocupa a ausência paterna na criação de sua netinha, faço singelo apelo a quem está responsável pelo processo do Tonhão, que cumpra seu dever e com a celeridade cabível, dê conclusão a este processo.


Peço também ao Senhor Deus, o Juiz dos juízes: Senhor, dai o Tonhão, sua vida de volta.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Nos Campos Gerais, no Céu

Travamos o primeiro contato via telefone, quando eu buscava saber se a prefeitura de Ponta Grossa dispunha de mapas digitais, para adquiri-los para os projetos de geoprocessamento da empresa Imagem, em São José dos Campos. Corria o ano 2000 e a privatização das "telecom" atraía empresas estrangeiras ávidas por informação do Brasil, de forma que eu tinha de caçar mapas de inúmeras cidades, de preferência no formato digital, o que era raro.

Bem humorada, Karin falava com rapidez, quase atropelando as sílabas, os "erres" sempre destacados. Bem disposta, se dispôs a esquadrinhar a produção cartográfica na área de Cadastro, supervalorizando seu esforço por conta dos pinos de alumínio nos joelhos, devido a uma queda de cavalo, havia tempos. Entabulamos uma conversa animada e ela reagiu com gargalhadas à minha acusação contra o quebra-molas no acesso a Ponta Grossa, que quase estragou uma viagem minha. Foi quando ela atirou: "Porque você não vem prá cá no fim-de-semana?", ouvindo com espanto o meu aceite "Estou indo!". Que tolice, "é claro que ele não vem".

Na tarde do sábado seguinte, estacionei à frente de uma casa de esquina no bairro Nova Rússia, ao término de uma viagem de 600 km. Ao meu lado, o inseparável amigo Marciel. Descemos do carro, um gol "quadradinho" branco, bati palmas. Me lembro bem da Karin, uma garota de 20 e poucos anos, descendo os poucos degraus à frente de sua casa, rindo e me chamando de maluco.

Nos recebeu em sua sala, ao mesmo tempo em que uma enorme aranha atravessou a parede oposta, próximo ao teto. Marciel e eu elogiamos a receptividade, as risadas já se transformaram em gargalhadas. Conhecemos sua mãe, comemos um bom bocado de delicioso doce de abóbora.

Meu Deus, quando me lembro desse "fim-de-semana", na verdade um feriado prolongado! O Paraná havia me encantado em 1996 e agora tornava a me acolher: as estradas, as paisagens amplas, o clima. Marciel registrava trechos em sua filmadora (enquanto depurava o fim de um relacionamento). Ouvíamos as oitavas de John Lennon e assistíamos às oitavas da harmônica paisagem, pontuada de majestosos pinheiros-do-paraná. "and my heart was beating fast" (Jealous Guy: https://goo.gl/SvUJkS).

Karin nos levou a todo lugar, contava tudo, explicava tudo: "esse semáforo foi copiado de Maringá, que aperfeiçoou o de Londrina. Custa uma nota!" Na Cachoeira da Mariquinha explicou que as rochas ali eram castigadas assim porque tudo ali já foi o fundo do mar! No caminho para lá, apontava as formações rochosas de talco. Na saída para Vila Velha indicou o hotel onde à noite os hóspedes podiam se reunir para ouvir histórias do tropeirismo. Nossa ida ao Cânion do Guartelá se deu por um "atalho" de dezenas de quilômetros em terra: os Campos Gerais! Adorei!

A meio caminho, paramos e descemos do carro para ver os extensos tapetes de soja. Marciel exclamou: "uma montanha de plantação!". Não resisti, passei pela cerca, corri campo adentro e brinquei de rodar "como a Noviça Rebelde!". Constatei que Julie Andrews só alcançou sucesso por ter girado em meio ao pasto e não à soja. Aquelas ramas me pegaram no contrapé e rapidamente desapareci da vista deles, jogado no chão duro e frio. Me levantei,  mas os dois permaneciam na cerca, sem fôlego, sem conseguir parar de rir. Felizmente o Marciel não filmou a micagem.

Já noite, voltando de carro do Cânion de Guartelá, avançando na estrada, Ponta Grossa luzindo, esparramada e distante, à nossa frente. Como estávamos em declive, a impressão que dava era a de uma imensa plataforma de luzes erguendo-se e aproximando-se lentamente. Ela disse que já havia chorado por ver essa paisagem. Seu noivo era um apaixonado por essa mesma visão. Marciel e eu exclamamos "Você foi noiva!?", ao que ela encerrou o assunto com decisão: "Fui. Mas isso é conversa pra uma cerveja".

Queríamos ainda nos encontrar com o Malinski, colega de curso no INPE. Indicamos o endereço e perguntamos se ela sabia onde ficava. "Se eu sei onde fica essa rua?". Nos pôs no carro e nos levou lá. Era a rua atrás de sua casa! Malinski nos recebeu ali em seu escritório e depois em sua casa, mostrou-nos seu álbum de casamento, conversamos e rimos muito, especialmente das peripécias de do impagável Sestini, colega em comum. Na noite seguinte, jantamos juntos em uma churrascaria do outro lado da rodovia.

Nos levou à reunião juvenil do Rotary, onde era presidente. A primeira em que se atrasou e por causa de mim. Fomos apresentados à turma e ganhamos botons com a "Taça" de Vila Velha. Ah, sim! Ela também atuava na Defesa Civil e estava em prontidão nas calamidades urbanas.

Tantas coisas vividas, tantas coisas ditas, um só "fim-de-semana"! Karin nos levava aos melhores restaurantes, caaaros... Outros nem tanto: a deliciosa Happen Pizzaria, a lanchonete que intercalava músicas dos Beatles e de Elvis, o boliche.

Algumas vezes tentei esticar a viagem até Curitiba, mas ela chantageava cruelmente com o doce de abóbora de sua mãe. E lá permanecíamos.

Ao nos ajudar a encontrar hospedagem, uma surpresa: a cidade sediava um simpósio de odontologia, os hotéis estavam lotados. Para sorte nossa. Ela simplesmente tentou nos encaixar no hotel mais sofisticado e foi caindo o padrão, com miul pedidos de desculpas, a cada nova tentativa. Fomos hospedados no Lua Cheia, um hotelzinho próximo à rodoviária, com banheiro coletivo. Ela não sabia como se desculpar, nós ríamos! Tudo bem, à exceção de que na falta de garagem, meu carro dormiu na rua, me trazendo dificuldades para cair no sono.

Voltamos a São José, mas Karin resistia: enviou doce de abóbora por um conhecido que passaria por lá.

Três anos após, a notícia de que eu trabalharia em Curitiba. Karin comemorou por e-mail: "YES!". Logo que me organizei em um apartamento, agendamos um fim-de-semana em Ponta Grossa. Presentei cosméticos exclusivos da indústria onde eu trabalhava (ela adorava tirar chinfra das amigas) .Trocamos livros e CDs. Assistimos Matrix 2 e ao fim da sessão ela me explicou tudo do que se tratava no filme. Comemos pizza, conversamos muito, ela me dispôs seu quarto e sua cama. Se despediu e não se incomodou de dormir na sala.

Na manhã seguinte, antes de seguir ao aeródromo onde apoiava um evento da prefeitura, atendeu ao meu pedido de conhecer o bosque da cidade. Conversamos sobre espiritualidade, a danada também vivia em profundidade nessa área, embora nossas crenças divergissem. Contou um episódio de vidas passadas, na condição de sacerdote assistiu à invasão de seu templo egípcio, assistindo à turba que invadia e corria em sua direção. Estática aguardou o momento certo para dar a ordem que fez seus serviçais afetarem as colunas principais, fazendo tudo vir abaixo: "só aí são três mil pontos cármicos!". E ria, sempre bem humorada. Nada disso consta em minhas crenças, mas nos respeitávamos até ideologicamente.

Aliás, ela era inteligentíssima! Assinava seus e-mails "Karin TIM - Porque tudo é uma questão de Talento, Inteligência e Modéstia". Ainda por telefone me explicou o movimento judaico do hassidismo, coisa que eu desconhecia totalmente. Ela conhecia tantas coisas!

Algum tempo depois voltei à sua casa para apresentar minha namorada e futura esposa, Dulcinéia. Ainda após, Karin esteve em um curso em Curitiba, oportunidade na qual conheceu meu apê e com a Dulci almoçamos no restaurante vegetariano Sorella.

Os anos se passaram. Várias vezes estive em reuniões em Ponta Grossa, pela Sanepar. Passei perto, a serviço rumo a Castro e Guarapuava, e a passeio, à caça das cachoeiras gigantes de Prudentópolis. Ainda no ano passado pernoitei em sua cidade, retornando tarde da noite, da escola agrícola de Castro. Sempre tive a certeza de que seria bem recebido, bastaria apenas me organizar melhor no tempo.

2017. Véspera do meu aniversário, agendada uma palestra do Dia da Água em Ponta Grossa. Logo cedo me dei conta: convidar a Karin! Escrevi seu nome no Google, retornando a notícia derradeira motivada por um AVC, apenas dois meses atrás. Desconcertado, incluí um slide final, com sua foto e seu nome: "Antes de terminar, eu gostaria de fazer uma homenagem singela a uma mulher que foi servidora municipal por 20 anos. A Karin foi um exemplo, alguém que eu tive o prazer de conhecer. Ela era solteira e não deixou filhos, mas deixou um legado e aumentou a nossa responsabilidade."

Gente como eu valoriza momentos extensivos de introspecção, o que não deixa tanto espaço quanto gostaríamos para o convívio social. Lamentável não tomar pulso do próprio tempo, deixando escoar a escassa oportunidade de convívio com pessoas tão singulares como a Karin.

Encontrei um pouco mais de informação a seu respeito neste link https://goo.gl/io2KG7, publicado por ocasião do falecimento de seu pai Guilherme, dois anos antes. Soube então que sua mãe biológica falecera poucos dias após o parto, então aquela senhora com quem morava e dedicava atenção filial era, na verdade, sua avó. Deixou irmãos e sobrinhos. As raízes de sua família estão fincadas no tropeirismo, o que explica em parte sua paixão por Ponta Grossa e os Campos Gerais. Ela vivia e respirava aquilo tudo.

Seu amor por sua terra ajudou a despertar e consolidar o meu gosto por esta Região Sul. Sou grato por tê-la conhecido e convivido, ainda que tão menos quanto deveria. Agradeço ao senhor tantas pessoas realmente boas em meu caminho, como a Karin.

Karin Cristina Madureira de Paula, um nome para se agradecer. Que Deus a receba no Céu, mais precisamente na região dos Campos Gerais Celestes.












O Luto no Sul de Minas de antigamente

Até metade do Século XX, o luto no Sul de Minas envolvia práticas rígidas para os parentes do falecido, que eram religiosamente seguidas: o ...