Como adorei caminhar sozinho pelas ruas da alemã Stuttgart, desde a manhãzinha, circulando pelas praças e igrejas, satisfeito por não entender nada do que falavam, aqui ou ali. A língua era uma novidade e ouvi-la sem nada discernir me relaxava a mente. Era um domingo pacato e tudo transcorria normalmente.
Adentrei a noite percorrendo ruas desertas,
silenciosas e recobertas das folhas do outono. De volta ao hotel fui
surpreendido na Internet por uma nota no jornal local: aquele 9 de novembro de
2013 marcava os 75 anos da Kristallnach, a "Noite dos Cristais",
quando os nazistas do füher se lançaram em repressão oficial aos judeus. Lojas quebradas e saqueadas, pessoas arrancadas de suas casas, ofendidas,
ridicularizadas, espancadas e, inclusive, mortas. Diversas sinagogas arderam em chamas.
Um livro registra o infame momento em que um
soldado da SS urina sobre a sagrada Torá.
De toda a pompa e ostentação do período, resta o silêncio.
Uma data histórica sem folguedos e sem nada a comemorar. A Kristallnach
assinalou a ascensão do nazismo concomitante à dramática escalada nos abusos e
as agressões aos judeus. Uma cena recorrente na iconografia da Segunda Guerra
Mundial é a da soldadesca animada a separar famílias, aos empurrões e bofetões,
arremessando homens para uma fila, mulheres a outra, enquanto idosos e crianças
eram postos junto aos inservíveis ao trabalho.
Conheci alguns judeus que sobreviveram a esse
período: uma senhora idosa que fugira de um campo de concentração com sua
filha. Um homem com o braço marcado por um número tatuado, autor do livro
"Quero viver!", onde narra a arraigada luta pela vida nos diversos
campos por onde passou.
Também trabalhei com o idoso “Seu” Levi, o único
remanescente de sua família após a guerra, com o qual estabeleci boa amizade.
No início do milênio, atuávamos na área comercial da empresa Imagem em São José
dos Campos, buscávamos viabilizar no Brasil os sistemas de "navigation on
board", os hoje populares GPS automotivos.
Seu Levi tinha um particular interesse em estabelecer bons contatos com os alemães, o que muito facilitou nossas missões comerciais com a Volkswagen, com o seu braço tecnológico Gedas e com a
europeia Tele Atlas. Tão logo
Seu Levi dava por cumpridos os entendimentos comerciais e afinados os diálogos, atenuava seu tom de
voz e, criando um ambiente intimista, aplicava a pergunta de
seu coração: "como aquilo pôde acontecer?"
Antes mesmo de o interlocutor formular resposta, Seu Levi
assinalava o momento de sua infância, caminhando com seu pai pela calçada,
quando um conhecido, oficial militar, se aproximou e os saudou efusivamente,
para desconcerto de seu pai, que de pronto o alertou com gravidade: "Não
faça assim, pode te causar problemas!", ao que o amigo retrucou "Não
há o que temer! Tudo isso vai logo passar! O alemão é um povo cristão!".
Por ao menos três vezes assisti ao Seu Levi nesse
diálogo, até que Jörn Malke, representante da Tele Atlas para a Volkswagen, lhe
deu a resposta que melhor acalentou seu anseio: "Mas Seu Levi, na Alemanha
não haviam cristãos!".
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A você leitor(a), resgatei essas memórias para
conduzi-lo a esta reflexão que muito me angustia: do que esperar de nosso
Brasil, quando já urinam em crucifixos e fazem troça de nosso Deus, o Senhor
Jesus Cristo, em exposições ditas "artísticas" e peças teatrais? Para onde isto tudo irá evoluir, considerando-se que a história costuma
se repetir? Como evitar que nosso país vivencie hoje os nefastos episódios da
já longínqua Noite dos Cristais?
Observe-se que esse mesmo Estado já hesita em proibir manifestações públicas agressivas contra a família e anti-cristãos, deixando-se orientar pelo clamor das minorias extremadas.E mais, veja como o Decreto Presidencial 7;037 de 2009 incentiva minar a família e seus valores! Isso não cria justamente o amparo legal para ações que apenas tendem a recrudescer em seu repertório de agressões à família cristã, tal como o fizeram com os judeus?
Se estamos falando de uma História que se repete, que a inexorável derrocada das ideologias anti-cristãs dos "ismos" (nazismo, fascismo, comunismo) do século passado, nos sirvam de alerta.
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