"Quantos anos você acha que eu tenho?!", me perguntou, de um jeito divertido, mas um tanto indignado e decidido a esclarecer que eu estava equivocado: "eu tenho 21 anos!". Não me surpreendeu, mas percebi perguntar sobre a construção de Brasília já eram demais. Ainda assim, Mário Marcos Gonçalves dominava muitos mais assuntos do que se poderia esperar de alguém com sua idade.
Natural de Guaxupé-MG e recém-formado, o jovem havia conquistado um posto de trabalho na FNV, a Fábrica Nacional de Vagões, em minha cidade natal, Cruzeiro-SP. A antiga amizade de nossos pais favoreceu que Mário Marcos tomasse parte nos almoços de domingo lá em casa, oportunidade para que nos brindasse com seu conhecimento e suas muitas histórias.
Entre goles de coca-cola, garfadas de macarrão e fatias de torta, acolhíamos os relatos de suas viagens, descrições de igrejas e mistérios de Ouro Preto e Mariana, além de causos da Inconfidência Mineira e aventuras em Parques Nacionais. As tardes intermináveis de domingo eram regadas a carteados de Buraco e Krapot, partidas de xadrez e Atari (meu video-game) ou CP-300 (seu computador).
Sua narrativa que mais me marcou foi a exploração de uma mina de ouro abandonada em Ouro Preto, apoiado por um amigo espeleólogo:
"A entrada da mina estava em propriedade privada, próxima à casa da proprietária. Com sua permissão, pudemos entrar. As galerias internas eram - a princípio - organizadas e bem estruturadas. mas o túnel de formato retangular já logo à frente foi perdendo a forma, chegando a de difícil passagem."
"Seguimos nos arrastando no chão, na horizontal, por um conduto que ia se afunilando, a passagem ficava cada vez mais estreita. Comecei a me preocupar com a possibilidade de meu amigo, que seguia à frente e era maior que eu, ficar entalado. Foi quando me perguntei: 'o que estou fazendo aqui?'. Eram toneladas de terra acima, abaixo, por todos os lados!"
"Naquele trecho, o túnel voltava a ser bem estruturado, com acessos laterais perpendiculares dispostos com regularidade. Entendemos ser uma outra entrada da mina, mas a abertura para fora pode ter sido fechada por um desmoronamento."
"Chegamos a um salão maior que os demais, com muita água acumulada no chão, aos pés de uma parede alta de quartzo."
Seus relatos da trilha percorrida na Serra da Canastra ('
tinha orquídea!'), da subida ao Pìco do Itacolomi, de passeios de caiaque, selaram em mim uma paixão pela aventura em ambientes naturais.
Mais do que palavras, fomos conhecer de perto o Parque Nacional de Itatiaia, onde conhecemos a cachoeira do Véu-da-Noiva (enfim, entrei em uma cachoeira da Serra!!) e o Vale dos Lírios. Foram ocasiões em que eu percebi que a Serra da Mantiqueira podia ser mais que uma bela paisagem em minha janela: estava acessível! Mas nem por isso consegui convencê-lo a irmos lá ver a neve, no inverno de 1985.
Ao me transmitir sua forma simples e divertida de ser, Mário Marcos me ensinou que podemos fazer os sonhos se realizarem. Respondi tudo isso nos anos que se seguiram, percorrendo trilhas, subindo montanhas, acampando, mergulhando em rios, lagos e mares, explorando cavernas, viajando em busca de locais onde praticar rapel e rafting. Não fiz escalada com grampos, mas cheguei perto, frequentando as primeiras aulas de um curso para este fim (ah, o medo de altura...).
As pipas foram um capítulo à parte: Mário Marcos comprou varetas chinesas e me ensinou a construir um enorme 'colibri' e uma grande 'pipa-flor'. Esta última encapada com papel celofane vermelho e rabiola em celofane verde. A luz do sol atravessava o celofane, projetando no chão as cores vibrantes da pipa. Ainda hoje, às vezes, sou surpreendido pela súbita lembrança da 'sombra' colorida da pipa-flor. Que boa lembrança, que boa saudade!
Compartilhávamos o mesmo gosto por Beatles e fui apresentado a Pink Floyd e Vangelis. Mário Marcos também tentou me fazer gostar de Caetano Veloso, que à época fazia sucesso com
Shine moon, mas desse eu precisei de mais tempo para me interessar.
Hair era o seu filme preferido. Assistimos a Gritos do Silêncio (
The killing fields), uma história real que me impressionou muito, mas que apenas recentemente - após muito rever - compreendi na íntegra.
Meu amigo também relatava a vida nas repúblicas estudantis de Ouro Preto-MG, onde tinha a incubência de elaborar
'planos mirabolantes e infalíveis' para a conquista de garotas. Falava de paqueras, mecânica de motos e carros, fotografia, hotel mal assombrado, programação, tinha a intenção de montar um jogo de computador sofisticado, sobre finanças ('
jogos de ação já existem muitos, eu posso fazer algo diferente'). Falava dos cursos que frequentara, dos quais Mineralogia haverei de estudar!
Sempre dava uma boa resposta para uma boa dúvida: a função do farol de milha, porque a lua é maior próxima ao horizonte, aerodinâmica,...
Mário Marcos falava com calma e de forma pausada, encadeando as idéias e instigando a saber mais um pouco. Ficava um gostinho de quero mais. A fluência de suas conversas cativava a todos, estabelecendo empatia com meus pais, meus irmãos mais velhos e meu irmão caçula. Sou grato a ele por muito do que empreendi e venho realizando desde então.
Tive a honra de conhecer sua família, quando me convidou a passar o fim-de-semana em sua cidade natal. Já com 15 anos, segui atentamente o conselho materno:
'comporte-se e te convidarão a voltar mais vezes'. Lá em Guaxupé, sua mãe se desfez em atenções, estando conosco sempre que possível. Seu pai, arquiteto, conversava entusiasmado:
"reclamaram que quebraram 10 das 100 árvores que plantamos na via. Mas é justamente isso! De 100, quebram 10, então de 1000, quebrarão 10. Conseguimos que as árvores cresçam!". Seu irmão, Binho, impagável:
'você perdeu o amor à vida ou o respeito à morte?'. Também conheci sua namorada, Míriam, futura esposa.
Quando fiz o Pico das Agulhas Negras, em 1996, assumi o compromisso pessoal de lhe enviar uma carta e fotos. Minha letargia em escrever cartas, no entanto, me fez ficar na vontade. Pouco mais de um ano após, em uma tarde de domingo, meu pai irrompeu na sala de TV:
"Estou tentando confirmar uma notícia horrível!". Ao retornar para Poços de Caldas após almoçar com seus pais em Guaxupé, uma Kombi cruzou a pista em que Mario Marcos seguia ao lado de sua esposa. Ela sobreviveu e algum tempo após, enviou-nos um convite para a exposição que organizara com material fotográfico produzido pelo seu falecido marido, na Serra da Canastra.
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Naquele ano de 1984, após 4 horas de uma viagem animada, chegáramos à sua casa em Guaxupé. Mário Marcos beijara e abraçara seus pais e, animado e falante, ao abrir a geladeira, exclamou, agitando os braços: "Oba! Oba! Oba! Cerveja!!!". Eu ría às gargalhadas!