segunda-feira, 20 de julho de 2015

Pequenas ações, grandes valores

Curitiba, 2015

O ônibus da linha São Bernardo chegou ao ponto final na Praça Tiradentes. Eu já estava bem atrasado para o início do expediente, mas antes de descer do ônibus me detive e estendi a mão a uma senhora idosa, que também se dirigia à porta. Ela de pronto segurou a minha mão e - com os olhos atentos aos degraus e ao que pudesse oferecer apoio nas laterais. Descer o último degrau foi o mais penoso e precisei apoiá-la em ambos os braços. No piso da calçada, aquela senhora de cabelos lisos e brancos, rosto largo e olhos azuis ampliados pelas lentas dos óculos, olhou atentamente para mim, desejando-me "um dia a mais de vida".

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São Paulo, 2009

O coordenador da equipe abastecia a !cantina' anexa à nossa sala de trabalho, abraçado a um grande saco com cerca de três dezenas de pães, que estariam à disposição dos funcionários, para serem consumidos com manteiga Aviação e copos de café, café com leite, achocolado ou capuccino. Ao término do expediente, as luzes daquela sala do DER (Metrô Armênia) eram apagadas, deixando-se para trás uma boa quantia de pães, que seriam descartados na manhã seguinte, quando a nova remessa de pães chegasse.

Naquela época, eu ocupava um quarto no Hotel Concorde, na Rua Sílvia, Bela Vista. Como passasse a semana longe da família, tinha por costume uma caminhada noturna até a Paulista, indo e voltando pela alameda Rio Claro, que ladeia o antigo Hospital Matarazzo, então em aparente estado de abandono. Ao longo de seus altos muros, diversas pessoas improvisavam um meio de passar a noite.

Não demorou muito para que eu percebesse o potencial daquelas sobras de pães na nossa sala do DER, onde normalmente era eu quem apagava as luzes. 

Um deles, sentado sobre algumas mantas estendidas no chão, estendeu a mão direita e, com um sorriso que denunciava firme satisfação, recebeu o pão e me retribuiu com um voto inestimável: "E pão você terá!".

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A prosperidade materializada no desejo sincero de um coração. Difícil imaginar como conseguir algo maior.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Mário Marcos

"Quantos anos você acha que eu tenho?!", me perguntou, de um jeito divertido, mas um tanto indignado e decidido a esclarecer que eu estava equivocado: "eu tenho 21 anos!". Não me surpreendeu, mas percebi perguntar sobre a construção de Brasília já eram demais. Ainda assim, Mário Marcos Gonçalves dominava muitos mais assuntos do que se poderia esperar de alguém com sua idade.

Natural de Guaxupé-MG e recém-formado, o jovem havia conquistado um posto de trabalho na FNV, a Fábrica Nacional de Vagões, em minha cidade natal, Cruzeiro-SP. A antiga amizade de nossos pais favoreceu que Mário Marcos tomasse parte nos almoços de domingo lá em casa, oportunidade para que nos brindasse com seu conhecimento e suas muitas histórias.

Entre goles de coca-cola, garfadas de macarrão e fatias de torta, acolhíamos os relatos de suas viagens, descrições de igrejas e mistérios de Ouro Preto e Mariana, além de causos da Inconfidência Mineira e aventuras em Parques Nacionais. As tardes intermináveis de domingo eram regadas a carteados de Buraco e Krapot, partidas de xadrez e Atari (meu video-game) ou CP-300 (seu computador).

Sua narrativa que mais me marcou foi a exploração de uma mina de ouro abandonada em Ouro Preto, apoiado por um amigo espeleólogo:

"A entrada da mina estava em propriedade privada, próxima à casa da proprietária. Com sua permissão, pudemos entrar. As galerias internas eram - a princípio - organizadas e bem estruturadas. mas o túnel de formato retangular já logo à frente foi perdendo a forma, chegando a de difícil passagem."

"Seguimos nos arrastando no chão, na horizontal, por um conduto que ia se afunilando, a passagem ficava cada vez mais estreita. Comecei a me preocupar com a possibilidade de meu amigo, que seguia à frente e era maior que eu, ficar entalado. Foi quando me perguntei: 'o que estou fazendo aqui?'. Eram toneladas de terra acima, abaixo, por todos os lados!"

"Naquele trecho, o túnel voltava a ser bem estruturado, com acessos laterais perpendiculares dispostos com regularidade. Entendemos ser uma outra entrada da mina, mas a abertura para fora pode ter sido fechada por um desmoronamento."

"Chegamos a um salão maior que os demais, com muita água acumulada no chão, aos pés de uma parede alta de quartzo."

Seus relatos da trilha percorrida na Serra da Canastra ('tinha orquídea!'), da subida ao Pìco do Itacolomi, de passeios de caiaque, selaram em mim uma paixão pela aventura em ambientes naturais.

Mais do que palavras, fomos conhecer de perto o Parque Nacional de Itatiaia, onde conhecemos a cachoeira do Véu-da-Noiva (enfim, entrei em uma cachoeira da Serra!!) e o Vale dos Lírios. Foram ocasiões em que eu percebi que a Serra da Mantiqueira podia ser mais que uma bela paisagem em minha janela: estava acessível! Mas nem por isso consegui convencê-lo a irmos lá ver a neve, no inverno de 1985.

Ao me transmitir sua forma simples e divertida de ser, Mário Marcos me ensinou que podemos fazer os sonhos se realizarem. Respondi tudo isso nos anos que se seguiram, percorrendo trilhas, subindo montanhas, acampando, mergulhando em rios, lagos e mares, explorando cavernas, viajando em busca de locais onde praticar rapel e rafting. Não fiz escalada com grampos, mas cheguei perto, frequentando as primeiras aulas de um curso para este fim (ah, o medo de altura...).

As pipas foram um capítulo à parte: Mário Marcos comprou varetas chinesas e me ensinou a construir um enorme 'colibri' e uma grande 'pipa-flor'. Esta última encapada com papel celofane vermelho e rabiola em celofane verde. A luz do sol atravessava o celofane, projetando no chão as cores vibrantes da pipa. Ainda hoje, às vezes, sou surpreendido pela súbita lembrança da 'sombra' colorida da pipa-flor. Que boa lembrança, que boa saudade!

Compartilhávamos o mesmo gosto por Beatles e fui apresentado a Pink Floyd e Vangelis. Mário Marcos também tentou me fazer gostar de Caetano Veloso, que à época fazia sucesso com Shine moon, mas desse eu precisei de mais tempo para me interessar. Hair era o seu filme preferido. Assistimos a Gritos do Silêncio (The killing fields), uma história real que me impressionou muito, mas que apenas recentemente - após muito rever - compreendi na íntegra.

Meu amigo também relatava a vida nas repúblicas estudantis de Ouro Preto-MG, onde tinha a incubência de elaborar 'planos mirabolantes e infalíveis' para a conquista de garotas. Falava de paqueras, mecânica de motos e carros, fotografia, hotel mal assombrado, programação, tinha a intenção de montar um jogo de computador sofisticado, sobre finanças ('jogos de ação já existem muitos, eu posso fazer algo diferente'). Falava dos cursos que frequentara, dos quais Mineralogia haverei de estudar!

Sempre dava uma boa resposta para uma boa dúvida: a função do farol de milha, porque a lua é maior próxima ao horizonte, aerodinâmica,...

Mário Marcos falava com calma e de forma pausada, encadeando as idéias e instigando a saber mais um pouco. Ficava um gostinho de quero mais. A fluência de suas conversas cativava a todos, estabelecendo empatia com meus pais, meus irmãos mais velhos e meu irmão caçula. Sou grato a ele por muito do que empreendi e venho realizando desde então.

Tive a honra de conhecer sua família, quando me convidou a passar o fim-de-semana em sua cidade natal. Já com 15 anos, segui atentamente o conselho materno: 'comporte-se e te convidarão a voltar mais vezes'. Lá em Guaxupé, sua mãe se desfez em atenções, estando conosco sempre que possível. Seu pai, arquiteto, conversava  entusiasmado: "reclamaram que  quebraram 10 das 100 árvores que plantamos na via. Mas é justamente isso! De 100, quebram 10, então de 1000, quebrarão 10. Conseguimos que as árvores cresçam!". Seu irmão, Binho, impagável: 'você perdeu o amor à vida ou o respeito à morte?'. Também conheci sua namorada, Míriam, futura esposa.

Quando fiz o Pico das Agulhas Negras, em 1996, assumi o compromisso pessoal de lhe enviar uma carta e fotos. Minha letargia em escrever cartas, no entanto, me fez ficar na vontade. Pouco mais de um ano após, em uma tarde de domingo, meu pai irrompeu na sala de TV: "Estou tentando confirmar uma notícia horrível!". Ao retornar para Poços de Caldas após almoçar com seus pais em Guaxupé, uma Kombi cruzou a pista em que Mario Marcos seguia ao lado de sua esposa. Ela sobreviveu e algum tempo após, enviou-nos um convite para a exposição que organizara com material fotográfico produzido pelo seu falecido marido, na Serra da Canastra.

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Naquele ano de 1984, após 4 horas de uma viagem animada, chegáramos à sua casa em Guaxupé. Mário Marcos beijara e abraçara seus pais e, animado e falante, ao abrir a geladeira, exclamou, agitando os braços: "Oba! Oba! Oba! Cerveja!!!". Eu ría às gargalhadas!

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Um hotel chamado Sion

Minas Gerais é onde renovo minha alma e reabasteço o reservatório de minha disposição. Esse Estado gigante guarda muita história, muitos segredos. Me tenho por mineiro, ainda que raras vezes tenha ido além de Belo Horizonte.

Um lugar especial é Campanha, onde minhas famílias acorreram a todo Carnaval, por mais 10 anos consecutivos! Digo 'minhas famílias', porque aquele ambiente acolhia, além de meus pais, Tios os tios Amauri e Márcia, tios Boneti e Léa, João Grandão e sua turma, gente que segue cravada em meu coração. Tinha ainda o 'Tio Milton' e sua incontável descendência. Tio Milton não se hospedava conosco, porque já residia em Campanha. Sua casa era visita obrigatória, várias vezes por temporada.

O Sion nos abrigava, quantas histórias! Em tempos idos, foi internato feminino, conduzido pelas freiras da clausura alocada naquelas extensas instalações. Havia um amplo claustro atendido por uma capela - aconchegante capela! Diversas salas de aulas distribuídas em dois pavimentos, alguns banheiros coletivos e, lá em cima, no terceiro e último andar, os dormitórios.

Capela, vista do coro.

Imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus, no nicho do altar da capela.

Assim como os demais internatos de sua época, o Sion também veio a perder esta função. E aqui me permitam lamentar, pois "foi o melhor sistema de ensino que o Brasil já teve!", conforme afirmado repetidas vezes e com o dedo em riste, pelo saudoso Tio Nelson (Nelson Barros). Os que testemunham o sistema internato me fazem sentir saudades de um tempo que não cheguei a conhecer.

Eu acreditava que o Sion era um hotel, ainda que os quartos possuíssem quadro-negro e muitos lustres perfilados. Tratava-se de uma solução genial das Irmãs para 'fazer' caixa nos meses de férias, valendo-se do excelente Carnaval local: além dos blocos oficiais que se apresentavam à noite, a madrugada seguia os festejos no clube situado à entrada da cidade. Dos blocos carnavalescos, me recordo o nome apenas da Vai-Vai. Discutia-se que 'se juntasse a bateria da Vai-Vai com o Abre-Alas da...' faria frente às Escolas de Samba cariocas.

Acredito ter conhecido o Sion ainda bebê, pois em uma de minhas memórias mais distantes consta uma imagem de São José envolvendo e beijando o Menino Jesus, na esquina de um corredor envidraçado. Esse corredor, hoje o sei, é uma passagem suspensa entre dois blocos distintos, dando acesso à capela. Que estrutura colossal!

Imagem de São José com o Menino Jesus, no acesso à capela.

A construção é antiga, justificando o pé-direito exagerado, de cerca de cinco metros. As paredes são de um amarelo suave, quase bege, tanto as externas como as internas. Os batentes das enormes portas e janelas possuem cor marrom na área externa e são brancos nas faces internas.

Os corredores que ladeiam a capela são avarandados, enquanto os demais, de grande extensão, comunicam as diversas salas de aula. A caixa de escada, em madeira de lei envernizada, é a marca-registrada do local: uma obra desafiadora, largando dois lances desde o 3º pavimento, que se unem para conduzir o tramo final, em direção perpendicular, até tocar o 2º piso. Sob este, uma escada linear para o térreo. Este piso térreo, vale lembrar, confunde-se com subsolo, pois os principais acessos ao Sion encontram-se no 2º pavimento.
A caixa da escada entre o 2º e o 3º pavimentos, iluminada por claraboia.

Escada que leva ao piso Térreo: acesso ao refeitório, pátio interno e a sala de ping-pong!

A construção possui o formato de um 'L', abrigando um pátio interno com um mosaico de canteiros, que à época era mantido com esmero, com tantas flores que me faziam pensar em fazer carreira na biologia, 'quando eu crescer'. Minhas preferidas eram as de pétalas amarelas e 'miolo' vermelho-alaranjado e as bocas-de-leão. Dominando o pátio está a torre do relógio, notável pelo registro sonoro do passar das horas. Seus ponteiros acionam batidas de sinos a cada quarto de hora, destacando a meia-hora e alardeando a hora cheia no melhor estilo Big-Ben, finalizado no solene compasso de um 'blém' para cada hora do turno.

Faltou mencionar o vasto jardim da entrada, com um preguiçoso acesso para os carros, bem como as várias imagens de cor branca espalhadas por este jardim, com majestosas árvores ali distribuídas.

O jardim na entrada do Sion.

As histórias do Sion são tantas como se pode supor de uma cidade contemporânea das Cidades do Ciclo do Ouro (Ouro Preto, São João Del Rei,...). Campanha ainda exibe lindas casas em estilo colonial esparramadas na longa colina que se ergue a partir do Sion, até a majestosa Catedral, cuja portentosa nave foi erguida por escravos, com pé-direito de 18 metros e paredes de 2,5 metros de espessura.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Sebastião Fermiano (Capítulo 1)

Um convite

Sebastião Fermiano, homem alto, magro e afrodescendente, era um profissional gabaritado e reconhecido na empresa em que trabalhava na função de encarregado de equipe, a então Fábrica Nacional de Vagões (FNV), de Cruzeiro-SP. Muito responsável, não faltava um só dia ao serviço, mas se não fosse convocado para algum serão, cumpridas as obrigações da semana, entregava-se no sábado e no domingo, à boemia e à cachaça. Não tolerava a religião católica, em que fora batizado, pois ela lhe lembrava os preceitos de vida moral, a que não era muito chegado... Sua esposa, a Maria, era ao contrário muito católica e mantinha a firme esperança de uma conversão de vida do marido. E nessa intenção rezava muito e sempre, apegando-se principalmente à oração do terço.

Um dia Sebastião recebeu de um amigo o convite para participar de um Cursilho. Cabreiro, perguntou se não era coisa de religião e se não haveria padres participando dele. Ele esconjurava aqueles homens de saia preta (naquela época, muitos sacerdotes ainda se trajavam com batina negra, embora uma boa parte já estivesse usando os trajes civis, recentemente liberados). O amigo, meio sem jeito pelo fato de estar faltando à verdade, garantiu-lhe que não era coisa de padres e o Sebastião aceitou. Afinal, três dias longe de casa até lhe viriam a calhar, para descansar do pesado trabalho, à frente da equipe que liderava...

Na noite de quinta-feira, Sebastião despediu-se de sua esposa e filhos e seguiu de carona até um lugar espaçoso em Aparecida-SP, onde se realizaria o evento a que fora convidado. Logo na manhã de sexta feira, conheceu lá dentro um tal de João, “cara muito gente boa”, com quem  estabeleceu amizade. Este lhe disse que vinha de uma cidade do interior paulista, em cujas montanhas pastoreava muitas ovelhas. Ao longo de todo o dia, foi um tal de João prá cá e João prá lá e Sebastião acabou contando ao novo amigo suas aventuras e desventuras. Falou-lhe de sua vida, de sua família, de seus fins de semana desregrados, de sua indisposição com a Igreja católica e com seus padres, aqueles homens de saia preta!

Na noite da sexta-feira, após o jantar, pediu-se que cada um dos participantes do encontro se levantasse e se apresentasse aos demais. Para desgosto do Sebastião, logo um deles se apresentou como padre,  fazendo-o resmungar no ouvido do inseparável João: “Olha lá: disseram-me que aqui não tinha padre e já tem um aí!”. Quando chegou a vez do amigo João, este se pôs em pé e se identificou como D. João de tal, Bispo de uma cidade do interior paulista, na qual era responsável perante Deus, pelo cuidado de muitas milhares de ovelhas... Ao dizer isso, olhou para o Sebastião, que estava ao seu lado e sorriu... Acabado o jantar, Sebastião tratou rápido de fugir do tal D. João... E continuou a evitá-lo durante toda a manhã de sábado.

A segunda palestra desse dia foi longa, que parecia não acabar mais! Muita coisa do que foi falado mexeu fundo no coração e na cabeça do Sebastião. Esse Deus, do qual ele sempre vinha fugindo, e essa Igreja, a que sempre dera as costas, estavam ali à sua frente e lhe propunham abrir os braços, recebê-lo e até perdoar os seus pecados! Quando por fim acabou todo aquele palavrório, que lhe martelava o ouvido e lhe remexia com o interior, foram todos para a capela para se ajoelhar, diante do Santíssimo Sacramento que estava exposto. Sebastião sentiu agitar-se em seu cérebro tanta coisa ouvida, muita dela nem entendida, e a surpreendente proposta de reconciliação, recebida havia pouco: “Mas será mesmo possível que Deus queira mesmo me perdoar, depois de tanta safadeza minha? De tudo o que eu fiz? Senhor, se for mesmo possível, me dá um sinal!”. Abrindo os olhos, pareceu-lhe não ver mais Hóstia branca no ostensório dourado, e sim o rosto de Jesus! Fechou-os e abriu-os de novo, mas a surpreendente imagem persistia! Atônito, buscando talvez ajuda, olhou para os outros homens ajoelhados, e pasmou-se mais ainda, ao ver em cada um o rosto de Jesus. Atônito e comovido cobriu a face com as mãos e percebeu envergonhado que estava chorando...

Foi um dos últimos a se levantar de diante do Santíssimo e dirigiu-se meio zonzo, com os outros encontristas, para a atividade seguinte, o almoço. Depois, nem se lembrava do que comera e se comera!

À saída do refeitório, foi seguro pelo braço pelo novo amigo D. João. Ele carinhosamente, mas em tom de autoridade lhe disse: “Enquanto você não sabia que eu era padre, não largava de mim e chegou a me contar boa parte de sua vida! Agora lhe proponho que pare de me evitar, sente-se do meu lado e me fale em confissão tudo o que já me contou sobre seu passado! Se assim quiser, entregue tudo a Deus, diga- Lhe que se arrepende e que vai mudar de vida.” Depois da grande emoção do encontro com o Santíssimo, isso era tudo o que ele mais queria. A Misericórdia infinita de Deus o envolveu e tornou-lhe fácil a tarefa tão difícil de se dizer pecador e de expor no tribunal da penitência, as repetidas misérias de toda uma vida...

Terminados os três dias de Cursilho naquele ano de 1974, ao voltar na noite de domingo para casa e reencontrar sua esposa, Sebastião afirmou: - “Não sei como, Maria, mas, a partir de agora, muita coisa em nossa vida vai mudar!” - “Vai mudar como, Tião?” - “Como, eu não sei, mas vai mudar!”. Sua esposa ainda não sabia, mas daquele momento em diante, passava a colher os frutos de persistente oração de vinte anos do terço, pedindo a conversão do marido.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

9 de Julho de 1932: 83 anos

1932, o ano da Revolução Constitucionalista, data cívica que eleva minha alma. Quisera eu afirmar que não poderia ser diferente a um paulista natural de Cruzeiro, palco das batalhas do Tunnel (assim se escrevia à época) e do Batedor, algumas das batalhas mais renhidas, com muita disputa decidida no sabre preso à ponta do fuzil.

Derrotados os paulistas, os importantes eventos de 1932 ficaram muito mal registrados e não recebem a devida atenção, nem mesmo em minha terra natal. É bem verdade que já não resido lá há bastante tempo, mas ali cursei todo o ensino fundamental, recebendo apenas algumas pinceladas de informação sobre o episódio. O museu local, desfalcado até do mobiliário típico, possui apenas alguns livros sobre o tema. A estação ferroviária segue abandonada e pouco sobrou do imenso aparato ferroviário que sediava os escritórios e oficinas da Minas and Rio Railway. Mas o túnel, o palco de batalhas ferozes, segue imponente e ignora a ação do tempo, ainda que desativado e sem manutenção alguma.

Nos primeiros meses de 1932, São Paulo registrou as maiores passeatas e comícios já ocorridos em solo brasileiro, manifestando indignação pela constante ingerência do Governo Federal.

O raiar do dia 9 de julho saudou os paulistas com o grito da Revolução, do qual se confiava que ecoasse resposta positiva dos Estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, mas de onde receberia tropas inimigas. Do Mato Grosso, o esperado reforço prometido de 4.000 homens se resumiu à aterrissagem de seu comandante General Bertoldo Kriger, sozinho. Nessas perspectivas, teve início a Revolução e os desdobramentos trágicos para São Paulo.

Os esforços da Revolução Constitucionalista foi combatida com eficiência pelo Governo Federal inclusive na propaganda, alegando que São Paulo tentava se separar do Brasil, mentira deslavada.

O que fica para a História foi o desvelo da população em prol da causa. O monumento aos mártires de 1932, sob o Obelisco no Parque do Ibirapuera, abriga os restos mortais de vários destes heróis, abatidos na "trincheira que não se rendeu". Ao Escoteiro Marco Aurélio Chiorato, falecido em combate aos quinze anos de idade, se assinala: "Inocência, Civismo e Coragem aqui repousam". Um marco no solo indica três nomes, justificando: "Como juntos combateram na trincheira, juntos escolheram repousar, demonstrando assim, a firmeza de seus ideais". Um espaço demarcado em granito negro para Ibrahim Nobre, o orador que inflamou as multidões pelas ruas paulistanas e intimou pessoalmente ao interventor federal Pedro de Toledo: "Você deseja um nome em placa de rua ou uma estátua em praça pública?". A resposta obtida justifica o amplo jazigo dedicado ao interventor federal que ousou liderar a Revolução.

O Capitão Néco também ali repousa, mas sua história me chega das muitas conversas da própria Dona Tita, sua tia, com meu pai. Surpreendido pelos legalistas (combatentes em nome do Presidente Getúlio Vargas), comandada por um conhecido seu, o qual explicou a situação e ordenou a rendição: "Você está cercado e não há como vencer, renda-se!". A resposta traduz o elevado espírito vigente: "Um paulista nunca se rende!". A este brado, seguiu-se o avanço do bravo Manuel de Freitas Novais Neto, o Capitão Néco.

" Viveram pouco para morrer bem. Morreram jovens para viver sempre".

O Luto no Sul de Minas de antigamente

Até metade do Século XX, o luto no Sul de Minas envolvia práticas rígidas para os parentes do falecido, que eram religiosamente seguidas: o ...