1932, o ano da Revolução Constitucionalista, data cívica que eleva minha alma. Quisera eu afirmar que não poderia ser diferente a um paulista natural de Cruzeiro, palco das batalhas do Tunnel (assim se escrevia à época) e do Batedor, algumas das batalhas mais renhidas, com muita disputa decidida no sabre preso à ponta do fuzil.
Derrotados os paulistas, os importantes eventos de 1932 ficaram muito mal registrados e não recebem a devida atenção, nem mesmo em minha terra natal. É bem verdade que já não resido lá há bastante tempo, mas ali cursei todo o ensino fundamental, recebendo apenas algumas pinceladas de informação sobre o episódio. O museu local, desfalcado até do mobiliário típico, possui apenas alguns livros sobre o tema. A estação ferroviária segue abandonada e pouco sobrou do imenso aparato ferroviário que sediava os escritórios e oficinas da Minas and Rio Railway. Mas o túnel, o palco de batalhas ferozes, segue imponente e ignora a ação do tempo, ainda que desativado e sem manutenção alguma.
Nos primeiros meses de 1932, São Paulo registrou as maiores passeatas e comícios já ocorridos em solo brasileiro, manifestando indignação pela constante ingerência do Governo Federal.
O raiar do dia 9 de julho saudou os paulistas com o grito da Revolução, do qual se confiava que ecoasse resposta positiva dos Estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, mas de onde receberia tropas inimigas. Do Mato Grosso, o esperado reforço prometido de 4.000 homens se resumiu à aterrissagem de seu comandante General Bertoldo Kriger, sozinho. Nessas perspectivas, teve início a Revolução e os desdobramentos trágicos para São Paulo.
Os esforços da Revolução Constitucionalista foi combatida com eficiência pelo Governo Federal inclusive na propaganda, alegando que São Paulo tentava se separar do Brasil, mentira deslavada.
O que fica para a História foi o desvelo da população em prol da causa. O monumento aos mártires de 1932, sob o Obelisco no Parque do Ibirapuera, abriga os restos mortais de vários destes heróis, abatidos na "trincheira que não se rendeu". Ao Escoteiro Marco Aurélio Chiorato, falecido em combate aos quinze anos de idade, se assinala: "Inocência, Civismo e Coragem aqui repousam". Um marco no solo indica três nomes, justificando: "Como juntos combateram na trincheira, juntos escolheram repousar, demonstrando assim, a firmeza de seus ideais". Um espaço demarcado em granito negro para Ibrahim Nobre, o orador que inflamou as multidões pelas ruas paulistanas e intimou pessoalmente ao interventor federal Pedro de Toledo: "Você deseja um nome em placa de rua ou uma estátua em praça pública?". A resposta obtida justifica o amplo jazigo dedicado ao interventor federal que ousou liderar a Revolução.
O Capitão Néco também ali repousa, mas sua história me chega das muitas conversas da própria Dona Tita, sua tia, com meu pai. Surpreendido pelos legalistas (combatentes em nome do Presidente Getúlio Vargas), comandada por um conhecido seu, o qual explicou a situação e ordenou a rendição: "Você está cercado e não há como vencer, renda-se!". A resposta traduz o elevado espírito vigente: "Um paulista nunca se rende!". A este brado, seguiu-se o avanço do bravo Manuel de Freitas Novais Neto, o Capitão Néco.
" Viveram pouco para morrer bem. Morreram jovens para viver sempre".
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