segunda-feira, 13 de julho de 2015

Sebastião Fermiano (Capítulo 1)

Um convite

Sebastião Fermiano, homem alto, magro e afrodescendente, era um profissional gabaritado e reconhecido na empresa em que trabalhava na função de encarregado de equipe, a então Fábrica Nacional de Vagões (FNV), de Cruzeiro-SP. Muito responsável, não faltava um só dia ao serviço, mas se não fosse convocado para algum serão, cumpridas as obrigações da semana, entregava-se no sábado e no domingo, à boemia e à cachaça. Não tolerava a religião católica, em que fora batizado, pois ela lhe lembrava os preceitos de vida moral, a que não era muito chegado... Sua esposa, a Maria, era ao contrário muito católica e mantinha a firme esperança de uma conversão de vida do marido. E nessa intenção rezava muito e sempre, apegando-se principalmente à oração do terço.

Um dia Sebastião recebeu de um amigo o convite para participar de um Cursilho. Cabreiro, perguntou se não era coisa de religião e se não haveria padres participando dele. Ele esconjurava aqueles homens de saia preta (naquela época, muitos sacerdotes ainda se trajavam com batina negra, embora uma boa parte já estivesse usando os trajes civis, recentemente liberados). O amigo, meio sem jeito pelo fato de estar faltando à verdade, garantiu-lhe que não era coisa de padres e o Sebastião aceitou. Afinal, três dias longe de casa até lhe viriam a calhar, para descansar do pesado trabalho, à frente da equipe que liderava...

Na noite de quinta-feira, Sebastião despediu-se de sua esposa e filhos e seguiu de carona até um lugar espaçoso em Aparecida-SP, onde se realizaria o evento a que fora convidado. Logo na manhã de sexta feira, conheceu lá dentro um tal de João, “cara muito gente boa”, com quem  estabeleceu amizade. Este lhe disse que vinha de uma cidade do interior paulista, em cujas montanhas pastoreava muitas ovelhas. Ao longo de todo o dia, foi um tal de João prá cá e João prá lá e Sebastião acabou contando ao novo amigo suas aventuras e desventuras. Falou-lhe de sua vida, de sua família, de seus fins de semana desregrados, de sua indisposição com a Igreja católica e com seus padres, aqueles homens de saia preta!

Na noite da sexta-feira, após o jantar, pediu-se que cada um dos participantes do encontro se levantasse e se apresentasse aos demais. Para desgosto do Sebastião, logo um deles se apresentou como padre,  fazendo-o resmungar no ouvido do inseparável João: “Olha lá: disseram-me que aqui não tinha padre e já tem um aí!”. Quando chegou a vez do amigo João, este se pôs em pé e se identificou como D. João de tal, Bispo de uma cidade do interior paulista, na qual era responsável perante Deus, pelo cuidado de muitas milhares de ovelhas... Ao dizer isso, olhou para o Sebastião, que estava ao seu lado e sorriu... Acabado o jantar, Sebastião tratou rápido de fugir do tal D. João... E continuou a evitá-lo durante toda a manhã de sábado.

A segunda palestra desse dia foi longa, que parecia não acabar mais! Muita coisa do que foi falado mexeu fundo no coração e na cabeça do Sebastião. Esse Deus, do qual ele sempre vinha fugindo, e essa Igreja, a que sempre dera as costas, estavam ali à sua frente e lhe propunham abrir os braços, recebê-lo e até perdoar os seus pecados! Quando por fim acabou todo aquele palavrório, que lhe martelava o ouvido e lhe remexia com o interior, foram todos para a capela para se ajoelhar, diante do Santíssimo Sacramento que estava exposto. Sebastião sentiu agitar-se em seu cérebro tanta coisa ouvida, muita dela nem entendida, e a surpreendente proposta de reconciliação, recebida havia pouco: “Mas será mesmo possível que Deus queira mesmo me perdoar, depois de tanta safadeza minha? De tudo o que eu fiz? Senhor, se for mesmo possível, me dá um sinal!”. Abrindo os olhos, pareceu-lhe não ver mais Hóstia branca no ostensório dourado, e sim o rosto de Jesus! Fechou-os e abriu-os de novo, mas a surpreendente imagem persistia! Atônito, buscando talvez ajuda, olhou para os outros homens ajoelhados, e pasmou-se mais ainda, ao ver em cada um o rosto de Jesus. Atônito e comovido cobriu a face com as mãos e percebeu envergonhado que estava chorando...

Foi um dos últimos a se levantar de diante do Santíssimo e dirigiu-se meio zonzo, com os outros encontristas, para a atividade seguinte, o almoço. Depois, nem se lembrava do que comera e se comera!

À saída do refeitório, foi seguro pelo braço pelo novo amigo D. João. Ele carinhosamente, mas em tom de autoridade lhe disse: “Enquanto você não sabia que eu era padre, não largava de mim e chegou a me contar boa parte de sua vida! Agora lhe proponho que pare de me evitar, sente-se do meu lado e me fale em confissão tudo o que já me contou sobre seu passado! Se assim quiser, entregue tudo a Deus, diga- Lhe que se arrepende e que vai mudar de vida.” Depois da grande emoção do encontro com o Santíssimo, isso era tudo o que ele mais queria. A Misericórdia infinita de Deus o envolveu e tornou-lhe fácil a tarefa tão difícil de se dizer pecador e de expor no tribunal da penitência, as repetidas misérias de toda uma vida...

Terminados os três dias de Cursilho naquele ano de 1974, ao voltar na noite de domingo para casa e reencontrar sua esposa, Sebastião afirmou: - “Não sei como, Maria, mas, a partir de agora, muita coisa em nossa vida vai mudar!” - “Vai mudar como, Tião?” - “Como, eu não sei, mas vai mudar!”. Sua esposa ainda não sabia, mas daquele momento em diante, passava a colher os frutos de persistente oração de vinte anos do terço, pedindo a conversão do marido.

2 comentários:

  1. Tenho muitas histórias desse "doutor" Firmiano. Isso dá um belo livro. Abraços.

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    1. Excelente, Luiz Flávio! Por favor, escreva e nos ajude a conseguir um relato mais completa desta vida singular!

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