O causo dos vaga-lumes embalou o sono de minha filha mais de uma vez. Diz respeito a noites refrescantes e agradáveis.
O cair da noite na cidade mineira de Cambuquira envolve em calma e silêncio as águas minerais do parque, que vertem em jorro cristalino incessante.
Este parque, que foi o local preferido de minha infância, mostrava-se ainda mais incrível nas ocasiões em que éramos os últimos a deixá-lo. Em caminhar descontraído, deixávamos a mata e o lago, abandonando seus quiosques ao breu, em meio à sonoridade de grilos e eventuais grasnados de gansos.
Com a escassa iluminacao de lâmpadas incandescentes alocada nas fontes, o trajeto desde o lago ficava bem escuro, cedendo vez à paisagem viva de infindáveis vaga-lumes que vinham festejar aquele espaço ímpar. Meus pais, meus irmãos e eu, maravilhados, ponderávamos se estaria ali uma pirotecnia única em todo o mundo.
Anos mais tarde, no verão calorento de 1982, nos deparamos com algo tão especial quanto, na minha cidade paulista de Cruzeiro. Recém-instalados em nossa casa nova, situada nas franjas do Bosque Municipal e junto a um amplo descampado, estando as ruas do entorno desprovidas de iluminação pública. Da janela do quarto de meus pais, no andar de cima, vislumbrávamos aquele descampado, logo ali, ao lado do bosque, tomado por tantos vaga-lumes quando houveram em Cambuquira. Minha mãe assinalou empolgada: "Quem diria que da janela do meu quarto eu veria o mar de vaga-lumes de Cambuquira?"
terça-feira, 29 de outubro de 2019
Contações
Fim de noite, aqui em Curitiba, minha filha pede por minhas histórias. Luzes apagadas, tão logo concluímos as orações, me desdobro a narrar os causos da minha infância na cidade paulista de Cruzeiro-SP, aditivada pelas férias nas estâncias hidrominerais das cidades mineiras de Cambuquira e Lambari, bem como na bela cidade histórica de Campanha. Causo após causo, pouco a pouco, a menina vai embarcando em sonhos. Ali, ao pé da cama, a gatinha Nani aproveita a carona e dorme também.
As narrativas quase focam um só personagem: eu, o menino que corria atrás de pipas esvoaçantes nas tardes ensolaradas do Morro dos Engenheiros, embalado pelas músicas mega-cafonas do alto-falante do Seu Armando, as quais animavam o "Colégio dos Padres", que nos fins de tarde era convertido em "Reino da Garotada".
Naquele tempo, eu podia ir a quase todo lugar, desde que chegasse em casa antes do anoitecer, não fosse longe demais, e - principalmente - nunca entrasse em casa de estranhos. Tratei de esconder de meus pais as tantas vezes que apanhei na rua, a fim de evitar a perda dessas regalias (minha mãe nunca aceitou embates corporais). Mas como minha Cruzeiro contava com apenas 60 mil habitantes, era certo que chegasse ao conhecimento de minha mãe tudo o que acontecesse.
Boa parte de meus folguedos aconteciam na rua de casa, no Morro dos Engenheiros, bem como no Oratório (o Colégio dos Padres, já dito), conforme passo a contar.
O ponteiro do relógio se aproximava das 16h30m. Nas cinco salas de aula, inquietos alunos guardavam seus cadernos, livros e estojos em mochilas, enquanto os professores passavam orientações finais. O diretor Padre Hamilton, senhor esguio e magro, de tez amorenada e cabelo penteado para trás, deixava sua sala, posicionava-se no pátio e postava a mão esquerda diante de seu rosto, passando a olhar atentamente ao relógio analógico em seu pulso. Sua mão direita auxiliava neste processo, com o polegar e o indicador sustentando o dispositivo pelo aro. Olhos cerrados e sobrancelha erguida, aguardava o posicionamento preciso dos ponteiros.
Na outra ponta do pátio, Hélio, seu esforçado auxiliar, sujeito mudo e de curto entendimento, olhava fixamente o diretor, enquanto seu rosto boquiaberto denunciava a tensão no aguardo de sua ordem. E pontualmente, quando de um repente o Padre Hamilton lançava sua mão direita para o lado e para o alto, Hélio prontamente se punha a correr, desembalado, para acionar o sinal, a campainha.
Meia hora após o término das aulas, estando o patio já quase sem alunos, Seu Armando mandava abrir o portão de ferro ao fundo do Colégio dos Padres. Meninos pobres invadiam, correndo para o parquinho, a quadra do futebol de salão e a grande área do futebol de campo. Vários meninos se assomavam à porta da sacristia (a igreja integra o complexo educacional-esportivo), suas mãos ansiosas a requerer bolas e jogos de tabuleiro.
Ah, sim! Os meninos pobres se auto-intitulavam "perdidos"! Ah, não, não se trata de preconceito, pois somente os pobres se referiam aos meninos dessa forma. Fiz amizade com alguns deles, o Marcelino, o Amauri,... e perambulando com estes meus amiguinhos pelas ruas à caça de pipas e outras distrações, fui por vezes repreendido: "Deixa de andar com os perdidos!". Broncas vindas de seus vizinhos, lamentando ver um jovem "rico" de futuro promissor, perdendo tempo com os remediados. Realmente acreditavam que eu não devia estar ali.
Nunca aceitei esse conceito, o de meninos perdidos, pensando comigo: "Perdidos por que? São meus amigos, bons amigos!"
As narrativas quase focam um só personagem: eu, o menino que corria atrás de pipas esvoaçantes nas tardes ensolaradas do Morro dos Engenheiros, embalado pelas músicas mega-cafonas do alto-falante do Seu Armando, as quais animavam o "Colégio dos Padres", que nos fins de tarde era convertido em "Reino da Garotada".
Naquele tempo, eu podia ir a quase todo lugar, desde que chegasse em casa antes do anoitecer, não fosse longe demais, e - principalmente - nunca entrasse em casa de estranhos. Tratei de esconder de meus pais as tantas vezes que apanhei na rua, a fim de evitar a perda dessas regalias (minha mãe nunca aceitou embates corporais). Mas como minha Cruzeiro contava com apenas 60 mil habitantes, era certo que chegasse ao conhecimento de minha mãe tudo o que acontecesse.
Boa parte de meus folguedos aconteciam na rua de casa, no Morro dos Engenheiros, bem como no Oratório (o Colégio dos Padres, já dito), conforme passo a contar.
O ponteiro do relógio se aproximava das 16h30m. Nas cinco salas de aula, inquietos alunos guardavam seus cadernos, livros e estojos em mochilas, enquanto os professores passavam orientações finais. O diretor Padre Hamilton, senhor esguio e magro, de tez amorenada e cabelo penteado para trás, deixava sua sala, posicionava-se no pátio e postava a mão esquerda diante de seu rosto, passando a olhar atentamente ao relógio analógico em seu pulso. Sua mão direita auxiliava neste processo, com o polegar e o indicador sustentando o dispositivo pelo aro. Olhos cerrados e sobrancelha erguida, aguardava o posicionamento preciso dos ponteiros.
Na outra ponta do pátio, Hélio, seu esforçado auxiliar, sujeito mudo e de curto entendimento, olhava fixamente o diretor, enquanto seu rosto boquiaberto denunciava a tensão no aguardo de sua ordem. E pontualmente, quando de um repente o Padre Hamilton lançava sua mão direita para o lado e para o alto, Hélio prontamente se punha a correr, desembalado, para acionar o sinal, a campainha.
Meia hora após o término das aulas, estando o patio já quase sem alunos, Seu Armando mandava abrir o portão de ferro ao fundo do Colégio dos Padres. Meninos pobres invadiam, correndo para o parquinho, a quadra do futebol de salão e a grande área do futebol de campo. Vários meninos se assomavam à porta da sacristia (a igreja integra o complexo educacional-esportivo), suas mãos ansiosas a requerer bolas e jogos de tabuleiro.
Ah, sim! Os meninos pobres se auto-intitulavam "perdidos"! Ah, não, não se trata de preconceito, pois somente os pobres se referiam aos meninos dessa forma. Fiz amizade com alguns deles, o Marcelino, o Amauri,... e perambulando com estes meus amiguinhos pelas ruas à caça de pipas e outras distrações, fui por vezes repreendido: "Deixa de andar com os perdidos!". Broncas vindas de seus vizinhos, lamentando ver um jovem "rico" de futuro promissor, perdendo tempo com os remediados. Realmente acreditavam que eu não devia estar ali.
Nunca aceitei esse conceito, o de meninos perdidos, pensando comigo: "Perdidos por que? São meus amigos, bons amigos!"
sábado, 12 de outubro de 2019
MJB, o Mário
Inicio estas linhas ao som de Radio Gaga, do Queen, a mesma que constava na "fita do Mário", um cassete gravado por este meu amigo e executado nas manhãs em que lidávamos nos TK-85 do laboratório de informática. O TK-85? Uma delícia de micro-computador, da Microsoft e com teclas de borracha, o melhor de sua categoria nos anos 80.
O Mário? Mário José Bittencourt, um dos caras mais inteligentes da minha geração. Tive o imenso prazer de conviver com esse ser humano único. Nosso primeiro contato se deu nas aulas do Book Three do CCAA, sob a tutela de nossa excellent teacher Tânia (funny, smart and beautifull, ai, ai...). Me custava muito aprender essa língua estrangeira, mas o Mário simplesmente dialogava com a teacher em inglês ágil e corrente, ambos animados e, por vezes, às gargalhadas.
Uns três anos depois, reencontrei o jovem Mário já sendo professor de Informática no Colégio Machado de Assis, ocasião na qual passamos a conviver no laboratório de informática. Eu atuava como monitor de meus colegas de 1º ano do Colegial (atual Ensino Médio). No tempo livre entre minhas monitorias e as aulas do Mário, passávamos horas pilotando os TK-85.
E também nos víamos no sábado à noite, quando eu torcia para encontrá-lo "sem querer", garantindo uma noitada de conversa animada e muitas risadas, já que ele não parava de contar piadas e fazer troça sobre o cotidiano.
Naquela época, usar computador significava programar. Enquanto eu programava em Basic, assistia o Mário deslanchar em "linguagem de máquina", o Assembler. Que coisas incríveis ele fazia, como ousava! Tanto, que criou o "MJB Debug", um sistema de múltiplas finalidades para organizar arquivos e revisar códigos de programação, com o objetivo arrojado de auxiliar programadores.
O MJB Debug desempenhava mesmo muitas funcionalidades, e o Mário não cessava de implementar novidades. Aquilo já estava em ponto de se comercializar, mas pena que perdeu a fita-cassete com a versão mais atualizada. Ele nem se interessou em retomar a partir de versão mais antiga, porque a defasagem era enorme.
Daí começou a montar um jogo de labirinto, para o qual preparou vários painéis. Como as aulas já estavam acabando, não chegou a concluir essa iniciativa.
No ano de 1986, muita gente possuía aparelho de vídeo-cassete, muitos da linha "G" da Gradiente, então fervia a locação de fitas de vídeo-cassete (as quais precisávamos devolver rebobinadas, sob pena de multa), A melhor vídeo-locadora da cidade, a do Valtinho, encontrava-se formidavelmente organizada e gerida por um aplicativo computacional repleto de inovações, em conteúdo, lógica operacional e apresentação visual. Sim, desenvolvido pelo Mário.
O Mário enfim dispunha de um aplicativo apto à comercialização, mas não tardou a notícia de estar patenteado a outrem, pelo que teve de abrir mão de mais esta criação.
Mais tarde, foi admitido no ITA, o cobiçado Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Consta que precisou de apenas 6 meses de cursinho para alcançar este feito.
Sua irmã Ana Mara casou-se com meu melhor amigo, o Alberto, pelo que cheguei a pensar que eu voltaria a conviver com o personagem desta narrativa. Mas apenas estive com ele uma única vez, quando me atualizou estar desenvolvendo soluções para os "bipers", os aparelhos intercomunicadores naquele ano de 1995. De despedida, me cadastrou em seu celular, com direito a foto minha registrada por aquele aparelho. Fiquei impressionado.
Desde então, sua irmã Ana me põe a par das venturas e desventuras desse amigo distante. Histórias surpreendentes, desde a perda de uma namorada por conta de umas horinhas a mais de sono, até renitentes ofertas de importantes players do mundo high-tech, por esse profssional tão raro.
Dentre as muitas histórias, vale citar esta: uma operadora de cartões de crédito, às voltas com o longo tempo alocado no registro de cada transação comercial, contratou uma consultoria do Mário. Com acesso franqueado a todo o código de programação, Mário surpreendeu ao apresentar a solução precisa em apenas 40 minutos. Na verdade, ele precisou de apenas 10 minutos para encontrar o problema. E passou o resto do tempo aprendendo sobre as técnicas de programação da contratante.
O Mário? Mário José Bittencourt, um dos caras mais inteligentes da minha geração. Tive o imenso prazer de conviver com esse ser humano único. Nosso primeiro contato se deu nas aulas do Book Three do CCAA, sob a tutela de nossa excellent teacher Tânia (funny, smart and beautifull, ai, ai...). Me custava muito aprender essa língua estrangeira, mas o Mário simplesmente dialogava com a teacher em inglês ágil e corrente, ambos animados e, por vezes, às gargalhadas.
Uns três anos depois, reencontrei o jovem Mário já sendo professor de Informática no Colégio Machado de Assis, ocasião na qual passamos a conviver no laboratório de informática. Eu atuava como monitor de meus colegas de 1º ano do Colegial (atual Ensino Médio). No tempo livre entre minhas monitorias e as aulas do Mário, passávamos horas pilotando os TK-85.
E também nos víamos no sábado à noite, quando eu torcia para encontrá-lo "sem querer", garantindo uma noitada de conversa animada e muitas risadas, já que ele não parava de contar piadas e fazer troça sobre o cotidiano.
Naquela época, usar computador significava programar. Enquanto eu programava em Basic, assistia o Mário deslanchar em "linguagem de máquina", o Assembler. Que coisas incríveis ele fazia, como ousava! Tanto, que criou o "MJB Debug", um sistema de múltiplas finalidades para organizar arquivos e revisar códigos de programação, com o objetivo arrojado de auxiliar programadores.
O MJB Debug desempenhava mesmo muitas funcionalidades, e o Mário não cessava de implementar novidades. Aquilo já estava em ponto de se comercializar, mas pena que perdeu a fita-cassete com a versão mais atualizada. Ele nem se interessou em retomar a partir de versão mais antiga, porque a defasagem era enorme.
Daí começou a montar um jogo de labirinto, para o qual preparou vários painéis. Como as aulas já estavam acabando, não chegou a concluir essa iniciativa.
No ano de 1986, muita gente possuía aparelho de vídeo-cassete, muitos da linha "G" da Gradiente, então fervia a locação de fitas de vídeo-cassete (as quais precisávamos devolver rebobinadas, sob pena de multa), A melhor vídeo-locadora da cidade, a do Valtinho, encontrava-se formidavelmente organizada e gerida por um aplicativo computacional repleto de inovações, em conteúdo, lógica operacional e apresentação visual. Sim, desenvolvido pelo Mário.
O Mário enfim dispunha de um aplicativo apto à comercialização, mas não tardou a notícia de estar patenteado a outrem, pelo que teve de abrir mão de mais esta criação.
Mais tarde, foi admitido no ITA, o cobiçado Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Consta que precisou de apenas 6 meses de cursinho para alcançar este feito.
Sua irmã Ana Mara casou-se com meu melhor amigo, o Alberto, pelo que cheguei a pensar que eu voltaria a conviver com o personagem desta narrativa. Mas apenas estive com ele uma única vez, quando me atualizou estar desenvolvendo soluções para os "bipers", os aparelhos intercomunicadores naquele ano de 1995. De despedida, me cadastrou em seu celular, com direito a foto minha registrada por aquele aparelho. Fiquei impressionado.
Desde então, sua irmã Ana me põe a par das venturas e desventuras desse amigo distante. Histórias surpreendentes, desde a perda de uma namorada por conta de umas horinhas a mais de sono, até renitentes ofertas de importantes players do mundo high-tech, por esse profssional tão raro.
Dentre as muitas histórias, vale citar esta: uma operadora de cartões de crédito, às voltas com o longo tempo alocado no registro de cada transação comercial, contratou uma consultoria do Mário. Com acesso franqueado a todo o código de programação, Mário surpreendeu ao apresentar a solução precisa em apenas 40 minutos. Na verdade, ele precisou de apenas 10 minutos para encontrar o problema. E passou o resto do tempo aprendendo sobre as técnicas de programação da contratante.
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