Fim de noite, aqui em Curitiba, minha filha pede por minhas histórias. Luzes apagadas, tão logo concluímos as orações, me desdobro a narrar os causos da minha infância na cidade paulista de Cruzeiro-SP, aditivada pelas férias nas estâncias hidrominerais das cidades mineiras de Cambuquira e Lambari, bem como na bela cidade histórica de Campanha. Causo após causo, pouco a pouco, a menina vai embarcando em sonhos. Ali, ao pé da cama, a gatinha Nani aproveita a carona e dorme também.
As narrativas quase focam um só personagem: eu, o menino que corria atrás de pipas esvoaçantes nas tardes ensolaradas do Morro dos Engenheiros, embalado pelas músicas mega-cafonas do alto-falante do Seu Armando, as quais animavam o "Colégio dos Padres", que nos fins de tarde era convertido em "Reino da Garotada".
Naquele tempo, eu podia ir a quase todo lugar, desde que chegasse em casa antes do anoitecer, não fosse longe demais, e - principalmente - nunca entrasse em casa de estranhos. Tratei de esconder de meus pais as tantas vezes que apanhei na rua, a fim de evitar a perda dessas regalias (minha mãe nunca aceitou embates corporais). Mas como minha Cruzeiro contava com apenas 60 mil habitantes, era certo que chegasse ao conhecimento de minha mãe tudo o que acontecesse.
Boa parte de meus folguedos aconteciam na rua de casa, no Morro dos Engenheiros, bem como no Oratório (o Colégio dos Padres, já dito), conforme passo a contar.
O ponteiro do relógio se aproximava das 16h30m. Nas cinco salas de aula, inquietos alunos guardavam seus cadernos, livros e estojos em mochilas, enquanto os professores passavam orientações finais. O diretor Padre Hamilton, senhor esguio e magro, de tez amorenada e cabelo penteado para trás, deixava sua sala, posicionava-se no pátio e postava a mão esquerda diante de seu rosto, passando a olhar atentamente ao relógio analógico em seu pulso. Sua mão direita auxiliava neste processo, com o polegar e o indicador sustentando o dispositivo pelo aro. Olhos cerrados e sobrancelha erguida, aguardava o posicionamento preciso dos ponteiros.
Na outra ponta do pátio, Hélio, seu esforçado auxiliar, sujeito mudo e de curto entendimento, olhava fixamente o diretor, enquanto seu rosto boquiaberto denunciava a tensão no aguardo de sua ordem. E pontualmente, quando de um repente o Padre Hamilton lançava sua mão direita para o lado e para o alto, Hélio prontamente se punha a correr, desembalado, para acionar o sinal, a campainha.
Meia hora após o término das aulas, estando o patio já quase sem alunos, Seu Armando mandava abrir o portão de ferro ao fundo do Colégio dos Padres. Meninos pobres invadiam, correndo para o parquinho, a quadra do futebol de salão e a grande área do futebol de campo. Vários meninos se assomavam à porta da sacristia (a igreja integra o complexo educacional-esportivo), suas mãos ansiosas a requerer bolas e jogos de tabuleiro.
Ah, sim! Os meninos pobres se auto-intitulavam "perdidos"! Ah, não, não se trata de preconceito, pois somente os pobres se referiam aos meninos dessa forma. Fiz amizade com alguns deles, o Marcelino, o Amauri,... e perambulando com estes meus amiguinhos pelas ruas à caça de pipas e outras distrações, fui por vezes repreendido: "Deixa de andar com os perdidos!". Broncas vindas de seus vizinhos, lamentando ver um jovem "rico" de futuro promissor, perdendo tempo com os remediados. Realmente acreditavam que eu não devia estar ali.
Nunca aceitei esse conceito, o de meninos perdidos, pensando comigo: "Perdidos por que? São meus amigos, bons amigos!"
terça-feira, 29 de outubro de 2019
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