A curiosidade era aguçada pela escassa informação disponível. Na escola, aprendíamos o que estava registrado nos livros: dentre os três tipos de países: Desenvolvidos, Em desenvolvimento, Subdesenvolvidos, o Brasil era país Em desenvolvimento. Um livro do primário afirmava que quem fala mau do governo é mentiroso. Fui criado com a sólida noção de que o Governo pensa em tudo e é capaz de prover tudo da melhor forma para o bem de todos. Líquido e certo.
Atenção senhores pais... pronunciado por uma voz grossa e séria, enquanto na tela da TV se via um papel branco carimbado e assinado, com linhas e letras negras ilegíveis. Era a indicação da faixa etária à qual o programa era proibido, ou melhor, inacessível, já que de pronto, os menores deixavam a sala, sem choro nem vela. ...este programa é proibido para menores de 12 anos. Chato assim. A implacável censura, já bem relaxada pelo fim do 'mandato', mas nada parecida com hoje, em que nada se proíbe, apenas se desaconselha. Uma evidência daqueles tempos é o vinil da banda Blitz, com duas faixas riscadas a estilete. Não, não os tenho, mas me lembro bem, nem adiantava tentar tocar que arrebentava a agulha do toca-discos (saiba mais em http://migre.me/lkxQr).
Nasci em 1969, 5 anos após instalado regime, um período conturbado. Cheguei à quarta série do primário em 1979, sem que ouvisse nada além da crise internacional do petróleo e da inflação, hiperinflação, dívida externa. Transamazônica, Ferrovia do Aço, Angra dos Reis, Itaipú eram outros nomes comuns. Figueiredo, Delfim Netto, Jarbas Passarinho eram arroz de festa, mas nem de longe divertidos como Geisel, que se podia 'escrever' na maquininha, a calculadora com dígitos em fósforo verde.
A música de Geraldo Vandré, proibidíssima, era cantada nas missas da Igreja de Santa Cecília, em minha cidade natal, sem alteração alguma na letra. Mas o contexto aqui não era a atitude de protesto político, mas a atitude cristã.
A programação da TV Globo deixava vazar raras gotas de realidade. Em certo quadro do Planeta dos Homens, humorístico, um pai exemplificava ao filho a inflação monetária, adicionando água (dinheiro sem lastro) a um copo de leite (dinheiro real, fundeado no tesouro nacional). Essa água era adicionada pelo pai em três ou quatro medidas, até que o menino retrucava: "Pai, isso não é inflação, é o leite que nós bebemos".
Um primo jornalista da Globo me explicou que as novelas eram compradas pelo Governo, o que explicava o fato de - sempre - alguém pobre ascender socialmente pelo matrimônio, dando ao povo a esperança de que se podia conseguir uma condição melhor na vida. Alguns anos mais tarde, um professor de cursinho explicou exatamente o mesmo.
Porque tanto a Globo? Simples, era canal com melhor qualidade de som e de imagem, além de um conteúdo superior às poucas opções disponíveis. TV Record, TVS (antecessora do SBT), TV Bandeirantes, TV Manchete (nascida no início da década de 80). Detalhe, a TV Globo do Rio, com o ambiente carioca dominando o noticiário nacional e ditando a moda.
Minha infância corria tranquila, entre família, pipas, criação de canarinho, estudos. Minhas pipas voavam ao som de Chico Buarque (Meu caro amigo), Rita Lee (Mania de você), Gilberto Gil (Realce), Gal Costa (Só louco), Elis Regina (Trem azul), Toquinho e Vinícius (Tarde em Itapuã), Milton Nascimento (Bailes da vida), Roberto Carlos (Detalhes), Beatles (Help!), ABBA (Fernando), Bee Gees (Tragedy) e discoteca em geral (Born to be alive, Don't let me be misunderstood). Os infantis Saltimbancos e Plunct! Plact! Zum!. As coletâneas de country americano nas marcas de roupa jeans Lee (Lee Original Country Music) e Staroup (You made it right). Da TV, as trilhas sonoras de novelas pela Som Livre (Estúpido Cupido) e Sítio do Pica-pau Amarelo (que gostosa a canção-tema do Pedrinho). Bons tempos.
Embora não me sentisse à vontade na ignorância das coisas, eu não tinha muita noção do que se passava. Meus pais faziam malabarismos para driblar a inflação, comprando e estocando o que podiam, tão logo meu pai recebesse o salário. Em uma aula no 1º ano do colegial, um professor de química quebrou as regras e explicou que sua classe profissional era proibida de falar em política dentro de sala de aula, acrescentando que o Brasil era na verdade um país subdesenvolvido.
Embora não me sentisse à vontade na ignorância das coisas, eu não tinha muita noção do que se passava. Meus pais faziam malabarismos para driblar a inflação, comprando e estocando o que podiam, tão logo meu pai recebesse o salário. Em uma aula no 1º ano do colegial, um professor de química quebrou as regras e explicou que sua classe profissional era proibida de falar em política dentro de sala de aula, acrescentando que o Brasil era na verdade um país subdesenvolvido.
De alguma forma, fiquei marcado pela atitude rebelde dos jovens da época, mas apenas para descobrir, já na faculdade, pouco após finda a Ditadura, que a rebeldia fora substituída por apatia. Essa não existia mais. Meus colegas na universidade não tinham o menor interesse em se mobilizar para fim algum. No máximo, reclamavam de algum professor, pelas costas, se muito. Certa vez, contrariados com o reitor, promovemos a única reunião coletiva nos 5 anos em que estive lá, sem conseguir nada além: "E vamos lá pro centro da cidade prá quê? Ficar na praça de braços cruzados olhando prá todo mundo?".
Um outro aspecto ainda mais incômodo: éramos facilmente manipuláveis. Aquela mesma reunião terminou conduzida por um colega contrário aos interesses pretendidos pelo movimento. Anulava a manifestação enquanto ele próprio ascendia na atenção da direção da faculdade. Foi a primeira vez que vi algo assim, mas não a última.
Um outro aspecto ainda mais incômodo: éramos facilmente manipuláveis. Aquela mesma reunião terminou conduzida por um colega contrário aos interesses pretendidos pelo movimento. Anulava a manifestação enquanto ele próprio ascendia na atenção da direção da faculdade. Foi a primeira vez que vi algo assim, mas não a última.
Da hora Dascow!
ResponderExcluirLembro de algumas coisas citadas...