Começo este texto sem saber qual título terá, porque falo de gente muito próxima, sempre em meu coração, apesar do pouco contato que tivemos.
Com apenas 8 anos de idade fumou o primeiro baseado. Ele tão teve chance, não teve escolha: com uma natural dificuldade de evitar uma vontade, aos 12 já estava viciado. Minha família lhe era uma referência, acorrendo a nós algumas vezes. Sentado na sala, como um jovem hippie, explicava entusiasmado que havia queimado as trocas de roupa que recebera, pois era deus. Em outra ocasião, insistiu que dormiria em nossa casa, uma casa cheia de crianças. Em sua cintura, uma enorme faca.
Sua relação familiar, no seio de sua família, foi triste e violenta, nem sei dizer a quem foi pior. Sua mãe era pele e osso - sem exagero - de tanto sofrer, um sofrimento muitas vezes provocado e imposto por um filho obcecado pelas drogas. Em casa nada possuíam, pois qualquer item era logo vendido ou trocado. Certa tarde apareceu no portão de casa oferecendo um xaxim de samambaia.
As oportunidades de frequentar nossa casa nem foram tantas assim, se comparadas à frequência na delegacia, em unidade de tratamento, no sanatório. A prisão chegou a ser acionada pela própria mãe, que encenava verdadeiros teatros e casualidades, temendo a represália do filho. A encenação era tanta, que ao menos uma vez, ela impediu mesmo que ele fosse preso.
Eu já era adulto e cheguei a visitá-lo no Sanatório. Seus dedos da mão direita sempre escurecidos, pelo uso frequente do cigarro, talvez sua unica distração. Em algumas ocasiões, ele bem que se esforçava, mas não conseguia articular palavra. Em outras, com dificuldade, formou frases que já não expressavam sentimento, apenas respondia às minhas perguntas. Ele demonstrava uma calma alegria de estar com alguém conhecido.
Ainda o vi circulando pelas ruas, à noite, em companhia prá lá de suspeita. O convidei a tomar um refrí, no que ele recusou, mostrando que tinha que seguir adiante. Insisti, de nada adiantou. Pensei em intimar. Mas só retardaria um pouco o inevitável.
Sua mãe repetia sempre que tinha fé em sua recuperação, mas já havia virado um lema vazio, não tinha mais como. Ele já tinha mais de 40 anos! Alguns anos antes, ela passou o Natal conosco, ficando em casa mais alguns dias. Minha mãe a encontrou a tatear, com ambas as mãos, a parede branca da sala. Perguntada do que fazia, respondeu: 'Aqui havia tanta vida, tanta alegria...'.
Ao conversar com sua mãe pela uma última vez, notei uma inesperada alteração em seus anseios, a fé havia se esvaído. Duas semanas após, ele jazia nos fundos de sua casa. Sua mãe, chorando sobre seu corpo, lamentando a morte do - agora - melhor filho do mundo, assumindo a insana decisão de haver contratado um matador. No jornal, uma nota fria, incapaz de uma mínima centelha do horror ao qual aquela mãe esteve submetida nas últimas três ou quatro décadas.
Descanse na paz de Deus, meu primo, descanse na paz de Deus, minha prima.
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