quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Conhece o Neguinho?

Apresento o Neguinho, um menino que aos 15 anos de idade, passou a morar em nossa república de engenheiros, da noite para o dia. Explico: ele vinha sendo criado em um orfanato, desde a morte de sua mãe, a empregada doméstica do meu patrão. Ao completar essa idade, o Neguinho já não podia mais permanecer na instituição. Assim, do nada, naquele fim-de-tarde em que cheguei no escritório central, fui apresentado a ele, com todo o entusiasmo, pelo meu patrão. E também soube que ele passaria a morar conosco. Maurício é seu nome, negra é a sua tez.
Ao Maurício, estava destinada a edícula, com direito de uso da cozinha da casa, o que lhe garantia a chave de uma das portas da casa.
Nossa república já vinha formada há mais de um ano, mas desta vez estávamos em casa nova, na Rua Barão do Bananal, no bairro Pompéia, em São Paulo. Era uma casa assobradada, destacada da vizinhança pela cor laranja-vivo das janelas e portas, e respectivas molduras de cor preta. Essa parte também tenho que explicar: eu trabalhava em uma construtora, que lidava principalmente com reforma de escolas. A empresa possui um depósito de materiais repleto de tintas, algumas para pintar as portas de saída de emergência, na cor laranja-vivo...
Os engenheiros trabalhavam no Estado todo e se hospedavam na república quando vinham à sede, na capital. Permanentes mesmo, só eu e o Gaguinho, que praticamente nunca saíamos da capital.
De volta ao Mauricio, bem que tentamos acolhê-lo e até educá-lo, por exemplo, exigindo que fizesse a refeição manuseando, devidamente, um garfo e uma faca, ao invés de uma colher. Mas...
O problema começou na cozinha: ele era incapaz de lavar o que usou. Aliás, melhor assim, porque percebemos que ele usava a esponja para esfregar o chão. Vendo isso, perdi a cabeça e gritei muito com ele,' porco!'.
E o problema avançou para os quartos: consumia sem parcimônia o que havia na geladeira, e subia ao quarto do gaguinho, para desfrutas de suas Playboys. Mesmo proibido dessas aventuras pela casa, era fácil saber que ele andava por lá, o rapaz desconhecia limites.
E o problema se estendeu para o escritório (ah, sim! Nosso patrão também tentou lhe dar um meio de sustento). A gota d'água foi quando ele apareceu por lá, calçando os tênis do Gaguinho, sendo flagrado pelo próprio.
Trocamos o segredo das portas de acesso à casa e o deixamos de fora, ocupando somente a edícula. Percebi que ele passava fora boa parte da noite, mas não sei o que fazia, dizia que estava no Estádio do Palmeiras. Enquanto isso, no escritório, o Departamento de Pessoal tentava encontrar alguém com ele pudesse trabalhar ou ao menos um serviço que ele cumprisse. Mas não teve jeito, nem ao menos cópias xerox ele entregava a contento, nem queria.
Passadas algumas semanas, a república foi desfeita e o rapaz teve sua moradia transferida para o almoxarifado da empresa. Ali permaneceu até denunciarem o furto de materiais do estoque,  que segundo me disseram eram trocados por dinheiro e drogas. A este momento, eu já não trabalhava mais lá. Foi o golpe de misericórdia.
Menos mau, pois também veio à tona que, quando na atividade de boy, ele chegou a desfazer-se dos documentos em uma lixeira qualquer, e seguir o expediente matando o tempo na praça.
Tenho pena do Neguinho. Imagino que talvez nem esteja vivo, pois as condições legadas à sua vida foram bem precárias, não teve acesso a cultura, a algo que lhe incutisse boa vontade ou disposição. Mas não posso negar que tentaram ajudá-lo. Eu também tentei, mas tão pouco.


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