terça-feira, 25 de agosto de 2015

Sebastião Fermiano (Capítulo 3)

Capítulo 3 - Da oração à ação

Sebastião aplicava-se na oração do terço, mas um incômodo o perturbava constantemente: comparado ao formidável resgate de sua vida, sentia que tinha feito pouco e acreditava que precisava realizar muito mais! Uma ideia começou então a ganhar forma em sua mente: lembrou-se de que, quando percorria as casas do Jardim América, seus companheiros de terço sempre lamentavam a falta que fazia uma capela no bairro, que era tão grande! Passou a se perguntar, se não seria o caso de juntar um grupo de pessoas de boa vontade para levantar essa sonhada capela...

Por essa altura, como já frequentasse a igreja de Santa Cecília e mantivesse um bom relacionamento com o Padre Chico, aquele mesmo que lhe entregara um terço para que rezasse pela paróquia, resolveu procurá-lo em busca de orientações. Expôs sua intenção de fazer algo mais do que rezar, tentando movimentar o povo do seu bairro para que juntos construíssem uma capela no Jardim América.  O padre aprovou a ideia, que vinha bem a calhar, pois se tratava de um grande desejo seu, para o qual já dispunha até de terreno e da planta aprovada!

Sebastião lutou tanto em prol da construção da capela, que este breve relato não conseguiria detalhar todo o trabalho que desenvolveu. De começo, assumiu a liderança do movimento. Arregimentou amigos e conhecidos e se lançaram à luta para arrecadar fundos e levantar a capela. Pediam donativos de porta em porta e faziam mutirões para as diversas fases da obra, desde a preparação do terreno até o acabamento. Sebastião arregaçava as mangas, fazia um pouco de cada coisa, preocupado com que tudo ficasse bom. Desempenhava todas as funções, aprendendo, fazendo e ensinando, mas - sobretudo - animando a todos para que a obra seguisse em frente!

E fazia mais: diariamente, após o exaustivo expediente na FNV, nos fins de semana e feriados, criou uma equipe sui generis que trabalhava sem esmorecer: junto à esposa, aos filhos e alguns amigos, Sebastião punha mãos à obra, no fabrico dos blocos de cimento necessários ao erguimento das paredes... 

As funções litúrgicas tiveram início com o prédio já coberto e ainda sem rebocar. Foram precisos vários anos, até que a capela chegasse à situação atual, quando funciona como o local onde uma comunidade dedicada e operosa se congrega, reza e eleva louvores a Deus!

Capela de São Benedito, erguida por Sebastião Fermiano, familiares e amigos

A Capela de São Benedito, vista mais de perto. Está situada no bairro Jardim América, em Cruzeiro-SP

Por decisão do Vigário, Sebastião e família se mudaram para um ‘puxado’ construído nos fundos da capela. O conforto de residir junto ao edifício sacro se justificava pelas obrigações de Sebastião e família, que não cessavam de se multiplicar: Sebastião era o vigia, o sacristão, o catequista e também o líder da comunidade, posição exercida por um bom número de anos.

A função de catequista custou a Sebastião muito esforço e grandes preocupações, pois  não queria que os alunos percebessem sua leitura deficiente... Na véspera de uma aula, sempre pedia a alguém discreto que lesse algumas vezes para ele o texto, que seria explicado no dia seguinte. Prestava muita atenção e tentava memorizar o máximo possível. Assim, durante as aulas, simulava ler os textos, esmiuçava o seu conteúdo e, assim, catequizava as crianças. Se percebia haver entre as crianças um menino mais desenvolto na leitura, transferia-lhe a função de leitor, ouvia-o atento e entrava depois com as explicações... E com todo esse enorme esforço, ganhavam as crianças, que aprendiam a doutrina e ganhava ele, que além de anunciar o Reino, ia crescendo na arte da leitura, até que acabou lendo razoavelmente...

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