Um começo complicado...
No primeiro passo de sua nova vida, Sebastião dirigiu-se à Matriz da
Imaculada Conceição em Cruzeiro, para comunicar ao vigário que havia concluído
um Cursilho e oferecer seus préstimos (que ele não sabia bem quais seriam...).
A resposta foi curta e grossa: “Cursilhistas são todos um fogo de palha! Saem
de Aparecida cheios de entusiasmo, mas passadas duas ou três semanas, não vejo
mais nenhum aqui na igreja!”. Recusou a ajuda, mas sugeriu que procurasse o
Padre Cândido, na outra paróquia que havia em Cruzeiro.
Meio desapontado, Sebastião dirigiu-se à paróquia de Santa
Cecília, onde encontrou um senhor sentado e rezando o terço. Dirigiu-se a ele e
perguntou onde podia encontrar o Padre Cândido. – “Sou eu mesmo, Padre
Francisco Cândido da Silva, às suas ordens”. Sebastião apresentou-se, falou do
Cursilho e se ofereceu para fazer alguma coisa na paróquia. O Padre ficou uns
instantes quieto e Sebastião pensou com seus botões: “Pronto, agora vai me
mandar para alguma paróquia de Cachoeira...”. O Padre Cândido mostrou-lhe o
terço que estava em suas mãos e perguntou: - “Sabe o que é isto, Sebastião?”
–“Sei, sim senhor, é um terço!” –“Toma, leva com você e reza pela nossa
paróquia e já estará ajudando muito!”
Sebastião foi embora com o terço na mão, pensando no que faria, ele que
era tão destreinado das coisas de oração... Mas tranquilizou-se ao lembrar que
sua esposa Maria vivia de terço na mão e poderia bem lhe ensinar o jeito de
rezar aquelas contas marrons. Mas a resposta dela... “Ah, eu sei rezar só prá
mim, Tião, não sei ensinar ninguém, não!”. Desconsertado, ele apertou o terço
na mão e pediu a Deus que o ajudasse a não falhar, logo na primeira tarefa que
lhe davam.
No dia seguinte, o companheiro de trabalho que o convidara para o
Cursilho veio lhe perguntar se ele poderia ajudar num trabalho novo que estava
realizando, com mais alguns amigos no bairro Jardim América. Eles visitavam as
famílias católicas do bairro para rezar o terço diante de uma imagem de Nossa
Senhora, que levavam de casa em casa. Alegre, Sebastião aceitou o convite e
passou um período de uns três meses acompanhando a reza do terço, como lhe fora
encomendado. Passado esse tempo, não havendo novas casas a visitar, cessaram as
visitas. E Sebastião sentiu-se perdido, pois não aprendera de cor a
contemplação dos mistérios do terço...
Desconsolado, certa manhã de domingo levantou-se cedo e
caminhou até a igreja de Santa Cecília, onde se sentou diante do Santíssimo com
o terço na mão e pôs-se a pedir ajuda a Jesus. Foi quando um cursilhista seu
conhecido pôs a mão em seu ombro e lhe perguntou o que o afligia. Explicado o
problema, Sebastião foi desafiado a ler a página 25 do livrinho “Guia do
Peregrino”, que recebera no Cursilho e trazia consigo no bolso da sua camisa.
Leu com enorme dificuldade, mas como conseguira ler algo, recebeu uma bronca:
“Ah, Sebastião, nessa página e nas seguintes estão os Mistérios do Terço. Você
lê com dificuldade, mas consegue, vá em frente!”. Assim, aos poucos, Sebastião
começou a caminhar com as próprias pernas na recitação do terço e das orações
mais importantes. O cursilhista que lhe ensinou o “caminho das pedras” era
outro Sebastião, José Sebastião Penido, meu pai.
***
“Eu não tive estudo, graças a Deus”,
declarou Sebastião, levando às gargalhadas os cerca de 70 cursilhistas atentos
ao seu ‘rollo’ (palestra) e imaginando que o palestrante se declarava aliviado
por ter ficado livre de frequentar a escola.
Mas, Sebastião prosseguiu com ternura, se justificando: “Eu digo
assim por que entendo que tudo é graça de Deus. E por isso eu agradeço a Ele
tudo o que acontece em minha vida, de bom ou de ruim.”
(72° Cursilho para homens, Lorena-SP, 1992).
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