quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Sebastião Fermiano (Capítulo 2)

Um começo complicado...

No primeiro passo de sua nova vida, Sebastião dirigiu-se à Matriz da Imaculada Conceição em Cruzeiro, para comunicar ao vigário que havia concluído um Cursilho e oferecer seus préstimos (que ele não sabia bem quais seriam...). A resposta foi curta e grossa: “Cursilhistas são todos um fogo de palha! Saem de Aparecida cheios de entusiasmo, mas passadas duas ou três semanas, não vejo mais nenhum aqui na igreja!”. Recusou a ajuda, mas sugeriu que procurasse o Padre Cândido, na outra paróquia que havia em Cruzeiro.

Meio desapontado, Sebastião dirigiu-se à paróquia  de Santa Cecília, onde encontrou um senhor sentado e rezando o terço. Dirigiu-se a ele e perguntou onde podia encontrar o Padre Cândido. – “Sou eu mesmo, Padre Francisco Cândido da Silva, às suas ordens”. Sebastião apresentou-se, falou do Cursilho e se ofereceu para fazer alguma coisa na paróquia. O Padre ficou uns instantes quieto e Sebastião pensou com seus botões: “Pronto, agora vai me mandar para alguma paróquia de Cachoeira...”. O Padre Cândido mostrou-lhe o terço que estava em suas mãos e perguntou: - “Sabe o que é isto, Sebastião?” –“Sei, sim senhor, é um terço!” –“Toma, leva com você e reza pela nossa paróquia e já estará ajudando muito!”

Sebastião foi embora com o terço na mão, pensando no que faria, ele que era tão destreinado das coisas de oração... Mas tranquilizou-se ao lembrar que sua esposa Maria vivia de terço na mão e poderia bem lhe ensinar o jeito de rezar aquelas contas marrons. Mas a resposta dela... “Ah, eu sei rezar só prá mim, Tião, não sei ensinar ninguém, não!”. Desconsertado, ele apertou o terço na mão e pediu a Deus que o ajudasse a não falhar, logo na primeira tarefa que lhe davam.

No dia seguinte, o companheiro de trabalho que o convidara para o Cursilho veio lhe perguntar se ele poderia ajudar num trabalho novo que estava realizando, com mais alguns amigos no bairro Jardim América. Eles visitavam as famílias católicas do bairro para rezar o terço diante de uma imagem de Nossa Senhora, que levavam de casa em casa. Alegre, Sebastião aceitou o convite e passou um período de uns três meses acompanhando a reza do terço, como lhe fora encomendado. Passado esse tempo, não havendo novas casas a visitar, cessaram as visitas. E Sebastião sentiu-se perdido, pois não aprendera de cor a contemplação dos mistérios do terço...

Desconsolado, certa manhã de domingo levantou-se cedo e caminhou até a igreja de Santa Cecília, onde se sentou diante do Santíssimo com o terço na mão e pôs-se a pedir ajuda a Jesus. Foi quando um cursilhista seu conhecido pôs a mão em seu ombro e lhe perguntou o que o afligia. Explicado o problema, Sebastião foi desafiado a ler a página 25 do livrinho “Guia do Peregrino”, que recebera no Cursilho e trazia consigo no bolso da sua camisa. Leu com enorme dificuldade, mas como conseguira ler algo, recebeu uma bronca: “Ah, Sebastião, nessa página e nas seguintes estão os Mistérios do Terço. Você lê com dificuldade, mas consegue, vá em frente!”. Assim, aos poucos, Sebastião começou a caminhar com as próprias pernas na recitação do terço e das orações mais importantes. O cursilhista que lhe ensinou o “caminho das pedras” era outro Sebastião, José Sebastião Penido, meu pai.

***

“Eu não tive estudo, graças a Deus”, declarou Sebastião, levando às gargalhadas os cerca de 70 cursilhistas atentos ao seu ‘rollo’ (palestra) e imaginando que o palestrante se declarava aliviado por ter ficado livre de frequentar a escola.  Mas, Sebastião prosseguiu com ternura, se justificando: “Eu digo assim por que entendo que tudo é graça de Deus. E por isso eu agradeço a Ele tudo o que acontece em minha vida, de bom ou de ruim.” 


(72° Cursilho para homens, Lorena-SP, 1992). 

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