sábado, 30 de maio de 2015

Na fome, a solução

"Algum dia, em qualquer lugar, impreterivelmente,
Haverás de encontrar-se contigo mesmo.
E só depende de ti, que este seja o teu melhor momento,
ou as mais amargas de tuas horas."

O pensamento acima sumariza lições do viver e chancela profecias religiosas. Sua ciência, tida como uma espada sobre a cabeça de alguns, é estrela de alto mar para outros.

Assistimos recentemente aos protestos dos professores da rede de ensino do Paraná, bem como o rechaço desmesurado, calcado na dotação milionária de armas e munições que marcaram os corpos de civis que lutavam por seus direitos.

A multidão que se postou frente a um exército em ordem de batalha, exigia o respeito à classe, a seus direitos e à Educação. O valente e destemido clamor foi respondido pelo Governo com massacre, diversas desculpas e nenhum pedido de desculpas.

O dramático desenrolar dos eventos, todavia, ainda segue no Centro Cívico, onde dois professores e uma aluna universitária seguem acampados em Greve de Fome, acorrentados a um poste defronte à Assembléia Legislativa.

A fome, um dos maiores tormentos da humanidade, é também uma nobre força política, à qual recorrem os que mais precisam de justiça. Seu poder está gravado na história moderna por Mahatma Gandhi, o líder carismático de centenas de milhões de indianos que dobrou os joelhos imperiais.

Aqui no Centro Cívico, os três ativistas são heróis anônimos. Seu sacrifício já entra pelo décimo dia sem acompanhamento médico, nem mesmo a atenção dos deputados que passam os dias a poucos metros dali. A firmeza de seus ideais contrasta com a penúria legada à Educação no Brasil, escancarando a postura distante e inalcançável daqueles que há poucos meses atrás rapinavam nossos votos, mas agora detém o Poder para cuidar de interesses pessoais.

O brasileiro acolheu passivamente a muitos desgovernos, mas a conta já começa a ser cobrada, após os anos de pujança econômica em que brilhamos aos olhos do mundo como promissora potência. Entráramos nessa Era como uma nação de bananas, que exportava bens primários e os importava de volta beneficiados, a mesma condição à qual retornamos: um país carente da indústria de semicondutores, microeletrônicos, lâmpadas fluorescentes ou o que seja relevante. No mais, bananas, soja, gado, minério de ferro.

Na aurora do Novo Milênio, o Brasil tem à frente a visão de terra arrasada, com a produção industrial no declínio do resfriamento econômico aliado à falta de energia elétrica da escassez hídrica. Nossas cidades, saturadas e imobilizadas, se mostram enormes demais para se manter com a água que sobrou, apontando  o êxodo como provável solução. Como acomodar hordas urbanas, acostumadas a um elevado consumo e inábeis à lida na terra?

A água responde grosso ao descaso: décadas de desmatamento contínuo provocam alterações climáticas na Amazônia, já em risco de ultrapassar o Ponto de Não Retorno, no qual nossas melhores regiões econômicas seriam condenadas ao mesmo clima desértico dos domínios tropicais do Saara, Oceania e Atacama - conforme o recém-lançado Futuro Climático da Amazônia. O desmatamento segue descontrolado.

O bioma Cerrado, por sua vez em acelerado processo de extinção, está secando pequenos rios nas cabeceiras de grandes bacias hidrográficas, pondo em xeque a sustentabilidade da Fronteira Agrícola, a produção de insumos primários como a soja e o gado, que evitariam o colapso da economia.

A escassez hídrica, sistematicamente relevada e minimizada, corrói os alicerces da Economia, drenando os reservatórios das hidrelétricas e o suprimento das grandes cidades. O socorro das termelétricas migrou da emergência para a regra, pressionando os custos de produção e comprometendo a retomada econômica.

De assalto, o Brasil virou negócio da China, o gigante que prudentemente aguardou o parceiro Brick vergar, como se esperaria de um país atolado em uma inversão de valores ímpar. O acordo bi-lateral prevê mais gado e um porto no Peru, escoando nossas riquezas através de 4400 km dos trilhos de uma futura ferrovia transamazônica. O triste consolo de quem não conseguiu o seu trem-bala, contribuirá ainda mais para a crise hídrica.

A China, célebre por anexar e devastar o Tibete, submetendo sua população à condição de sub-raça, será o próximo império a golpear a Floresta Amazônica, a grande fonte das chuvas que sustém o clima desde Cuiabá até Buenos Aires.

E nosso povo empobrece a golpes de austeridade, ineficazes ante a farra do dinheiro público, mas sempre subtraindo recursos financeiros da Educação, desequilibrando nossa réstia de um futuro melhor: as novas gerações.  

Então, os três heróis do Centro Cívico acentuaram a luta de todo brasileiro por dignidade, não se prostrando às circunstâncias, às salas de aula abarrotadas de alunos ávidos pelas informações de seus próprios celulares, ao ataque de pais que acusam  no professor o reflexo de sua própria incompetência como educador.


Nossos três heróis se auto-flagelam pela fome para gritar alto a missão sobre-humana de forjar Homens e Mulheres no ambiente corrompido de nossa nação. Já não dá mais para agir com cautela e o caos já se ergueu no horizonte a passo veloz: a sociedade brasileira, assim como o clima da Amazônia, se aproxima do Ponto de Não Retorno, após o qual está o colapso e o deserto. 

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