Estávamos desanimados com o nosso próximo passeio. E era para Ubatuba. Eu andava down e contagiei a turma. Mas o Cléber não cedeu. Kleber K, ele se auto-nomeava. De baixa estatura, cor morena, boa aparência, inteligente e espirituoso.
'Mas vocês estão desanimados demais!!', se irritou com turma. 'Vamos cantar!', E mandou o sucesso da época: 'Toda vez que eu chego em casa, a barata da vizinha tá na minha cama...', acompanhamos, mais por educação. O cara não se abatia e sustentava os acordes. Cantava muito bem.
O Cléber conduzia o pagode e fazia cada um entrar na roda: 'Diz aí Coqueiro, o que cê vai fazer?'. O Coqueiro respondeu: 'Eu vou pegar um pau prá me deeefender'. Menos desanimados e em coro, respondemos: 'Ele vai dar uma paulada na barata dela! Ele vai dar uma paulada na barata dela!'
O Cléber apontou para o próximo: 'Diz aí Fernando o que cê vai fazer?', com resposta do Fernando: 'Eu vou pegar um inseticida prá me deeefender'. E o coro seguiu: 'Ele vai dar uma tonteada na barata dela! Ele vai dar uma tonteada na barata dela!'.
Chegou a vez do Marinho, camarada calmo, gentil, um olhar amigo até debaixo d'água. 'Diz aí Marinho o que cê vai fazer?'. O Marinho vacilou na resposta 'Êeer..'. O Cléber puxou o coro: 'Ele NÃO VAI FAZER NADA com a barata dela! Ele NÃO VAI FAZER NADA com a barata dela!'. Rimos muito! O Marinho, de tão amigo, achou graça do próprio mico.
Alguns dias depois, esses 5 caras lotaram o gol quadradinho azul EB-7865 ano 1989, para se alojar próximo à Praia de Ubatu-Mirim, na semana do carnaval de 1994. Foi memorável.
Ficamos uma semana em uma casa de caçador, a 25 km do centro da cidade, sentido Parati-RJ, 3 km Mata Atlântica adentro, no sentido contrário da praia, em estrada de chão com subidas cada vez mais íngremes. A via era tão precária que um trecho era só rocha. Chegava-se a uma clareira inclinada, com casas espaçadas. O piso era um cimentado simples e os colchões, espumas sem capa. Não tinha luz elétrica ou água encanada. A água chegava só até o vizinho de baixo, que nos ajudava improvisando um mangueirão para a nossa caixa d'água. Tínhamos o suficiente para um banho básico, cozinhar alimentos e lavar a louça.
Mas haviam camas e beliches, e tínhamos lanternas, creme repelente de insetos, comida e o Coqueiro era um cozinheiro de mão-cheia. A cerveja era bebível enquanto durava o estoque de gelo comprado nos postos de gasolina e socados na caixa de isopor.
Chegamos ao local na madrugada de sábado, após uma descida da serra engarrafada. Naquela pirambeira, foi possível estacionar o carro no acesso plano de uma casinha. O Cléber e o Marinho saíram de lanternas em mãos, a procurar pela casa. O calor era infernal e ao abrir as janelas do carro, descobrimos mais um detalhe importante: o lugar era coalhado de insetos, tantos que a menor fresta de vidro aberto já nos punha às voltas com insetos de todas as variedades.
Um detalhe adicional é que o Marinho soube nos guiar até lá, mas não se lembrava de onde estava a casa, acho que nem nunca tinha ido lá! O tempo passava e ora eles subiam a rua, ora desciam, os fachos das lanternas a balançar de maneira errática, desencontrados. E dentro do carro, dissolvidos em calor, uma discussão acalorada sobre aguentar o calor ou os insetos.
Contra todas as esperanças, encontraram a casa, ela ainda estava lá! Descarregando o carro e lambuzando a pele de creme repelente, foi só lançar os lençóis sobre os colchões e dormir!
Um persistente bater de tampas de panela irrompeu naquela madrugada ensolarada, acompanhados pelos gritos do Cléber: 'Vamos lá, galera! O dia tá lindo, vamos aproveitar a manhã, tem que acordar cedo!' Eram só 6 horas da matina, mas para ele, já tínha praia. Foi assim toda manhã.
De dia, descobrimos que era a hora dos borrachudos. Então havia mesmo um bom motivo para correr para a praia.
Os dias eram longos, começando às 6h e terminado após as 2 da manhã, sempre visitando uma praia qualquer de manhã, a Praia Grande à tarde e o centro da cidade à noite. De cansados, dormíamos na areia, sob o guarda-sol.
Chegamos a uma exaustão tão grande que, certa noite, voltando da madrugada da Praia do Lázaro - o point naquele ano - às 4h da madruga, com todos dormindo no carro, eu já não resistia ao sono. O Cléber acordou com os solavancos do carro passando sobre as tartarugas da sinalização da pista. 'Você não acha melhor eu dirigir?'. Com ele na direção, seguimos para casa.
Naquele fim-de-mundo, em meio àquele mato, duas garotas passaram por mim, duas gatas, uma delas carregando um enorme cacho de bananas. Uma visão surreal. Animado, entrei na casa alardeando o que vi. Ninguém reagiu, estavam certos de que só podia ser miragem.
Kleber K. K de K-nalha, K de K-fajeste, K de K-chorro. Reunia a turma em todo fim de semana para nadar nos poços da Serra da Mantiqueira, pedalar, acampar, bater um bom papo. Intimava a todos logo de manhã, com um assovio parecido com o apito da Polícia Militar. Acordar com aquele assovio era puro ar entrando nos pulmões.
Nos organizava, guiava os passeios e trilhas, amarrava cordas para vencer os desníveis, bolava fotografias que impressionavam as garotas, nos entretinha, nos incentivava, nos fazia cantar, nos fazia rir. Chorar de rir, perdendo o fôlego, eu, meu irmão Fernando, os amigos especialíssimos Marinho e Coqueiro.
K de K-sado, praticamente só nos vemos para recordar aqueles dias ensolarados.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
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Ai ai...depois de tantos pensamentos nostálgicos das últimas semanas, ler e relembrar essa história me traz mais lembranças ainda dos anos 90...a adolescência realmente é uma época sensacional da vida! Obrigado por mais essa Dascow. Um bjo!
ResponderExcluirJohnny Utah (como eu era conhecido naqueles tempos) um cara batuta!
Johnny Utah!! Obrigadão, amigo batuta!!
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