Bem humorada, Karin falava com rapidez, quase atropelando as sílabas, os "erres" sempre destacados. Bem disposta, se dispôs a esquadrinhar a produção cartográfica na área de Cadastro, supervalorizando seu esforço por conta dos pinos de alumínio nos joelhos, devido a uma queda de cavalo, havia tempos. Entabulamos uma conversa animada e ela reagiu com gargalhadas à minha acusação contra o quebra-molas no acesso a Ponta Grossa, que quase estragou uma viagem minha. Foi quando ela atirou: "Porque você não vem prá cá no fim-de-semana?", ouvindo com espanto o meu aceite "Estou indo!". Que tolice, "é claro que ele não vem".
Na tarde do sábado seguinte, estacionei à frente de uma casa de esquina no bairro Nova Rússia, ao término de uma viagem de 600 km. Ao meu lado, o inseparável amigo Marciel. Descemos do carro, um gol "quadradinho" branco, bati palmas. Me lembro bem da Karin, uma garota de 20 e poucos anos, descendo os poucos degraus à frente de sua casa, rindo e me chamando de maluco.
Nos recebeu em sua sala, ao mesmo tempo em que uma enorme aranha atravessou a parede oposta, próximo ao teto. Marciel e eu elogiamos a receptividade, as risadas já se transformaram em gargalhadas. Conhecemos sua mãe, comemos um bom bocado de delicioso doce de abóbora.
Meu Deus, quando me lembro desse "fim-de-semana", na verdade um feriado prolongado! O Paraná havia me encantado em 1996 e agora tornava a me acolher: as estradas, as paisagens amplas, o clima. Marciel registrava trechos em sua filmadora (enquanto depurava o fim de um relacionamento). Ouvíamos as oitavas de John Lennon e assistíamos às oitavas da harmônica paisagem, pontuada de majestosos pinheiros-do-paraná. "and my heart was beating fast" (Jealous Guy: https://goo.gl/SvUJkS).
Karin nos levou a todo lugar, contava tudo, explicava tudo: "esse semáforo foi copiado de Maringá, que aperfeiçoou o de Londrina. Custa uma nota!" Na Cachoeira da Mariquinha explicou que as rochas ali eram castigadas assim porque tudo ali já foi o fundo do mar! No caminho para lá, apontava as formações rochosas de talco. Na saída para Vila Velha indicou o hotel onde à noite os hóspedes podiam se reunir para ouvir histórias do tropeirismo. Nossa ida ao Cânion do Guartelá se deu por um "atalho" de dezenas de quilômetros em terra: os Campos Gerais! Adorei!
A meio caminho, paramos e descemos do carro para ver os extensos tapetes de soja. Marciel exclamou: "uma montanha de plantação!". Não resisti, passei pela cerca, corri campo adentro e brinquei de rodar "como a Noviça Rebelde!". Constatei que Julie Andrews só alcançou sucesso por ter girado em meio ao pasto e não à soja. Aquelas ramas me pegaram no contrapé e rapidamente desapareci da vista deles, jogado no chão duro e frio. Me levantei, mas os dois permaneciam na cerca, sem fôlego, sem conseguir parar de rir. Felizmente o Marciel não filmou a micagem.
Já noite, voltando de carro do Cânion de Guartelá, avançando na estrada, Ponta Grossa luzindo, esparramada e distante, à nossa frente. Como estávamos em declive, a impressão que dava era a de uma imensa plataforma de luzes erguendo-se e aproximando-se lentamente. Ela disse que já havia chorado por ver essa paisagem. Seu noivo era um apaixonado por essa mesma visão. Marciel e eu exclamamos "Você foi noiva!?", ao que ela encerrou o assunto com decisão: "Fui. Mas isso é conversa pra uma cerveja".
Queríamos ainda nos encontrar com o Malinski, colega de curso no INPE. Indicamos o endereço e perguntamos se ela sabia onde ficava. "Se eu sei onde fica essa rua?". Nos pôs no carro e nos levou lá. Era a rua atrás de sua casa! Malinski nos recebeu ali em seu escritório e depois em sua casa, mostrou-nos seu álbum de casamento, conversamos e rimos muito, especialmente das peripécias de do impagável Sestini, colega em comum. Na noite seguinte, jantamos juntos em uma churrascaria do outro lado da rodovia.
Nos levou à reunião juvenil do Rotary, onde era presidente. A primeira em que se atrasou e por causa de mim. Fomos apresentados à turma e ganhamos botons com a "Taça" de Vila Velha. Ah, sim! Ela também atuava na Defesa Civil e estava em prontidão nas calamidades urbanas.
Tantas coisas vividas, tantas coisas ditas, um só "fim-de-semana"! Karin nos levava aos melhores restaurantes, caaaros... Outros nem tanto: a deliciosa Happen Pizzaria, a lanchonete que intercalava músicas dos Beatles e de Elvis, o boliche.
Algumas vezes tentei esticar a viagem até Curitiba, mas ela chantageava cruelmente com o doce de abóbora de sua mãe. E lá permanecíamos.
Ao nos ajudar a encontrar hospedagem, uma surpresa: a cidade sediava um simpósio de odontologia, os hotéis estavam lotados. Para sorte nossa. Ela simplesmente tentou nos encaixar no hotel mais sofisticado e foi caindo o padrão, com miul pedidos de desculpas, a cada nova tentativa. Fomos hospedados no Lua Cheia, um hotelzinho próximo à rodoviária, com banheiro coletivo. Ela não sabia como se desculpar, nós ríamos! Tudo bem, à exceção de que na falta de garagem, meu carro dormiu na rua, me trazendo dificuldades para cair no sono.
Voltamos a São José, mas Karin resistia: enviou doce de abóbora por um conhecido que passaria por lá.
Três anos após, a notícia de que eu trabalharia em Curitiba. Karin comemorou por e-mail: "YES!". Logo que me organizei em um apartamento, agendamos um fim-de-semana em Ponta Grossa. Presentei cosméticos exclusivos da indústria onde eu trabalhava (ela adorava tirar chinfra das amigas) .Trocamos livros e CDs. Assistimos Matrix 2 e ao fim da sessão ela me explicou tudo do que se tratava no filme. Comemos pizza, conversamos muito, ela me dispôs seu quarto e sua cama. Se despediu e não se incomodou de dormir na sala.
Na manhã seguinte, antes de seguir ao aeródromo onde apoiava um evento da prefeitura, atendeu ao meu pedido de conhecer o bosque da cidade. Conversamos sobre espiritualidade, a danada também vivia em profundidade nessa área, embora nossas crenças divergissem. Contou um episódio de vidas passadas, na condição de sacerdote assistiu à invasão de seu templo egípcio, assistindo à turba que invadia e corria em sua direção. Estática aguardou o momento certo para dar a ordem que fez seus serviçais afetarem as colunas principais, fazendo tudo vir abaixo: "só aí são três mil pontos cármicos!". E ria, sempre bem humorada. Nada disso consta em minhas crenças, mas nos respeitávamos até ideologicamente.
Aliás, ela era inteligentíssima! Assinava seus e-mails "Karin TIM - Porque tudo é uma questão de Talento, Inteligência e Modéstia". Ainda por telefone me explicou o movimento judaico do hassidismo, coisa que eu desconhecia totalmente. Ela conhecia tantas coisas!
Algum tempo depois voltei à sua casa para apresentar minha namorada e futura esposa, Dulcinéia. Ainda após, Karin esteve em um curso em Curitiba, oportunidade na qual conheceu meu apê e com a Dulci almoçamos no restaurante vegetariano Sorella.
Os anos se passaram. Várias vezes estive em reuniões em Ponta Grossa, pela Sanepar. Passei perto, a serviço rumo a Castro e Guarapuava, e a passeio, à caça das cachoeiras gigantes de Prudentópolis. Ainda no ano passado pernoitei em sua cidade, retornando tarde da noite, da escola agrícola de Castro. Sempre tive a certeza de que seria bem recebido, bastaria apenas me organizar melhor no tempo.
2017. Véspera do meu aniversário, agendada uma palestra do Dia da Água em Ponta Grossa. Logo cedo me dei conta: convidar a Karin! Escrevi seu nome no Google, retornando a notícia derradeira motivada por um AVC, apenas dois meses atrás. Desconcertado, incluí um slide final, com sua foto e seu nome: "Antes de terminar, eu gostaria de fazer uma homenagem singela a uma mulher que foi servidora municipal por 20 anos. A Karin foi um exemplo, alguém que eu tive o prazer de conhecer. Ela era solteira e não deixou filhos, mas deixou um legado e aumentou a nossa responsabilidade."
Gente como eu valoriza momentos extensivos de introspecção, o que não deixa tanto espaço quanto gostaríamos para o convívio social. Lamentável não tomar pulso do próprio tempo, deixando escoar a escassa oportunidade de convívio com pessoas tão singulares como a Karin.
Encontrei um pouco mais de informação a seu respeito neste link https://goo.gl/io2KG7, publicado por ocasião do falecimento de seu pai Guilherme, dois anos antes. Soube então que sua mãe biológica falecera poucos dias após o parto, então aquela senhora com quem morava e dedicava atenção filial era, na verdade, sua avó. Deixou irmãos e sobrinhos. As raízes de sua família estão fincadas no tropeirismo, o que explica em parte sua paixão por Ponta Grossa e os Campos Gerais. Ela vivia e respirava aquilo tudo.
Seu amor por sua terra ajudou a despertar e consolidar o meu gosto por esta Região Sul. Sou grato por tê-la conhecido e convivido, ainda que tão menos quanto deveria. Agradeço ao senhor tantas pessoas realmente boas em meu caminho, como a Karin.
Karin Cristina Madureira de Paula, um nome para se agradecer. Que Deus a receba no Céu, mais precisamente na região dos Campos Gerais Celestes.

O que dizer, meu caro amigo...
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