terça-feira, 29 de outubro de 2019

Contações: Mar de vaga-lumes

O causo dos vaga-lumes embalou o sono de minha filha mais de uma vez. Diz respeito a noites refrescantes e agradáveis.

O cair da noite na cidade mineira de Cambuquira envolve em calma e silêncio as águas minerais do parque, que vertem em jorro cristalino incessante.

Este parque, que foi o local preferido de minha infância, mostrava-se ainda mais incrível nas ocasiões em que éramos os últimos a deixá-lo. Em caminhar descontraído, deixávamos a mata e o lago, abandonando seus quiosques ao breu, em meio à sonoridade de grilos e eventuais grasnados de gansos.

Com a escassa iluminacao de lâmpadas incandescentes alocada nas fontes, o trajeto desde o lago ficava bem escuro, cedendo vez à paisagem viva de infindáveis vaga-lumes que vinham festejar aquele espaço ímpar. Meus pais, meus irmãos e eu, maravilhados, ponderávamos se estaria ali uma pirotecnia única em todo o mundo.

Anos mais tarde, no verão calorento de 1982, nos deparamos com algo tão especial quanto, na minha cidade paulista de Cruzeiro. Recém-instalados em nossa casa nova, situada nas franjas do Bosque Municipal e junto a um amplo descampado, estando as ruas do entorno desprovidas de iluminação pública. Da janela do quarto de meus pais, no andar de cima, vislumbrávamos aquele descampado, logo ali, ao lado do bosque, tomado por tantos vaga-lumes quando houveram em Cambuquira. Minha mãe assinalou empolgada: "Quem diria que da janela do meu quarto eu veria o mar de vaga-lumes de Cambuquira?"

Um comentário:

  1. Vaga-lumes sempre me fascinaram! Lembrança de infância... Será que só enquanto somos crianças que os vaga-lumes aparecem para nós??? Nunca mais os vi depois de adulta...

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